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Cachimbo de Água

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Tão gira ela

Francisco Luís Fontinha 5 Jul 11

Vou roer-te os tornozelos seu “monte de esterco” sentenciou o rafeiro enquanto me aproximava, e assim fez, com dois dentes presos por arames ao muro de vedação, zás, a picada minuciosa nas minhas pernas de árvore centenária, das queixadas abertas como a garganta de um vulcão as palavras errantes que se fixavam às minhas calças, a ganga arranhada no silvado de pêlo curto e génio entrelaçado na sombra das bananeiras, e escondia-me e pensava, levas um pontapé nos queixos que até vais ver estrelas, e nem as estrelas caíram do céu, nem o meu pé conseguiu tocar nas queixadas do rafeiro, ele um cagalhão que cabe na algibeira e tão ranhoso e tão guerreiro, e faz-me lembrar aqueles que gritam e gritam e gritam e com um tabefe aterram no pavimentos com a fuça desfeitas em pedacinhos de papel pela gatinha da vizinha,

- Tão gira ela,

A gatinha ou a vizinha?, para mim o rafeiro em sorrisos parvos, e que posso eu responder, que nem uma coisa nem outra, e que não tenho vizinhos, os metros quadrados de quintal começam a encolher na tarde, juntamente com a noite os estorninhos que regressam de mais um dia laboral, as filas intermináveis, os berros das buzinas camufladas debaixo das asas, a paragem obrigatórias nos semáforos com tosse e rouquidão, a poluição da descarga incontrolada de nuvens em decomposição, e passo ao de leve a mão pela cabeça e o cheiro intenso a palha e urina, e escrevo nas paredes,

- Malditos estorninhos,

Os plátanos esperam-nos e o rafeiro louco a correr em círculos desajeitados, grito-lhe anda cá REX, e REX nada, como se eu fosse um “monte de esterco”, e percebo que ele,

- Vai-te foder e deixa-me correr,

A língua pendurada ao canto da boca e o cigarro de lambidela em lambidela extingue-se-lhe e sobram-lhe as cinzas com o cheiro a cio, cabrão de cão, e eu anda cá REX, e o REX levanta a pata e com os dedos constrói uma figa, FOCK YOU,

- E escrevo nas paredes malditos estorninhos que vacilam em todos os finais de tarde,

E todos os finais de tarde este pelintra a roer-me os tornozelos, passa-me as calças a ferro, e quando tinha mais dentes até um par de botas conseguiu furar, sinto a agulha a tocar-me no dedo, e desde aí quando chove em demasia as inundações do costume, as sarjetas entupidas, as folhas que se entranham garganta abaixo, meia volta no estômago e do intestino uma pasta pegajosa, a que o povo apelida de merda,

O quintal agora apenas milímetros quadrados, e eu pergunto-me, e o resto do terreno?, e eu pergunto-me, e as árvores?, e eu pergunto-me e o REX?, e eu pergunto-me, e os estorninhos?, e respondem-me do portão de entrada,

- Todos mortos, na lápide a bravura heróica dos soldados em combate que na guerra das sombras defenderam todos eles, todos eles sem excepção, a missão que lhes tinha sido confiada,

Tão gira ela,

A manhã quando acorda e as gotinhas de orvalho lentamente na minha pele, e no quintal o insuportável do REX a roer-me os tornozelos que abanam na língua da ganga,

O pequeno-almoço na mesa,

E na TV em rodapé junto ao soalho ULTIMA HORA “Moody´s corta rating de Portugal para lixo”, e eu e o resto do terreno e as árvores e o REX e os estorninhos em voz alta, que novidade…

A casa seminua amarela e suja

Francisco Luís Fontinha 25 Jun 11

A casa amarela e suja,

Seminua encastrada na serra que a humidade corrói como um barco enferrujado, o aço que cintila e absorve a luz do dia, os bichos que habitam nas minhas árvores e ao final da tarde esperam impacientemente pelo regresso dos estorninhos, ensurdecedor este silêncio de pássaros que lá do alto deixam cair a porcaria esbranquiçada que nas tripas se acumula e alastra como manchas de óleo no pavimento,

- Que faço eu aqui?, diz a casa no silêncio da serra, as janelas de boca aberta na sombra das árvores,

O sol sufoca os pulmões da casa,

Na tosse engasgada quando o meu corpo diminuído se agarrava a um ramo de árvore e parecia um pêndulo em movimento, horas minutos e segundos no recreio da escola junto ao jardim, defecar só no terreno do vizinho, e sentia no rabo o vento fresco da manhã, malditos estorninhos, quando o rabo se encostava às peugadas da sombra das videiras, a escola empenada e de coluna vertebral escorregadia nos bicos de papagaio, tosse tosse nas arcadas da minha mão, tosse na casa amarela e suja nos olhos esbugalhados dos estorninhos durante a noite,

- E feliz eu quando habitada!, agora, agora míseras paredes inclinadas nos dias chuvosos de inverno, as madeiras a alimentação preferida do caruncho ao pequeno-almoço, e das janelas os farrapos dos cortinados suspensos no vento que assobia serra abaixo, e na cabeça os finíssimos fios de cabelo, e eu feliz quando crianças dentro de mim!,

Dos alicerces a ténue nuvem em decomposição, o cheiro a cadáver nas rugas da argamassa,

A casa seminua amarela e suja, das asas o esvoaçar de penas levadas na tempestade, escondo-me na serra, eu sou a serra entregue por vós, e se fez homem ao terceiro dia, o mar, o mar entra-lhe pela janela e um petroleiro envelhecido derrama sémen nos lençóis da cama, lençóis azuis, a cor do mar quando o lavatório se agarra à torneira e água desce pela parede e na terra semeada as flores amargas da primavera, rebeldes, indomáveis, a casa selvagem ou da bruma escuridão das minhas mãos à espera do jantar, e o que é hoje o jantar?,

- Lasanha meu querido,

Outra vez?,

Outra vez o regresso dos estorninhos, e ninguém à espera deles, sobre a secretária “Vigílias de AL Berto” e “ O caderno de Saramago”, nada mais em mim e de mim, a febre estonteia-lhe a cabeça nos lençóis defecados do mar, e o mar entra pela janela, entra o mar e as mãos de AL Berto, e que injusto este pais,

- Porquê outra vez?,

Ainda ontem…

Nas flores do jardim e hoje não abelhas, das flores do jardim o silvado onde se escondem as lágrimas da casa, a serra a ser engolida pelos estorninhos quando a luz se acende e ela indefinidamente sente o chão em movimento, o peso de anos e anos de olhos cerrados, debruça-se na ribeira e da ribeira,

- Ainda ontem o jantar lasanha,

Os pratos seminus dentro da casa amarela e suja,

Encastrada na serra que a humidade corrói como um barco enferrujado, na testa VENDE-SE, vende-se sucata, mobílias que acabam de chegar da  ortopedia, ainda estão quentinhas, radiografia aos pulmões, e o alcatrão do cigarro preso às paredes velhas e sujas do amarelo esquecido no tecido da saia, e vende-se o petroleiro e os estorninhos que não cessam de cagar, o chão em manchas de óleo, o chão,

- Aleluia Aleluia, Deus proteja esta casa,

Esta casa que se esfarela nos seios da serra,

Tristes e sinceros, e de olhar carrancudo me olham e deixaram de me desejar, dentro da casa a pele húmida e macia onde na parede um calendário parou no dia 25 de Junho de 2011, sábado, 25 de Junho de 2011, um dia como tantos outros não fosse o mar entrar pela janela…

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