Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

31
Out 15

Diz que disse sem o dizer

Dizendo que eu era um monstruoso esqueleto com asas

Que voava enquanto todos dormiam

E que tinha uma cidade só minha

Diz que disse sem o dizer

Dizendo

Mas disse-o

Esquecendo

Que eu voava nas noites de insónia

Que era monstruoso

Que tinha alergia aos rochedos da solidão

Não o dizendo

Disse-o

Um dia

Nos meus lábios

Emagrecidos

Pobres

Descarnados pelo veneno da madrugada

Que só o Inverno consegue abraçar

Diz que disse sem o dizer

Dizendo

Que um dia

Qualquer dia

Eu

O esqueleto monstruoso com asas

Ia morrer

Sem o saber

Dizia-o

Que disse

Sem o dizer

Inventando-me sonhos que eu não queria

Nem dormia

Com medo das suas garras de chocolate…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:11

09
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

embriagas-me os olhos em silêncios neblina

como esperanças vãs

e manhãs adormecidas

que dentro ti

voam como serpentes em desejo

no veneno tua doce mão

que dentro de ti

entre o beijo e a saudável poesia

embriagas-me

os meus olhos sintéticos pintados com acrílicas insónias

e dizes que as minhas pálpebras são os pedaços da noite

mergulhadas em mesas de café...

 

embriagas-me como paixões de areia

no coração dos barcos apaixonados

indefinidos sem saberem o sexo das marés travestidas de baloiço

onde me embriagas

e me comes

e sinto o meu esqueleto vaguear sobre as tuas coxas de cereja

como um transeunte ausentado das madrugadas em papel

branco vazio sem palavras ou... recheado de cadáveres empobrecidos...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:52

03
Jul 13

foto: A&M ART and Photos

 

Oiça, olhe o que eu lhe digo, está a ouvir-me? Gostava da disposição das mesas, do alinhamento dos talheres, da preciosidade dos prato, uns sobre os outros, fazendo-me recordar as fatias de espuma sobre a crista das ondas, gargalhando como pequenos soluços, ouviam-se horrores transformados em montanhas desavergonhadas, olhávamos os céu, e víamos o cansaço dos anos em pequenas travessuras de crianças, doidos, correndo na peugada de uma sandes de marmelada, ouvíamos, e nada dizíamos, porque éramos pobres, porque éramos melancólicos, porque

Oiça,

E é tão bom, saber que sobre nós, voa uma voz de silêncio, vestida de noite, e ouvir sem perceber porquê... o bater de asas em papel crepe, oiça

Oiça, olhe o que eu lhe digo, está a ouvir-me? Todos loucos, porque os pássaros deixaram de voar, porque as flores nunca mais senti que sorrissem para mim, para os outros é uma coisa... agora, para mim? Eu, o único solitário que lhes pegava com todo o cuidado, acariciava-lhes as pétalas doiradas de olhar envergonhado, eu, eu que me sentava em frente a elas, eu que cruzava os braços, e sorria

Inventava-lhes abraços,

Oiça,

E é

Oiça o que eu lhe digo,

Diz lá, Carlitos,

E é tão bom quando chegamos a casa, abrimos a porta, nada lá dentro, e tudo cá fora, entramos, deixamos as roupas transpiradas no cabide exposto no Hall de entrada, ficar nu, cá dentro nada existe, apenas um espaço vazio, sem vozes, sem livros, e palavras

Oiça o que eu lhe digo,

Diz lá, Carlitos,

E é tão bom, percebermos, que ninguém nos espera, e é tão bom, tão bom, e palavras voando pela janela até desaparecerem entre as roseiras do quintal da Augusta, parecem borboletas vagueando os sonhos do meu corpo desnudo, ósseo, filho de um esqueleto de vidro, finas partículas de areia, um alto-forno a temperaturas elevadíssimas, eu, no centro do forno, borbulhas de azoto, películas de pele levadas pelo vento, panfletos a anunciarem uma greve geral que nunca chegou a acontecer, um dia, de um País que nunca existiu, e morreu dentro do alto-forno... todos lá dentro, o meu esqueleto, a areia, e eles, claro,

Oiça o que eu lhe digo,

Diz lá, Carlitos,

(isto está fodido!)

Isto, isto o quê?

Isto, isto tudo!

Tudo não, porra, porra não, quase tudo, mas nós ainda estamos de boa saúde, pensa Carlitos, pensa que ainda existem pessoas em pior situação do que a nossa

A nossa, qual nossa?

A minha e a tua, porra, porra não, é que...

Oiça o que eu lhe digo,

É que ainda estamos vivos, percebes? E nos tempos que correm... estar vivo é a maior vitória, depois da águia, claro, claro, claro, não porra, porra não, claro, ah...

E é

É o quê?

Tão linda, ela, mais bela que o mar, mais leve que o vento... e voa, voa como as gaivotas, e navega, e navega como os barcos quando entram na barra

Nos teus braços?

E é

É o quê?

Tão linda e tão bela, como ela, como ela quando entra em casa, tudo vazio, as vozes ofegantes das minhas personagens, todas elas, dormem, digamos que

Talvez não durmam todas, mas tenho a certeza que algumas delas, dormem, oiço-as, oiça, olhe o que eu lhe digo, está a ouvir-me? Gostava da disposição das mesas, do alinhamento dos talheres, da preciosidade dos prato, uns sobre os outros, fazendo-me recordar as fatias de espuma sobre a crista das ondas, gargalhando como pequenos soluços, ouviam-se horrores transformados em montanhas desavergonhadas,

Tão linda e tão bela, ela...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:43

04
Abr 11

O meu esqueleto pendurado no cabide

E com o que me resta faço uma fogueira

Queimo todos os meus livros

Incendeio as minhas telas

Está vento

Palavras são levadas pela rua

Corro em busca delas

Nada poderá ficar intacto

Apenas cinzas

E o meu esqueleto pendurado

 

De perna entrançada

Fuma cachimbo

Está vento

As cores das telas

Entram na sarjeta

O meu esqueleto pronto para ser encaixotado

 

E não tenho a certeza

Não tenho a certeza se os meus ossos

As cinzas dos meus livros e das minhas telas

Têm espaço no caixote da morte…

E o caixote da morte fecha-se sobre mim.

 

 

 

FLRF

4 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:58

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