Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

28
Jul 11

Há qualquer coisa de estranho,

E que se entranha no meu corpo como as ervas do terreiro, o mar deixou de ter ondas e o vento cansou-se de soprar, as árvores adormeceram eternamente nas sombras da noite, e os pássaros suicidam-se contra os postes de iluminação, há qualquer coisa de estranho que me puxa para dentro da terra, e o buraco negro da vida engole a minha massa e a luz torna-se opaca, e os meus olhos emagrecem nas pedras calibradas das ruas de mãos entrelaçadas na poeira da lua, há qualquer coisa de estranho quando incendeio o quarto de eletrões, quando abro a janela e em vez de olhar o mar vejo uma parede invisível que me tapa a paisagem, o teto começa a descer e eu começo a encolher e as paredes começam a vibrar e em frestas desfazem-se em migalhas de pão,

- Há qualquer coisa de estranho quando os pedacinhos do almoço se interrogam no talher e as mãos começam a inchar, levantam-se da mesa guardanapos com gripe e a água em escuridões de azoto evapora-se do copo amargurado, o peito em saliva dilata-se nas nuvens antes da chuva miudinha, pieguices modernas, loucuras de hoje, o almoço amarrotado nos intestinos como se fosse o xisto da vinha, e os cachos de uvas agridem-se em bofetadas de mel, o doutor levanta os olhos, olha-o e diz-lhe que ele só pode estar louco,

Sinto muito mas o senhor está maluco, o homem discute e argumenta que não, e o doutor continua a explicar-lhe O senhor precisa de ser internado!, e o homem pergunta-lhe Porquê?,

- O senhor não distingue a realidade do sonho!, o homem enfurece-se e pergunta-lhe que se explique O senhor doutor explique-me lá isso muito bem!, O seu problema é que não distingue a realidade do sonho, isto é, ao sonho chama realidade e à realidade sonho,

Não percebi responde-lhe o homem,

- O senhor vive dentro de um sonho, Percebe?, e eu, finjo que sim, Percebi!, O senhor construiu um sonho onde está sem trabalho e sem dinheiro Entende-me?, Espere aí doutor, espere aí, Quer dizer que não estou desempregado e sem dinheiro?, Claro que não homem é tudo um sonho…

Desculpe-me doutor mas não percebi, eu sei que sou um pouco estúpido mas é-me difícil perceber o que o doutor está para aí a escrevinhar na ardósia, Não se preocupe, uns dias em isolamento na enfermaria e tudo volta ao normal!, Normal? Que normal?, ao normal explica-lhe o doutor dos malucos,

- Volta ao seu emprego, E qual era?, O senhor é administrador de uma empresa do burgo, Ai sou!, É, e ganha muito bem, Ganho?, claro que sim responde-lhe o doutor,

Há qualquer coisa de estranho quando releio este texto encostado aos umbrais do silêncio, o doutor dos malucos sentado à minha beira a fabricar papagaios de papel e eu entretido nas fotografias a olhar o mar de luanda, os cordéis enrodilham-se nos tornozelos da secretária e uma nuvem sorri da fotografia,  batem à porta,

- O senhor administrador e o senhor doutor dos malucos ao refeitório se fazem favor, em voz grossa o enfermeiro,

E o estranho é que chovia em agosto, e era noite, e o jantar meia dúzia de pilulas a dividir por dois…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:52

21
Jun 11

Acordo.

De algodão a mão limpa-me o rosto, afaga-me os cabelos adormecidos, abro os olhos vagarosamente, e à minha frente de branco a imagem reflectida na parede, Deus?, Nossa Senhora?, enfermeira?,

 

Acordo.

De algodão a mão limpa-me o rosto, afaga-me os cabelos adormecidos, abro os olhos vagarosamente, e à minha frente de branco a imagem reflectida na parede, Deus?, Nossa Senhora?, enfermeira?, percebo que me encontro no nada, tubos, fios, aparelhos parecendo electrodomésticos observam-me como se eu fosse um estranho, inerte,

- A voz de silêncio que percorre o corredor na luz ténue da tarde, a mãe dele com um terço na mão?, a mão de algodão sorri-lhe, frente à janela as flores que jogam à macaca, quadrados impressos no cimento dos passeios, Deus salve o meu filho, o terço em rotação nas mãos magras e cansadas, o corpo inclinado a trinta graus, o verão poisa em pequeníssimos orgasmos fingidos, e o corredor começa a dilatar-se como uma veia no cansaço das picadinhas do pó rafeiro, muitas vezes gesso, o tecto em derrocadas amargas,

Obrigado meu Deus, ele acordou.

Estou vivo.

Não tenho pernas, eu vejo-as, vejo-as mergulhadas nos lençóis e disfarçadas de nuvens, mas não as sinto, com a ajuda de uma grua tento levantá-las, e parecem as dobradiças do portão do quintal de Luanda, perras, barulhentas, os móveis em movimento no apartamento em Lisboa, madrugada dentro, as minhas pernas acordam o prédio em descanso, homens e mulheres que ressonam, homens e mulheres enrolados nas acácias junto ao rio, e homens e mulheres vendendo prazer em filas de coxas nas velharias de Belém, sábado, o sol vem-se aos poucos e na minha pele a brancura das paredes da enfermaria, tenho fome,

- E ele quando menino agarrado às minhas pernas e soluçava com o cheiro do mar, procurava as lágrimas no céu, e os olhos verdes começavam a mergulhar na maré,

E se ele acordou, meu Deus, faz com que comece a andar.

A mão de algodão a atirar frases contra as paredes, como se sente, tem dores, lembra-se como veio para aqui, tente levantar as pernas, e o cheiro intenso a merda onde repousa o meu rabo um qualquer musseque em Luanda, a lama em gatafunhos entre os becos, e a sombras das palhotas emagrecem na chuva miudinha, levantar as pernas só com a grua do senhor Ernesto, e porque me olham os vizinhos,

- Já posso falar com ele?, e que não, e que precisam de dar-lhe banho, coisas simples da higiene, coisas tão simples, e eu apenas um beijo na testa,

Obrigado.

E lembro-me que andava no jardim a apanhar flores e uma sombra tombou sobre mim, só isso?, que eu me lembre, só…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:05

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