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Cachimbo de Água

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Francisco Luís Fontinha 14 Jul 18

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O sol, hoje, não acordou, da timidez do sonho renasce o sono desassossegado do movimento pendular da saudade, o riso adormecido, a chuva miudinha quando te invade as coxas de lã, e sinto-me um pedaço de poema envelhecido numa rasurada folha de papel…

 

 

Francisco Luís Fontinha

14/07/2018

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Francisco Luís Fontinha 24 Jun 18

Três dedos de conversa, uma chávena de chá, um livro poisado na tua mão, enquanto lá fora, muito distante de nós, uma cobra brinca na fina areia dos teus olhos.

Enquanto dormia, a flor do teu sorriso despede-se das pétalas envenenadas da noite, rosna o sorriso do lobo, rosna o silêncio da montanha, quando deitas a cabeça no meu colo…

São rosas, meu amor, são rosas os teus cabelos brancos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/06/2018

 

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Livro proibido

Francisco Luís Fontinha 18 Jun 18

Aqueço-me nos teus olhos, disfarço as rugas, pego num livro proibido sem tu o dares conta, e imagino-te sentada junto ao lago desconhecido; nunca soube o seu nome, raça, credo ou sexo, mas é o lago mais lindo do Universo.

Aqueço-me nos teus olhos, banho-me na tua tristeza de um dia acordar a Primavera sem mim, tu, descalça, caminhando em volta do lago, danças, saltitas e chamas por mim; e nunca percebeste qual era o livro proibido…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 18/06/2018

 

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 Desenho de Francisco Luís Fontinha

É noite

Francisco Luís Fontinha 27 Jan 18

É noite. Todas as correntes de aço que aprisionam os teus cabelos estão suspensas num simples suspiro, oiço as palavras, lá longe, o enigmático silêncio das janelas de vidro, regressa a noite, a cidade arde nas mãos do sem-abrigo, uma nota de cinco euros voa nas esplanadas da solidão,

Tem lume?

Os candeeiros da paixão, emagrecidos, com fome, as ruas desertas antes de acordar a manhã,

Não. Não tenho lume!

As pedras enraivecidas, o ódio dos pilares de areia que abraçam os barcos da madrugada, os poemas famintos no corpo do poeta, está morto, esquelético, e sem palavras…

Lume não tenho. Cigarros não tenho.

É noite.

O chá e as torradas vulcanizadas nas montanhas das crateras ensanguentadas dos rochedos nublados, é noite; e sinto-me completamente colorido com o arco-íris das sílabas entre pássaros e vinhedos, e ao fundo, o magnifico rio da saudade,

Os cigarros,

As esmeraldas na algibeira do sem-abrigo, a barba quase toca no luar, o cheiro nauseabundo das ruelas sem sentido, os automóveis sibilados nos corredores da morte, e nada te desejo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27 de Janeiro de 2018

A chuva

Francisco Luís Fontinha 25 Dez 17

A chuva. As noites recheadas de literatura, lá fora, pedacinhos de sonhos voando sobre o meu corpo ensonado, a poesia entranhada no silêncio da noite, acorrentadas as mãos ao corrimão da saudade, sempre que possível, uma sombra na minha mão,

A chuva.

Recordo os teus lábios quando te sentavas no meu colo, dentro de mim uma corrente em aço pronta a disparar a bala da cegueira, as palavras embriagadas no teu peito, a chuva, enraizada no teu cabelo, frágil, mórbido, e, sempre que adormeço tenho em mim todos os sonhos, o desenho dos sonhos, a vaidade de nada ter, a não ser, alguns livros, nada mais, alguns livros e a chuva para recordar o teu sorriso.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Dezembro de 2017

A espuma que embrulha o teu jardim

Francisco Luís Fontinha 2 Dez 17

O silêncio de espuma que embrulha o teu jardim, o banho imaginário nas traseiras da casa onde habita o teu jardim, o teu corpo é um esqueleto de veludo, fossilizado nos fantasmas da noite, regressa o mar, traz na algibeira as flores da madrugada, simples, magoadas, como as sentinelas da morte,

O ausentado menino dos socalcos de xisto, que brinca nas margens do rio envenenado pelas enxadas da insónia, tenho medo, tenho medo dos alicerces da dor quando do teu corpo apenas consigo observar estrelas e fumo…

Ao amanhecer,

A trovoada que abraça a parede granítica do sonho, o miúdo complexo em círculos no quintal infestado de Mangueiras e Mangas, e quando ele percebe, tem um papagaio em papel brincando entre os finos dedos, não chove, deixou de chover nesta terra, deixei de ouvir o cheiro da terra queimada, e o poço é cada vez mais fundo, observo-o, alimento-o, e sinto o peso das plumas nocturnas dos bares de Lisboa,

Ao amanhecer, os vidros das janelas rangem de frio, a lareira morta na esperança de acordar de madrugada, e o silêncio de espuma que embrulha o teu jardim, o banho imaginário nas traseiras da casa onde habita o teu jardim, cobertos por um finíssimo cobertor de geada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 2 de Dezembro de 2017

Algumas bugigangas trazidas do outro lado do rio

Francisco Luís Fontinha 23 Nov 17

Tínhamos uma nuvem de silêncio no nosso quarto, andorinhas e algumas bugigangas trazidas do outro lado do rio, alguns caixotes desaromados, alguma roupa e um sonho, acreditávamos no amanhecer junto à geada, a esfera do caos esbranquiçada poisada na nossa mão, eu era uma criança mimada, filho único, Africano de nascença, apátrida e desapontado pelas raízes do poder, tinha medo, meu pai, tinha medo da tua terra…

E sem o perceber

Assim temos mais prazer, penso nos teus seios, imagino os teus broches literários sobre a velha secretária em madeira, gemes, ouvem-se os gonzos da solidão salitrarem sobre a cancela da noite,

E que noite, meu amor, e que noite,

E sem o perceber acordei junto a um dos caixotes, sentia o vento do mar a entranhar-se nos meus frágeis ossos, chorava, gritava… nem um mabeco em meu auxílio,

E sem o perceber, tínhamos uma nuvem de silêncio no nosso quarto, andorinhas e algumas bugigangas trazidas do outro lado do rio, e soníferos beijos, lembras-te, meu amor, o cheiro intenso da madeira envelhecida e triste, os pregos enferrujados de tédio, e algumas frestas de solidão, ninguém, ninguém imagina este concerto de sons melódicos e metálicos do sofrimento, a morte, a ressurreição e a alvorada,

A tristeza de não saber quem és…

 

 

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Noite na alvorada de ninguém

Francisco Luís Fontinha 19 Nov 17

A noite começa a perder-se nas tuas mãos, entre montanhas sinto os teus lábios emagrecidos pela solidão, adormecidos, tristes… perdidos, abençoadas estrelas que me iluminam sem qualquer tipo de perdão, uma carta não escrita, algumas palavras semeadas no teu olhar, quando lá longe, oiço o assassino do mar, mãos ensanguentadas, lágrimas disparadas pela espingarda do sono,

Um canhão evapora-se debaixo do luar, escrevo-te para me sentir feliz, invento-te para me sentir livre, rebelde e desemparado nas ruelas nocturnas do cansaço, oiço-os

Vomitam insónias, dormem no desassossego dos pássaros envenenados pelos teus lábios, os livros sofrem, os livros morrem ao nascer do Sol, e tenho no corpo um solstício amedrontado, oiço-os

Marcham Calçada abaixo, rumam aos bares não iluminados, estátuas de sombra sentadas numa esplanada, debaixo, em cima, e, no entanto, sou um soldado desgraçado, moribundo, procurando barcos nas tuas pálpebras…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Novembro de 2017

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Francisco Luís Fontinha 18 Nov 17

Poesia...

Hoje centenas de iões dentro de um quarto escuro, sem janelas, sem porta

Cadeia?

A cárcere, da palavra, sem porta, sem.… vida, mesmo assim sou feliz naquele local, chamar-lhe-ás... cemitério, jazigo, mas não, meu amor, a cárcere da palavra, como?

A cárcere, da palavra, ou, A cárcere da palavra?

Narcisos, viajantes bagagem, imponderáveis poetas, nos beijos, nas bocas sideradas pela saliva, em pequeno, ele, imaginava a escola um grande navio, o porão

Tão fundo, mãe,

Meu amor, as palavras cinza das minhas mãos, ter-te e não te ter, nos meus braços, as imagens a preto-e-branco dos teus olhos, existes?

Tão fundo, mãe...

A paixão e o amor, o centeio correndo em redor do pôr-do-sol, e ele

Coitado, imaginar uma escola um grande barco...

Louco, e ele, mãe, dizia-me que os sonhos são desenhos de um qualquer pintor em desespero, a renda de casa, luz, pouco mais do que isso

Pobres homens e mulheres...!

Tão fundo, mãe... a paixão e o amor, o centeio correndo em redor do pôr-do-sol, e ele... e ele embrulhado em sonhos, sonhos, mãe...

As três ciganas do deserto, os homens buscam a sina do silêncio, imaginam-se uma criança de prata, frágil, brincando nas palavras rochosas da poesia, João perde-se nas cartas,

O jogo,

A mentira

Fugir para outros continentes, outras galáxias... os homens, apaixonados pelos berros, da menopausa, o sal brincando nas encostas do abutre negro, sobre ela o beijo desenhado na areia, colorido, embrulhava-a numa estrofe envergonhada, levava-a para as cabanas dos sonhos adormecidos, cerrou os olhos

Foi bom, amor,

Só?

As pálpebras de solidão gritando pela liberdade, amanhã vou recomeçar a viver, a sonhar, a.… a escrever nos teus olhos,

Como são os teus olhos, meu amor!

Perdi-me,

Só?

Deus, cambaleando pelas ruas do sofrimento, olha-me e pergunta-me

Meu filho!

Sim, pai...

O corpo, meu filho, o corpo...

Três ciganas abraçadas à ardósia da tarde, os homens, conversas, e...

Palavras...

E, sim pai, não percebo as tuas palavras e não percebo os teus poemas,

Desculpa-me.… meu filho,

Palavras...

Só?

O falso rico esquecido no asilo do dinheiro, porque incha o corpo do rico e míngua o corpo do pobre?

As palavras,

Só. eu?

E.…, e sim, o cemitério engasgado nos ossos de António, o meu melhor amigo, companheiro, e.… e nem me avisou que ia viajar, de veleiro ao ombro, meia dúzia de bicuatas... e nunca

A fome dentro de um subscrito, lembrava-se das tardes de infância inventando barcos em esferovite e sonhos, ele

As palavras?

Ele sorria, percebia-se no seu rosto o esqueleto e a alma da alegria, e, no entanto, morreu...

E nunca, e nunca mais conversou comigo...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

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Francisco Luís Fontinha 15 Nov 17

Partiram, levaram o miúdo dos calões e o caixote em madeira,

Alguns tarecos, pouca coisa e fotocópias de fotografias envenenadas pelo silêncio, na algibeira, o amor, o desejo do mar, dos barcos e das coisas

Simples?

Os livros,

E das coisas sem nome,

Sombras de mangueira?

E beijos, das coisas travestidas de saudade, dos livros lidos nas entranhas do desejo, caminhávamos entre quatro círculos de luz, abraçavas-me como se abraçam os pássaros, as acácias e os pindéricos cabelos de nata,

Amanhã amo-te...

Partiram, fugiram das noites embriagadas com direito a limonada e a sexo, construíram cubatas nos musseques da alegria, saltaram muros e muros, tinha medo das curvas da vida, adivinhava os beijos como sendo abelhas em flor, sobre as casas sem nome, idade, e

Sexo?

Só depois das seis,

E sonhos, de um dia regressar...

Regressar, mãe?

O texto escreve-se no teu corpo, a partida pertence ao passado, triste, tão triste como fazer amor num vão de escada,

Os gemidos,

Os silêncios mergulhados na algibeira do cansaço, amanhã saberei se me pertences, maldito caixote em madeira,

Alguns tarecos, meia dúzia de fotocópias de fotografias,

O mar, mãe?

O mar.… morreu,

Como morrem todas as coisas belas,

Sinto-me um caixote em madeira, um socalco em lágrimas descendo até ao Douro, uma eira, imaginada em Carvalhais – S. Pedro do Sul, sinto-me a noite vestida de negro, abraçada aos meus sonhos, sem poder mais,

Amanhã, meu amor!

O circo, os palhaços narcisados nas palavras escritas pelo fantasma do silêncio, a minha vida uma “merda” comparada com a vida dos meus vizinhos, hoje sonhei que a pobreza tinha morrido... como se a pobreza tenha morte... este momento embriagado em poemas de amor,

Poder mais...

Os sorrisos, a mentira do soneto sobre os ombros vergados de uma enxada, o cristal opaco que sobressai nas fotografias de infância, a dor, e a doença

Sinto-me

E a doença sifilítica nos dedos do artista, adormece a tela, o poema e a musa do poeta,

Sinto-me.… um suicidado cadáver de esperma, um transeunte canalha com suspensórios e gravata, e sapatos de ponta delgada,

Um café Doutor?

Café...

Faltam-me os cigarros...

E a doença sifilítica nos dedos do artista, adormece a tela, o poema e a musa do poeta,

Sinto-me.… um suicidado cadáver de esperma, um transeunte canalha com suspensórios e gravata, e sapatos de ponta delgada,

Faltam-me as tuas mãos, mãe,

Café?

Viajo na tua saia e percebo que não temos regresso, regressar é um suicídio sem palavras, uma carta escrita, os motivos da tua ausência, as faltas da tua presença na Igreja, sinto-me quando abres a janela do quarto e tenho a certeza que estou vivo,

Bom dia, mãe...

Meu querido filho!

O livro cresce nas ardósias cinzentas da memória,

Que és enigmático, meu filho...

Que sim, minha mãe,

Que sim,

Telefonaram da Rua dos Mendigos?

Para mim, mãe?

A cidade embriagada nas sandálias do pescador, o mar, sempre o apaixonado mar, a paixão azul, do azul literário e poético..., sabes com é, mãe,

Pois,

Sei que sempre sonhaste comigo,

Eu?

Sim, tu, mãe,

Quando dizias que aos três anos de idade já voava...

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