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Cachimbo de Água

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Beijo de poesia

Francisco Luís Fontinha 1 Jun 14

Não a encontro,

a frase suspensa nos teus lábios,

escrevo-a, e reescrevo-a, e nem um beijo de poesia consigo obter,

 

Há pigmentos solitários que a tua boca absorve,

olhas-me, e segues como uma bala disparada por um desejo escondido na montanha,

há uma cabana deserta, abandonada, esquecida como eu...

teimosa como eu,

há uma gaivota nos teus cabelos que me aprisionam ao cais dos mendigos,

não a encontro,

escrevo-a, e reescrevo-a...

sentindo nas tuas pálpebras a repetição de sons inaudíveis,

caminhas, e corres, e voas,

há pigmentos solitários, não a encontro,

a frase suspensa nos teus lábios,

e no entanto, procuro-te, de noite, de dia, enquanto sonho e sou filho da insónia,

 

Um muro de livros escondem-te, um muro de livros... um muro de livros comem-te,

e eu sentado no sofá da escuridão, pergunto-me se existes, pergunto-me se és poesia,

em formato de beijo,

 

Não a encontro,

centenas de frases acabadas de morrer,

palavras sem nome,

palavras sem corpo que a minha mão quer escrever,

sorris, sorris... e escondes-te sob o Plátano de braços cinzentos,

caminhas, corres, e... e voas,

sobes a escadaria de nylon em direcção à nuvem mais afastada de mim,

procuro-te,

procuro-te quando chove, procuro-te quando leio os livros do muro que te escondem,

e apenas uma réstia do teu olhar dispara para mim um cubo de silêncio,

sorriso, o teu, lindo quando caminhas e, e voas sobre as palmeiras da minha infância,

e espero, e espero o teu beijo de poesia...

 

(Não a encontro,

a frase suspensa nos teus lábios,

escrevo-a, e reescrevo-a, e nem um beijo de poesia consigo obter).

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Junho de 2014

Ausência das palavras

Francisco Luís Fontinha 21 Mai 11

Obliquamente encosto-me às palavras

Que vou semeando nos meus olhos

E quando das palavras se constrói uma frase

A frase enterra-se nos meus braços

 

Mas sem antes passar pelos meus lábios

Enrolar-se no meu cigarro…

Misturam-se as palavras e o fumo

E o texto alicerça-se na janela para o mar

 

Obliquamente encosto-me às palavras

Que vou semeando nos meus olhos

Mas até as palavras começam a escassear

E sem palavras não frases

 

E eu não sei viver sem palavras

Que em frases

Me alimentam e não me deixam morrer…

 

Tirem-me tudo

Ponham-me na prisão…

Mas não me tirem as frases

Não me ausentem das palavras.

 

 

Luís Fontinha

21 de Maio de 2011

Alijó

Silêncio em fogo

Francisco Luís Fontinha 17 Mai 11

Dentro de mim

O silêncio em fogo

As gaivotas que se escondem no meu peito

Os sorrisos de um enforcado antes da despedida

 

E dentro de mim

O vazio

Nada

Apenas palavras

 

Apenas vozes que dão vida às palavras

E no chão calcado pelas lágrimas das árvores

Palavras que se alicerçam

E palavras que desistem da frase

 

Desfazem-se com o vento

Ficam vogais

Letras que dançam nas janelas viradas para o mar…

 

Dentro de mim

O silêncio em fogo

Dentro de mim a revolta submersa na minha boca

Quando nos meus lábios acorda uma rosa

 

E os barcos estacionados no meu quintal

Distantes do mar

Em fuga como pernas cansadas na lama

Que se afundam

 

E eu não pernas

Nem barcos

Eu palavras

Que aos poucos deixam as frases em suspenso

 

E transformam-me no silêncio em fogo.

 

 

Luís Fontinha

17 de Maio de 2011

Alijó

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