Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

29
Nov 14

Simplificado orgasmo sem sentido,

o prazer da escumalha insónia

quando o clitóris se enfurece

e foge... em direcção ao mar,

simplificado sorriso das tuas fantasias disfarçadas de cidade,

transeuntes em fúria,

nomes desorganizados

nos braços de estátuas embriagadas,

soníferos sofrendo quando a noite se despede do silêncio,

a morte em fumo

disfarçado de cigarro... a morte

o insignificante abutre na canção da estória...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 29 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 01:35

30
Ago 11

E que os dias se escondem nas sombras dos ponteiros de um relógio, desce suavemente o cortinado da noite, e no palco da vida começa o espetáculo, um texto inventado, personagens inventadas, cenários fictícios, e a vida resume-se a uma estória inventada, a vida enrolada nas manhãs junto ao abismo, um pássaro sorri, e no espetáculo da vida continua a chover, há nuvens, e a tempestade alicerça-se junto aos espetadores, tristes, impávidos, ausentes, e começa a noite,

 

Um poema é disparado contra a assistência, e sobre o palco, sobre o palco três cadeiras e uma mesa coxa, e numa das cadeiras está sentado Milan Kundera, sereno, e olha a assistência de frente, como em toda a sua vida, olhos nos olhos,

 

Recorda os tempos da antiga Checoslováquia, nascido em Brno, em 1929, e recorda, e de olhos nos olhos para a assistência recorda, quando foi demitido de professor no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, viu os seus livros proibidos, e o seu nome banido da lista telefónica, e acabaram por lhe vedar o acesso ao trabalho, e em 1975 fixa residência em França,

 

Da assistência alguém interrompe Milan Kundera, e o encenador da vida pega no copo de água poisado na mesa, mastiga os lábios e molha-os, e o espetador pergunta-lhe Como é possível ter isso acontecido?, Milan Kundera poisa o copo sobre a mesa, finca as mãos e responde-lhe É assim o palco da vida, meu amigo, é assim o palco da vida!,

 

E que os dias se escondem nas sombras dos ponteiros de um relógio, desce suavemente o cortinado da noite, e no palco da vida começa o espetáculo, um texto inventado, personagens inventadas, cenários fictícios, e nada é real, os atores que se deitam sobre a seara de trigo junto ao mar, o texto é folheado por um aprendiz de feiticeiro, e todas as personagens, e todas as personagens são engolidas pelo cansaço da maré,

 

O público aplaude, o público quer mais,

 

E o encenador da vida com as lágrimas nos olhos vê o seu rosto no espelho pendurado na parede do camarim, e pergunta-me, e pergunta-se, Terá valido a pena?, e puxo de um cigarro, e acendo-o, e quando o poiso sobre o cinzeiro, respondo-lhe Amigo, tudo na vida vale a pena…

 

E a vida resume-se a uma estória inventada, a vida enrolada nas manhãs junto ao abismo, um pássaro sorri, e no espetáculo da vida continua a chover, há nuvens, e a tempestade alicerça-se junto aos espetadores, tristes, impávidos, ausentes, e começa a noite,

 

Apagam-se as luzes do teatro da vida e o encenador adormece.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:57

20
Jun 11

Todas as coisas têm uma estória, todas as coisas têm uma vida. O corpo morre e fica a estória, e o cachimbo de água só morrerá com o desaparecimento do meu corpo, mas quando ele for pó, o blog cachimbo de água permanecerá algures na rede, palavras que ficarão mesmo depois de eu deixar de existir.

Poderia começar a história do cachimbo de água com… Era uma vez…

Mas não faz sentido porque o cachimbo de água está vivo e presente em cada momento de mim, e de vós.

 

O miúdo que nasce em Luanda e que ainda hoje procura na memória os cheiros e as sombras da cidade, aos poucos, já em Portugal, começa a devorar livros pela influência do pai, dos livros vêm as palavras e até à escrita é um saltinho.

Eu, anti-cigarros, para enganar a saudade, em Lisboa, começo a escutar no fumo as palavras que me habituara em casa, o sentar-me junto ao Tejo a olhar o rio e a criança que acabava de regressar de Angola, e em todos os barcos eu sentia a presença do menino que fazia papagaios de papel e se deitava debaixo das mangueira, de barriga para o ar, a olhar o céu…

A vida traz-me a paixão pelos cachimbos, e quando percebo, trinta e seis cachimbos em madeira, trinta e seis estórias. Olhava-os e sentia que faltava algo, faltava um cachimbo de água.

Um dia, daqueles dias em que não temos paciência para nada, um Marroquino a querer impingir-me bugigangas, e para o despachar da minha impaciência pergunto-lhe se tinha cachimbos de água, ele em resposta curta que não mas para não me preocupar porque ia encontrar um, ele acreditava que eu falava a sério, eu acreditava que ele brincava comigo, e uns dias depois, quando eu já tinha esquecido o cachimbo, ele aparece-me com este cachimbo de água, e que desde então poisa pacientemente sobre a minha secretária, sentado à minha esquerda.

Eu, sentado à sua direita, escrevo palavras, palavras que após a minha morte, continuarão vivas no blog Cachimbo de Água.

 

(Obrigado à Teresa Alves da equipa dos blogs Sapo e ao Rui Morais, grande artista da fotografia de Alijó)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:55

25
Abr 11

Olha…, vou contar-te uma estória

De quando eu era pequenino,

Franzino,

Muito menino,

Esquecido na memória.

 

Uma flor

Dançava na mão de uma donzela,

E ela, a donzela,

Sorria de tanto amor…

 

Dançava e corria

No jardim de ninguém,

E sempre que alguém

Aparecia…

Corria e dançava,

Sonhava

E corria,

 

E a flor

De tanto dançar,

Apaixonou-se, enlouqueceu de amor

Amor de sonhar,

Sem ondas de mar,

Com sonhos de maré, sem maré de sonhos,

Eis a flor,

Meu teu grande amor,

Amor dos teus lábios risonhos…

 

Mais tarde, no futuro longínquo, distante,

A flor espera pela sua donzela,

Espera sua amante,

Amor com amor se paga,

E se transforma em cinza, amarga, e cansada,

Esconde-se no infinito ausente.

 

 

 

Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:27

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