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Cachimbo de Água

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Corpo de incenso

Francisco Luís Fontinha 17 Mar 19

No futuro, amar-te-ei?

Escrevo-o no teu corpo de incenso.

 

A escravidão de amar.

 

STOP.

 

A carta que nunca recebi,

As palavras tontas, esfomeadas, que enviaste da cidade,

As ruas íngremes, sonolentas e cansadas…

 

Como eu, o assalariado poeta das noites perdidas,

Sentir no corpo o peso da tua sombra,

Quando descem sobre mim os candeeiros a petróleo,

Imaginados pela loucura,

Numa tarde de Primavera.

 

A morte.

 

A sorte de morrer, sem o sentir,

Sentir a morte, sem morrer,

Nos livros,

E, palavras.

 

O fim.

 

No futuro, amar-te-ei?

Escrevo-o no teu corpo de incenso,

O lanche envenenado pela solidão,

O pão,

O sorriso do teu cabelo,

Nos jardins de Belém…

 

A partida.

Para sempre; a morte, da morte…

Na morte.

 

E, as palavras.

 

As palavras da morte.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 17 de Março de 2019

Barco sem regresso

Francisco Luís Fontinha 21 Nov 14

Desço ao inferno barco sem regresso,

olho-me no espelho do triste Oceano sem cortinados,

ou... ou janelas de pálpebras inchadas,

tenho na mão a enxada da dor...

e nos lábios o beijo de uma flor,

desço,

mergulho...

saltito nas cinzas do teu corpo inseminado nas páginas de um livro,

de poemas,

de “merdas” sem significado algum,

mergulho... e desço...

e percebo que o futuro é incerto,

 

Negro como a noite interminável...

 

Fujo,

escondo-me na sombra do teu sangrento olhar,

desço ao inferno barco sem regresso,

em desassossego,

como um esqueleto esquecido no mar...

como uma árvore que acaba de morrer,

sem medo...

sem... sem palavras de escrever.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Estar só

Francisco Luís Fontinha 8 Ago 12

Estar só

entre a chuva odiada

quando derramada

dentro dos alicerces do cansaço

à espera do sono

perdido na memória

estar só

sentado numa pedra sem nome

sem destino

sem futuro

sem caminho

entre a chuva odiada

 

estar só

no silêncio das palavras aparvalhadas

quando derramadas

nos canteiros com flores adormecidas

cansadas

fodidas

como eu

sem janelas

nem portas para o céu

estar só

como eu

sem tecto para poisar o meu esqueleto ensanguentado de insónia...

as carícias do homem morto

Francisco Luís Fontinha 7 Ago 12

Estas coisas são patéticas

como o amor

o sol

e as nuvens

a paixão é patética

e às palavras faltam-lhes as carícias do homem morto

 

sou patético

e sem significado

 

(ALBERTÔ)

 

sinto nas minhas palavras

as palavras de “merda”

patéticas

sou patético

e sem significado

 

(NÃO TENHO SONHOS

NEM ACREDITO NO FUTURO)

 

Estas coisas são patéticas

como o amor

o sol

e as nuvens

 

e não tenho jeito para a meteorologia da poesia.

Futuro

Francisco Luís Fontinha 22 Nov 11

Amar-te-ei depois de eu morrer?

Pergunto-me,

Pergunto-me antes de adormecer…

A cadeira de vime

Francisco Luís Fontinha 6 Mai 11

Estou sentado no futuro, e uma cadeira de vime suspende o meu esqueleto desordenado, desintegrado junto ao mar, o canino já não canino, ossos que vagueiam na maré, estou sentado e sinto o cansaço do meu corpo, o canino em latidos e soluços, eu à espera do infinito, as nuvens encostam-se nos meus ouvidos, e sinto que dentro da minha cabeça andam pássaros a esvoaçar, sinto-os, sinto o mar na fúria da noite, estou com medo, eu sentado no futuro, e uma cadeira de vime suspende-me na noite, deixei de dormir, deixei de comer, deixei de ser eu, e agora tenho a perfeita noção que eu não eu, eu um conjunto de ossos desclassificados e não numerados, preciso de me levantar, preciso de caminhar, mas esqueci-me de numerar os meus ossos e agora não sei qual a verdadeira posição deles, o chão só ossos, e na areia palavras vão-se escrevendo com a chuva, e quando o sol transporta o silêncio, silêncio nenhum, barulho que escorre de todas as esquinas, e em todas as ruas,

- As ruas apertam-se e abraçam-se, ontem eu no meio delas engasgado nos cigarros e hoje nem cigarros nem cachimbos, nem água, hoje o mar que me entra pela janela, e apenas o mar conversa comigo, leva as palavras que a chuva escreve na areia, e hoje,

E hoje eu perdido no medo da noite, sentado, não me levanto, e nunca mais me vou levantar desta cadeira de vime,

- E os ossos sem número,

Hoje sentado junto ao mar, e os ossos esperam que alguém apreça e os numere, e depois, e depois possivelmente já me posso levantar e caminhar, quem sabe até correr juntamente com o canino na areia finíssima junto ao mar, quem sabe, quem sabe novamente ser eu.

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

6 de Maio de 2011

Alijó

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