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Cachimbo de Água

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Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea X

Francisco Luís Fontinha 21 Ago 18

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Entre o Sono e o Sonho – Com participação de Francisco Luís Fontinha

Cachimbos de Prata

Francisco Luís Fontinha 25 Mar 13

pag. 465 (poema de Francisco Luís Fontinha – Cachimbos de Prata)

 

 

Um pedacinho de névoa

entranha-se na tua doce boca vestida de alecrim

e das algibeiras insónias madrugadas

acordam as imagens fictícias do orvalho incendiado pelo incenso doirado

olho-te vagarosamente no espelho mental das árvores danificadas

pelos ventos e tormentos que em ti navegam

perdidamente como uma gota de água

esquecida num banco de pedra debaixo de um plátano tresmalhado

e doente apaixonado

pelos orifícios indistintos do velho jardim

um pedacinho de névoa

entre os teus lábios narcisos e a tua língua rosa com pétalas de amor,

 

Oiço a tua mão voraz desenhando letras nocturnas

em nuvens de seda

oiço os teus gemidos transversais contra as paredes do velhíssimo relógio

suspenso no peito cansado e triste do homem das sete patas de madeira oca

oiço a voz rouca de um cachimbo de prata

saltitando

dançando

nas eiras graníticas das canções que a infância comeu

em pequenos torrões de açúcar

misturados com sílabas de céu estrelado

e sandes de marmelada

ao pequeno-almoço,

 

Pedia-te sossego e tu desaparecias de mim

dançando

saltitando

como um cachimbo de pedra adormecida pelas vagas contra os rochedos

dormíamos dentro dos ouvidos da praia

e antes de encerrarmos definitivamente os cortinados da Aurora Boreal

entrava em nós o Rossio vestido de gente

com mãos de noite

ouvíamos o rio nas catacumbas do amor

a pintar estrelas de luz

e luas de papel

e eu sabia que tu nunca mais irias regressar das salivas amargas do primeiro amor...

 

 

@Francisco Luís Fontinha

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