Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

01
Mai 11

Não posso estar presente

No dia do meu funeral.

Lágrimas derramadas por muita gente,

Rancores de raiva me querem tão mal.

 

Tiveram o cuidado

Em vestir-me a rigor,

Fato e gravata, no caixão deitado

Multidão que chora presente dor.

 

Porque choram pergunto eu desanimado!

E só depois de ter morrido

Compreendi a razão de ser odiado...

Sinto-me triste por ter nascido!

 

E estou feliz deitado

Neste caixão em madeira...

 

A presença do vigário

Nunca me agradou,

Fizeram tudo ao contrário

Daquilo que o meu pensamento planeou.

 

Não me importo. Irei contrariado...

 

Poucas horas deitado

E já me sinto distante,

-Porra. Sinto-me cansado

De olhar tão triste gente.

 

Estou pronto para embarcar.

No meu quarto depositado

Ouço alguém cantar

A canção do abandonado.

 

Choram as mulheres lágrimas na escuridão

E feliz, vejo crianças a brincar,

Brincadeiras à volta do meu caixão

Antes do cangalheiro as portas fechar.

 

Começa o maldito padre uma “merda” qualquer,

E eu que nem padre queria.

 

Fecha-se o maldito caixão

E o meu olhar perde-se no meu corpo cansado,

Gritam… meu querido filho! Filho da minha alma meu coração...

E tudo fica calado.

 

Missa não.

O maldito padre apressado

Reboca o meu pobre caixão,

E eu a rir porque vou deitado.

 

Lançar as cordas. Corpo ao fundo. Finalmente...

A terra cobre-me como sempre tinha pensado,

Terra que tudo mastiga, terra que engole gente.

Assim descansa o meu corpo cansado.

 

Mais tarde uma lápide foi colocada

Em memória de um tal Luís Fontinha, data de nascimento...

Nascido em Janeiro e Luanda apaixonada

Meu filho querido tristeza do meu sofrimento.

 

E a lápide foi apagada.

Um anjo na escuridão

Novas palavras escreveu pela calada,

Aqui Jaz Luís Fontinha, aqui apodrece o maldito “cabrão”.

 

 

Sete anos mais tarde.

 

As letras no tempo foram apagadas

Tal como uma folha de papel amarrotado.

 

Outro no meu lugar foi enterrado

Juntamente com os restos que sobravam de mim,

E eu sem culpa alguma compartilhei o mesmo valado

Que mais tarde alguém fez um jardim...

 

 

 

Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:52

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