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Cachimbo de Água

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Francisco Luís Fontinha 1 Mai 11

 

 

Luís Fontinha

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Francisco Luís Fontinha 1 Mai 11

 

 

 

 

Luís Fontinha

Cachimbo de Água

Francisco Luís Fontinha 26 Mar 11

 

 

Olho pela janela, chove. Coloco os óculos no meu rosto emagrecido, estou magro, às vezes cansado, faço umas brincadeiras com a caneta e dou conta que na minha mão nada, comporto-me como se lá tivesse poisada uma pena, dou umas baforadas no cachimbo de água, olho fixamente para a folha de papel que em cima da secretária adormece, e aos poucos as palavras começam a alimentar-me o cansaço,

 

“ Junto ao mar, 26 de Março de 2011

 

Meu querido,

 

Toda a tarde esperei por ti, mas tu hoje não vieste. Senti a tua falta meu desespero, e recordei quando entras em mim e dentro da minha cabeça ditas as palavras que eu escrevo no vento, mas tu meu desespero, tu hoje não vieste.

Não comi quase nada hoje.

A tristeza entrou-me pela porta, e reparei que no jardim as árvores estão tristes, talvez porque choveu, talvez porque hoje é sábado.

Não comi quase nada hoje, e durante a tarde, à espera que viesses, andei descalça junto ao mar, e a areia alivia-me este cansaço que dentro de mim habita, este desassossego de não estar feliz nunca, de não conseguir adormecer sem os teus carinhos, sem as palavras que me ditas e eu as escrevo no vento.

Toda a tarde esperei por ti, mas tu hoje não vieste. Senti a tua falta meu desespero, e não percebo porque chove tanto e o mar tão calmo, o mar calmo e a minha mão espera pela tua, e sei que te escondes em qualquer pedacinho desta praia, mas por mais que eu olhe, não te encontro.

Meu querido desespero, se me estás a ouvir vem junto a mim, pega na minha mão, pega na minha mão e leva-me para dentro do mar; se me estás a ouvir, preciso de ti…

 

Eu sempre tua,

 

Marilu”

In Crónicas de um Travesti; carta ao desespero (3)

 

E o cansaço disperso no pavimento como se o sol tivesse deixado de acordar, olho pela janela, chove. Coloco os óculos no meu rosto emagrecido, estou magro, às vezes cansado, poiso a caneta na secretária e enquanto a minha mão fica em liberdade, o poema sobe-me pelo braço até à boca, e nos meus lábios soltam-se sílabas, e sinto as frases voarem pelas paredes do meu quarto, e o poema é poema,

 

Junto à ribeira

Deixo a minha mão adormecida

E nos meus olhos

Vive o monstro da noite

 

Sento-me no xisto esquecido pela tempestade

E as lágrimas invadem o meu rosto

Junto à ribeira

A minha mão que se afoga na água da madrugada

 

E o meu corpo despede-se de mim

Separa-se em pedacinhos

Raios de sol

Que pela manhã entram no meu quarto.

 

Olho pela janela, chove. Pego nos óculos e poiso-os na secretária, dou duas baforadas no cachimbo de água e fecho os olhos.

 

 

 

(texto de ficção)

FLRF

26 de Março de 2011

Alijó

Biblioteca de Luís Fontinha

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 11

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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