Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Murmuro-te contra a fina película que separa o dia da noite, descem os cortinados das clareiras paixões de areia, e um sorriso de mar acorda nos teus braços, começa brevemente a noite agreste dos solitários portões de ferro, o jardim dos sentidos, em pedaços, acorrenta-se ao luar que finge viver nos teus olhos, percebo, hoje, que nunca exististe, nunca tiveste olhos, nunca tiveste boca, lábios, abraços para mim, percebo, hoje que nem o teu nome deixaste ficar no espelho do guarda-fatos cá de casa, penumbra, compartimentos embaciados quando entra em mim a neblina, os cruzeiros e os passageiro imaginados pelas tuas mãos, quando inocentemente

pegavas na esferográfica,

Nunca escreveste o meu nome, nunca desenhaste o meu corpo, nunca sequer escreveste no meu corpo... e que eu adorava-o, ser escrita pelos teus dedos de cacimbo ao final da tarde, sentir a Primavera a entranhar-se-me nas coxas como a concha de um molusco anónimo, sem nome, idade ou profissão, adorava-o, sentir-te em mim, sem estares sempre do outro lado da fina película de vidro, que separa o dia, da noite, e deixa ficar um espaço simples e vazio, oco, obsceno, leviano como os sonhos das árvores do quintal invisível onde em criança brincaste, gostavas de Favarrel – Carvalhais – S. Pedro do Sul, abrias a janela do quarto do meio, chamavam-lhe do meio porque talvez devido a serem três quartos seguidos, e esse, ficava mesmo no meios dos outros, era também o mais estreito, e com a paisagem mas bela, deslumbrante...

pegavas na

Em mim, ouvia-se o sino, ouviam-se os pássaros poisados na ramada das traseiras, ouviam-se os sussurros das espigas de milho, a dormitarem palavras por entre as frestas da ripas em madeira que revestiam o canastro, pegavas na esferográfica, e nem um risco o fazias dentro do meu silêncio peito, poisavas os cotovelos no parapeito, e ficas-te a imaginar sombras a subirem a montanha que olhava para ti, como se fossem lírios tímidos, tão tímidos que cerravam os olhos quando eu, quando eles me olhavam, eu nua, tu, entre dois vidros, e eles, elas pareciam pombas brancas à procura do som poético das palavras ainda não escritas, ainda não prenunciadas, e todo o meu corpo tremia com a tua ausência,

pegavas na esferográfica, inventavas o desejo entre as paredes pintadas de um azul claro, nelas, imaginava o mar, as gaivotas, os abraços que me pedias, e porque eu estava prisioneiro do feitiço da preguiça, não tos dava, desprezava-te como mulher, via-te como uma criança mimada, uma criança que para mim nunca cresceu

Cresci, meu amor, sou adulta, cresci como os eucaliptos da tapada do avô Domingos, cresci e sinto-me e sei, sou mulher, desejas-me?

que ainda olho para lá do espelho, e vejo-a de voz simples, e princesa, saltitar entre as coisas espalhadas no passeio da casa de Carvalhais, hoje penso que ainda és a mesma criança, a menina, a mimada, aquela que dizia

Amo-te, amo-te tanto, meu querido,

criança, menina, mimada até à ponta dos castanhos cabelos, e mesmo assim, hoje, vejo-a sentada num banco com ripas de madeira, aqui, nas Termas de S. Pedro do Sul... ou num qualquer jardim em Luanda,

Criança.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:18

08
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Das tuas tristes mãos, as pérfidas melodias de ti para me contentares como se eu fosse contentável, como o são, os outros, os esqueletos, compostos de massa xistosa com algumas fendas devido ao cansaço, suor, e como escrevinha o povo, e lágrimas, ou, como o pão que o diabo amassou, e se não existir o diabo, e se existir, ele, sabe-se lá, for um péssimo amassador de farinha, água, fermento e sal... e algum esforço físico,

ficamos sem pão

Confesso que nunca vi, ouvi, ou... de perto, convivi com a ilustre personagem que apelidaram de diabo, e que como quase tudo, é o culpado das coisas más, porque das boas, essas, encarrega-se deus, como antigamente, quando acontecia alguma coisa má, em muitas das nossas aldeias, vilas e cidades, claro... a culpa era sempre dos ciganos,

comprávamos heroína, e logo alguém nos dizia – Se fores apanhado dizes que compraste a um cigano! - talvez porque exista uma fisionomia entre eles, ou porque realmente alguns por infelicidade tornaram-se culpados sem o saberem, culpados, como eu, vagueando entre cidades como uma carruagem de metal enferrujado, e de porto em porto, sobre os carris travestidos de tristeza, ando, andam, caminham-se-me porta adentro, cortinados vazios, simplicidades obscuras que acordavam nas poucas esquinas com venda de pequenos bens não essenciais, um rolo de papel alumínio, uma nota de vinte escudos, de preferência de quinhentos escudos, e quinta-feira, sempre à quinta-feira, o carro enfeitado com luzinhas quadricolores, e de seguida, sem o saberem, acordavam as madrugadas de dor de costas, de diarreia, de enjoos, e afins como a insónia, o corpo transformava-se em cilindro, rodava sobre um eixo imaginário, e quando vinha a mim a madrugada, perguntava-me – Quantas Francisco, quantas voltas hoje em torno de ti mesmo? - e nunca percebia até descobrir nas tuas tristes mãos, finíssimas, e de dedos também eles finíssimos e compridos, que

Tinhas dentro de ti, sem eu o saber, uma escada secreta, com cobertores e espelhos, ambos, em madeira de primeira categoria, gosto, muito, - Sabes? - do Mogno ou do Carvalho Francês,

(Antena 3 – Alijó – 101.5 MHz)

Quando chovia, sentia-te desaparecer dentro das sombras que viviam connosco na casa de Favarrel, e só mais tarde, quase quando começaram as demolições da dita, que eu descobri que existia uma escada, até então secreta, tua, só tua, que subias, e a meio caminho, sentavas-te, como uma prisioneira à espera que lhe encerrassem a cela fictícia, uma cela de ficção como os testos dos escritores, que para não se chatearem com esta ou aquela pessoa, escrevem

(texto de ficção, não revisto)

não revisto, vá lá que não vá, - Agora... de ficção? - Não... nãoooo...

(País de ficção, qualquer coincidência com a fantasia é pura realidade)

E tudo em ti é ficção, são-o as tuas doces mãos e tristes palavras, quando acordam no centro da galáxia, os teus olhos, também eles, pura ficção, são-o os teus seios, as tuas coxas de socalco esquecido junto ao Douro, e também é de ficção o teu púbis envergonhado nas eternas geadas de Janeiro, aqui, porque lá, era verão, porque lá, lá tudo, também, como tu, tudo de ficção,

(texto de ficção, não revisto)

Amo-te, meu amor,

Cinco cêntimos de melancolia

Libertava-me de ti e das tuas sombras penumbras que o vento comia

e deixava sobre uma mesa redonda

os cansados uivos que o prazer recheava o prato de sopa mergulhado em tonturas e febres desgovernadas

tristes

cansadas

era eu o teu guardião das madrugadas fingidas pelos teus orgasmos de cera

que ardiam no altar da tua cama virada para o mar,

 

Não eras de pedra

aço

não minha e nunca o serás

e deixo-o arder entre clareiras como flores pintadas com verniz,

 

É-o no medo corrompido sabendo-o esquecido pela infinita mão

de ficção

em cinco cêntimos de melancolia

e três dias depois

evaporou-se como se evaporam as minhas palavras para ti...



Mata-me se puderes, mas

(ficção)

Deixa-me ficar os teus lábios para eu recordar, um dia, e nunca o esquecer...

esquecer o que são lábios, os teus, de pura ficção,

… de mera fantasia.

 

(Amo-te, meu amor)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:51

18
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Porque gemiam as gaivotas se o mar parecia um campo de milho, calmo e sereno, diluído em azuis e castanhos, meninos com infâncias destruídas, meninos sem infâncias prometidas, e no entanto, sabíamos que um dia íamos experimentar os chocolates com frutos silvestres, que um dia íamos experimentar as cavernas encolhidas nas rochas no cimo da montanha com o coração de riacho, as penas eram de sobreiro e de olhar terno, frágil, magoado, um olhar existente em construções falsas acompanhadas por lágrimas de cereja, e as pernas, tenho uma vaga sensação que eram de granito, e havia uma escada de acesso à caverna, entrávamos, amplamente arejada, uma enorme entrada, e sem janelas, e depois, continuava por um corredor, curvilíneo, até desaparecer na escuridão da noite, não tínhamos móveis, e dormíamos no chão, não tínhamos nada, e éramos tão felizes, como a pequena fogueira que ardia noite e dia, como se fosse uma porta de entrada em madeira robusta, que apenas servia para afugentar os animais mais endiabrados, mas

(que animais fariam mal a duas apaixonadas sombras?)

Ao longe ouvíamos o sombrear da lua quando caminhava sobre a copa das nuvens, tão finas, tão belas e tão doces, diziam-nos que eram de açúcar, mas por infelicidade, mas porque o destino nos tramou quando resolveu juntar-nos numa noite de Setembro, nunca tivemos o tempo necessário para verificarmos se realmente as nuvens eram de açúcar, mas que cheiravam bem, lá isso cheiravam, e que quando chovia, sentávamos-nos cá fora, e sentíamos as gotas de água da chuva junto ao canto do lábio inferior, e aí sim, percebíamos que era doce, mas nunca tivemos a certeza que fossem de açúcar..., como também, nunca tivemos a certeza de nada do que vivíamos ou viveremos na posteridade das sebentas com as páginas brancas, sem imagens, desenhos, e palavras, e ao

(animais)

Longe tínhamos terminado de acender os candeeiros a petróleo, nas mochilas apenas alguns cadernos, alguns livros, e lápis de carvão, e todas as noites, enquanto olhávamos a labareda da velha fogueira, olhava-lhe os olhos e imaginava um rebanho de ovelhas saltitando nas terras férteis e indomáveis de Favarrel, ainda conseguia imaginar o tio Serafim em corridas loucas e à pedrada contra a estrelada, e esta, quando regressava a casa, tardíssimo, mancava, e o velho

(que tem a ovelha, rapaz? - Caiu da parede abaixo, meu pai – e o velho dizia-lhe que no dia seguinte a estrelada ficava no curral, e o Serafim contente, saltava de alegria, porque depois da escola já não ia com as ovelhas para o pasto...)

E o velho tudo fazia para que o filho fosse agricultor, e o Serafim comportava-se como um artista, cantava fado, contava histórias, andou pelas ruas de Lisboa e quando regressou a casa convenceu toda a gente que tinha estado no Brasil, e durante dois ou três anos, ninguém, ninguém sabia do paradeiro do cantante que saiu de casa propositadamente para viajar até às terras de Vera Cruz..., ficou por lá encantado com os cheiros e com os sons

(do Tejo)

E com as mulheres de lá, onde durante a noite se escondia em tasquinhas perdidas em ruelas, e de dia, de janela encerrada, e de cortinado puxado até aos confins do Inferno, ressonava canções com sabor a vinho e sonhava com barcos que se faziam passear pela Terra Nova na peugada do fiel amigo; o eterno bacalhau,

“Porque gemiam as gaivotas se o mar parecia um campo de milho, calmo e sereno, diluído em azuis e castanhos, meninos com infâncias destruídas, meninos sem infâncias prometidas, e no entanto, sabíamos que um dia íamos experimentar os chocolates com frutos silvestres, que um dia íamos experimentar as cavernas encolhidas nas rochas no cimo da montanha com o coração de riacho, as penas eram de sobreiro e de olhar terno, frágil, magoado, um olhar existente em construções falsas acompanhadas por lágrimas de cereja, e porque transpirava o espigueiro recheado de espigas de milho, e porque tinham os melros medo do escuro, quando alguém por engano, desligava o interruptor do dia, vinha a noite, trazia com ela outras amigas, bebíamos, comíamos e fumávamos, sem que nunca tenhamos percebido, sem que nunca tenhamos admitido, que, ontem, na caverna, não tínhamos móveis, e dormíamos no chão, não tínhamos nada, e éramos tão felizes, como a pequena fogueira que ardia noite e dia, como se fosse uma porta de entrada em madeira robusta, que apenas servia para afugentar os animais mais endiabrados, mas os animais ferozes, éramos nós, eu, ela”

(e sentíamos as gotas de água da chuva junto ao canto do lábio inferior, e aí sim, percebíamos que era doce, mas nunca tivemos a certeza que fossem de açúcar..., como também, nunca tivemos a certeza de nada do que vivíamos ou viveremos na posteridade das sebentas com as páginas brancas e os títulos a negrito, poucas palavras, as datas mais importantes, o nascimento, e o último a morrer, ficará encarregue a reescrever a história e a data final de quando terminar a fogueira, tudo dentro da caverna cessará de respirar, e apenas a cinza da fogueira ficará como testemunha do amor de dois apaixonados, risíveis, ternos e com saudades do apito do comboio em corridas loucas na linha de Cais do Sodré até Belém, saía, puxava de um cigarro, e)

Como cresceu o milho,

(e sentava-se no parapeito da janela imaginária para o Tejo)

E não só o milho, o rapaz também está crescido, e a própria cidade, parece obesa, oca, sombria, uma cidade dentro de outra cidade, que, que hoje já não existe...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:55

08
Abr 13

Não, tenho medo de perceber que a noite acontece, apenas, e só, porque nos teus olhos cresceram as margaridas das madrugadas em flor – Desculpa, onde colocaste a pilha de livros que estavam sobre a mesa da cozinha? - sei lá, talvez, e... - Porquê? - Olha... já viste na casa de banho? Não, tenho medo de

(trazias no bolso a caixa de fósforos, na camisa, sempre acreditei que fossem cigarros, não, não eram, e medo, só, a escrever, sentado sobre um pedaço de xisto, só com duas, colheres, de, prata, sim, eram de prata, e depois ouviam-se-lhes os guisos melódicos das palavras por escrever, mortas, nunca escritas, porque a saudade é de borla, pintavas as telas com acrílicos mergulhados em bagaço, o Conhaque sabia-te a Primavera sem nuvens, sem lágrimas, sem...)

Eras bela, diziam todos os espelhos dos guarda-fato da rua dos Caracóis, e – Porquê? - e porquê o quê? O amor, sabes o que é? Sei o que são rios fingidos como as ervas junto à eira de Carvalhais, e tu

(sentava-me no degrau do palheiro, e quando o vento batia no espigueiro, ouvia, tenho a certeza, ouvia poeticamente os Fingertips sobre a ponte do rio Sul, nas Termas, os patos silenciados pelas cascatas de areia dos olhos tricolores das meninas que brincavam junto às ruínas dos balneários Romanos, e além de ouvir os Fingertips, via o Rei e a Rainha, coitados, tão tristes, e tão belos, e assim se curou o primeiro Rei de Portugal e a última Rainha de Portugal, eu olhava a ponte e apetecia-me abrir os braços e...)

E tu parecias janelas construídas em madeira envelhecida, e sempre encerradas, perdoa-me, mas... tenho medo, do vento, das palavras, das ruas e dos gritos dos pinheiros em castelo – E do silêncio que vinha dos espigueiro recheado de espigas de milho... - e não havia luz que iluminasse as tristes mercearias da rua dos Caracóis, sem candeeiros, sem transeuntes, sem palavras ou traficantes – Uma rua sem traficantes é como um jardim sem flores – ou como um homem sem mãos, ou uma mulher sem pétalas de rosas, e nós tínhamos as canções de Outono regressado dos perfis laminados do inferno complexo de rochas em papel, desenhos na traseira das portas das casas de banho – Fulano é um corno – ou – Imagina a mulher da tua via... agora, imagina-a a cagar – ou – Me liga amor, me liga – e mentalmente fotografava a preto-e-branco as imagens sem literatura, poucas palavras, como as ervas junto ao palheiro, que, de vez em quando, olhavam, acariciavam... o velhinho espigueiro de

(Carvalhais à solta, terreno abaixo, ribeiros submersos em musgo caligrafado pelos olhos das moscas em delírio, e assim, quando o relógio de pulso abria a boca, quando abria, sorria-me em trinta e cinco suaves prestações, e eu, eu recordava-me da tapada com o pulmão ensanguentado de pinheiros, fieitos, e pequenas coisas que o avô guardava dentro de um envelope, e depois, enviava, pelo correio, sem destino, sem direcção, sem nomes, até que um dia descobriu o casebre do monte Desgraçado, e chegava derreado, o Domingo de Páscoa)

Endurecido pelas chamas do insignificante poema à menina Sem Nome, com uma simpática estrutura de madeira assente sobre um esqueleto de pedra, os ossos rijos – Como vão esses ossos Avô Velhinho? - e ele dizia-nos – Tal como quando regressei de França, da Primeira Grande Guerra, meu rapaz – e apenas com uma mão fazia o que eu nunca consegui fazer

(fazer um cigarro)

Tentei, tentei... e desisti quando percebi que os carris onde circulava um comboio de espuma, aquele que às vezes aparece nos sonhos dos meninos, tinha desaparecido, como desapareceram, o palheiro, a eira, o espigueiro e a casa, e quanto à tapada

(fugiram todos os pinheiros mansos)

E os cigarros em prazer de ácidos e argamassas com chocolates embrulhados em telhas de vidro, e sabíamos que as bolas de golfe brincavam sobre a secretária, depois, tínhamos os cachimbos, uns em madeira, dois em vidro e outros dois de espuma do mar, um de água, e um livro com fotografias onde habitavam corpos despedaçados, horrível, horrendo, frágeis as minhas tuas mãos quando nos sentávamos no banco de madeira em frente aos Correios... e não, foi fuzilado por promover o amor, condenado, foi mandado destruir pelas mãos do Presidente da (de) Câmara, e hoje apenas uma fileira de árvores solitárias caminha nocturnamente depois de cair o cortinado da lua, baixam-se as persianas, retiras o penoso soutien de veludo... e – Apetece-me pegar-te na mão e inventar o mar no teu peito! - e eu, apressadamente, erguia âncoras e íamos até ao infinito...

(fugiram todos os pinheiros mansos).

 

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:59

29
Mar 13

foto: A&M ART and Photos

 

Suspensa,

(preciso de viver dentro dos orifícios das paredes de linho)

Eu, suspensa entre uma nuvem azul e um sorriso encarnado, eu, sentada sabendo que o degrau onde me sento está literalmente,

(morto?)

Submerso na tua mão de borboleta com asas de veludo, ouvem-se-lhes lágrimas de pérola caírem dos pinheiros bravios de Carvalhais, e o miúdo à janela pinta o céu nocturno de cinzento, coloca uma árvore na terra funda onde o avô construiu o poço, e da morte ouviam-se-lhes motores engasgados em neblinas cansadas, tristes, como o vento depois da tempestade, o miúdo chorava, e imaginava cansaços nos esteiros onde se seguravam os braços das videiras e dos arames desciam gotinhas curvas de dor, sofrimento convertido em mármores da sepultura do livro embainhado nas ruas frias da aldeia, submerso

(suspensa, infeliz, apaixonadamente apaixonada pela noite das aves pintadas de amarelo)

Perdi-me em ti, murmurava o miúdo à janela com vista para a casa do tio Serafim, havia livros espalhados pelo quarto, e todos na casa dormiam, até a própria iluminação ténue que se fazia sentir por aquelas bandas, não pensava em nada, apenas

(imaginar-te no largo junto às palmeiras abraçada ao espantalho de carne como um estranho nome... talvez, qualquer coisa Francisco, foi há tanto tempo, perdão, esqueço-me das coisas, dos nomes, das imagens, e quando preciso, urgentemente recorro ao álbum fotográfico, mas lembro-me que rasguei a tua fotografia, imagino como serás hoje, como dormirás hoje, Engordaste? Emagreceste? Estás mais alta, mais baixa, ou... assim-assim, esqueci também as palmeiras, o largo, não consigo precisar o diâmetro do largo, e o cheiro, Como será hoje o cheiro dela?)

Apenas os ratos em volta da caixa da farinha de milho, para os animais, para o fabrico do saboroso pão no forno a lenha, e nada mais, nem os latidos de um cão, que perdão, também lhe esqueci o nome, a idade, a raça, a crença, se existia alguma crença, e no entanto, ao longe, ouviam-se-lhes os sons frágeis do sino da Igreja,

(vivi sobre rochas de areia)

Sou eu, dizia-lhe o rapaz suspenso na janela da noite, suspensa ela também, sentada eu, sentada sobre um degrau moribundo, triste e doente, ele sente o peso do meu corpo e acaricia-me as nádegas húmidas responsáveis pela chuva dos últimos três dias de vida, (poiso os cotovelos no parapeito, todos dormem, e todos sonham que amanhã as nuvens azuis já não são azuis, e os tramados sorrisos encarnados, não, não se vão transformar em bolas de Berlim, não, os sorrisos encarnados vão esconder-se entre o milho e o feijão, porque o avô semeava milho e no meio colocava feijão, e quando o feijão crescia, agarrava-se ao caule do milho, e crescia, crescia, e crescia até chegarem ao céu...) e continuava a perguntar-se

Como vão ser os últimos três dias de vida? (vivi sobre rochas de areia)

(das abelhas?)

Vive-se, vive-se inventando janelas, vidros, paisagens, sorrisos, nuvens, vive-se acorrentado a um degrau de mármore com coração de aço, frio, tão distante o largo das palmeiras, e hoje como será o chafariz nas traseiras da coluna vertebral silenciosa da menina? (imaginar-te no largo junto às palmeiras abraçada ao espantalho de carne como um estranho nome... talvez, qualquer coisa Francisco, foi há tanto tempo, perdão, esqueço-me das coisas, dos nomes, das imagens, e quando preciso, urgentemente recorro ao álbum fotográfico, mas lembro-me que rasguei a tua fotografia, imagino como serás hoje, como dormirás hoje, Engordaste?) qual das meninas? e os pássaros das nocturnas noites de Carvalhais não sabiam, e desconheciam, que existiam mais do que uma menina, e tal como eu, o miúdo com os cotovelos no peitoril a imaginar barcos a dirigirem-se de Carvalhais para o porto de Favarrel, e perdiam-se a meio caminho, e alguns, a grande parte deles

(naufragavam contra o canastro recheado de milho até ao tecto)

Não sobrevivia, e morriam.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:46

07
Jul 11

 

 

Alicerça-se a noite nos braços da lua, pela janela entram os sons da saudade do rio sul, de S. Pedro do Sul, das Termas, de Carvalhais, e na eira de Favarrel o avô Domingos sentado numa pedra a brincar com uma espiga de milho…, oiço junto ao canastro o silêncio dos seus pensamentos, os machimbombos que passeava pelas ruas de Luanda, a fotografia pendurada na parede da sala e que ainda hoje me olha, bom dia meu filho diz-me ele pela manhã, os melros suspensos no tecto da eira e que de vez em quando me sorriam, olhava-lhe nos olhos as lágrimas dos tempos difíceis quando carregava como um burro os pesadíssimos rolos de pinheiro na serração, e para quê meu filho?, Lamentava-se ele, dezoito escudos por dia, dezoito escudos por dia e fome, e o meu sogro António esquecido em França na primeira guerra mundial, o avô velhinho?, poisado nas escadas da casa e a contar os bois em direcção ao pasto, a mastigar as palavras e a recordar que já a guerra tinha terminado há mais de um mês e eles perdidos pelos campos acreditando que o inimigo escondido na copa das árvores, a eira de Favarrel alimenta-se da finíssima poeira das manhãs de Carvalhais, da igreja os toques esquisitos do sino que um ateu nunca compreende, porquê avô?, perguntava-lhe eu, porque são mais felizes os pássaros aqui, abraça-me, quando nos fins de tarde o esperava no portão de entrada, a cidade fervilhava no suor pegajoso da chuva miudinha, e tardes inteiras a contar carros em corridas para o quartel do Grafanil, esta terra roeu-me os ossos meu filho, esta terra meu filho, e dezoito escudos por dia a carregar rolos pesadíssimos de pinheiro, galgando a serra para trazer o leite para a tua tia, descalço para poupar o cansaço das botas, os pés inchavam e mergulhavam nos silvados da noite, e na eira de Favarrel o avô Domingos sentado numa pedra a brincar com uma espiga de milho, o vento desce no agreste da serra e enruga o granito da eira, o canastro decrépito emagrece das ripas de madeira no desespero dos dias, e dou-me conta que o avô Domingos não lá, silenciosamente deixou de brincar com as espigas de milho.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:41

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