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Cachimbo de Água

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O apeadeiro da solidão

Francisco Luís Fontinha 19 Jul 17

Tão longe entre montanhas e socalcos,

Cravado na terra cremada da saudade,

O comboio se perde nas curvas do amanhecer,

O apeadeiro da solidão agachado junto ao rio…

Sem conseguir adormecer,

Uma voz se perde na caminhada como se fosse apenas uma gaivota amedrontada…

Tão longe entre montanhas e socalcos,

Finge acordado,

Esperando os apitos aflitos do maquinista…

Até que o pôr-do-sol regressa,

E amanhã novo dia, nova noite, e a tarde sempre igual…

Nem vivalma para entreter o estômago do desassossego.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Julho de 2017

A Calçada do Adeus

Francisco Luís Fontinha 26 Jul 14

Esta vida que não me esquece,

cai a noite e me absorve, e me evapora,

desço a calçada como poeira cansada,

e aos poucos, despeço-me do rio,

despeço-me da alvorada,

sento-me, e espero o regresso do amanhecer,

folheio um livro, leio um poema amaldiçoado,

dói-me o corpo, e esta vida que não me esquece,

 

Desenho uma gaivota apaixonada pelo silêncio do mar,

há uma cabana sem lareira, uma cabana atraiçoada,

e eu sentado, converso com a gaivota, converso com a cadeira...

sobre esta vida que não me esquece,

e me evapora,

folheio, folheio... e o livro do poema amaldiçoado... me deseja,

me leva para o solstício do beijo,

e sendo eu sou um ausente,

que não sente, que não ama...

pergunto-me... o que é o amor?

É uma cidade destruída? É uma canção com poemas de chorar?

que a vida não esquece, que a vida não me esquece... de me recordar...

 

Esta vida que não me esquece,

quando lá fora há estrelas à minha espera,

quando lá fora a gaivota apaixonada... chora,

porque foi maltratada, porque foi espancada...

pelo vento da clareira cinzenta,

que desce comigo a calçada, e... e me atormenta.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 27 de Julho de 2014

Dentro de ti

Francisco Luís Fontinha 15 Jul 14

Imagino-me dentro de ti,

 

O sonho, o sonho invade a clarabóia das serpentes,

há uma montanha, uma montanha desenhada na rocha submersa da solidão,

imagino-me dentro de ti,

sentir o odor do papel amarrotado, triste...

cansado,

o sonho tem um nome,

vive dentro de um corpo anónimo, diluído nas asas de uma gaivota,

há um esqueleto em revolta,

faminto,

tão... tão desgraçado...

escreve, e das palavras se alimenta,

e vive, e sonha...

 

Imaginando-se dentro de ti!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 15 de Julho de 2014

marinheiro naufragado

Francisco Luís Fontinha 26 Mai 14

acordar sobre o titânio amanhecer

pegar nas tuas mãos de andorinha selvagem

agarrar o mar

se possível

esconder o mar na tua algibeira de cartão

 

sentir os teus braços no rio que corre dentro de mim

acariciar todas as rosas das tuas pálpebras de marinheiro naufragado

descansar sobre o teu peito

beijar-te

simplesmente beijar-te... gaivota adormecer.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

Esqueletos cinzentos

Francisco Luís Fontinha 4 Abr 14

Imagino-me embrulhado nos suspensos olhos dos teus lábios,

sinto-os a alicerçarem-se aos meus,

imagino-me acorrentado ao teu olhar,

pálpebra infinita da madrugada,

sinto-a e imagino-me em círculos verdes com braços de prata,

uma louca locomotiva entra-me porta adentro e finjo habitar nas tuas mãos de pérola adormecida,

imagino-me longamente só esperando as personagens dos teus sonhos,

os vivos, os mortos, sonhos... e os impossíveis de realizar,

como as tuas palavras,

difíceis de escrever,

impossíveis... impossíveis de pronunciar,

e depois regressam todos os esqueletos cinzentos da neblina,

 

Imagino-me sentado no teu ventre desgovernado,

sílaba cansada da literatura que poisa sobre os teus seios de sanzala,

imagino-me um menino apaixonado,

triste,

tão triste que... tão triste que acredito pertencer aos sisudos livros do luar,

imagino-me filho da noite em construção,

um menino rebelde, sem pátria, sem pão,

e à minha volta gravitam as tuas perdidas caricias perpendiculares aos relógios de pulso,

derradeira e desamada paixão, esta, viver não vivendo, amar... amar... não amando,

e no entanto,

eu, eu invento, eu corro em direcção aos rochedos das tuas coxas em silêncio...

imaginando, imaginando estrelas de papel nos teus cabelos de gaivota.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 4 de Março de 2014

Gaivota madrugada

Francisco Luís Fontinha 20 Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Voas nos meus olhos, gaivota madrugada,

procuras em mim, palavras,

voas porque sentes nos teus lábios o vento em desejo,

e no teu prometido beijo, uma simples canção, melódica... e adormeço,

e esqueço que lá fora habitam telhados de vidro, esqueletos de prata,

bairros em lata,

lá fora, na imensidão nocturna da embriaguez,

e um dia, talvez... talvez percebas as minhas tristes palavras,

como pertence aos muros o xisto envenenado,

dos socalcos... o cansaço humano vestido de negro,

e no rio... no rio o meu corpo ensanguentado pelas nobres estrelas da cidade,

voas, voas sem saber que estou vivo...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 20 de Março de 2014

Os beijos das sílabas

Francisco Luís Fontinha 20 Set 11

(para ti)

 

Dos beijos das sílabas

As palavras que acordam em mim,

Fluem as vogais dentro dos meus olhos cansados

Na sombra dos plátanos sentados no jardim,

 

Abraço-me ao rio que corre para o mar

E deito-me nos socalcos do amanhecer,

O meu corpo começa a navegar

Nas palavras que acabam de morrer,

 

Dos beijos das sílabas

As palavras em sorriso de pétala,

O poema evapora-se na madrugada distante

E a gaivota que fala

 

À gaivota que voa…

Da gaivota pensante,

Ai os beijos das sílabas à toa

Quando a gaivota que voa abraça-se à gaivota amante!

O sorriso da gaivota

Francisco Luís Fontinha 4 Ago 11

Sumiu-se no fumo da tarde

O sorriso da gaivota

Do cigarro que arde

Em cigarros de revolta,

 

Poisa a mão o enforcado

No peito da árvore adormecida

Tomba o corpo cansado

Na tarde envelhecida,

 

Sumiu-se no fumo da tarde

O sorriso da gaivota

Do cigarro que arde

No cigarro que não volta…

Garganta fina e escura

Francisco Luís Fontinha 22 Jun 11

Saboreia-se a garganta fina e escura

No rio desencontrado

Brincam gaivotas com ternura

Gaivotas que poisam no chão molhado…

 

Gaivotas que voam no meu peito

E nas asas transportam a saudade

Do dia que termina sem jeito

No mar em liberdade,

 

Saboreia-se a garganta fina e escura

Nesta mão que tece a madrugada

Em lábios de secura

 

Na boca engasgada.

Ai se pudesse abraçar a gaivota molhada

Que corre na areia cansada!

Queres colinho ai queres queres

Francisco Luís Fontinha 13 Mai 11

Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar,

- queres colinho ai queres queres,

A tarde evapora-se na liquidez das coxas dela quando na sombra e em brincadeiras no colinho dele, a tarde, a tarde pendurada na janela com vista para o mar, e nas profundezas dos campos de trigo ele em busca do prazer, perde-se nas horas e na secretária poisa uma gaivota embrulhada no desejo, o Cesário morto ou vivo,

- queres colinho ai queres queres, dá-me a tua mão, a minha mão, sim a tua mão, para quê, não tenhas medo e dá-me a tua mão, poisa-a no meu rosto, dás-me um presente, sim dou, está bem pega lá a minha mão,

E das coxas a tarde transpira, finge esconder-se nos sobressaltos dos minutos quando ele em cima dela, não o Cesário em cima da gaja, quando ele em cima dela balança no silêncio das espigas de trigo, está vento, e o sol consome-lhes a pele cálida depois de uma queca apressada e nem tempo teve de tirar as calças, as calças penduradas nos tornozelos, e nos sapatos o cansaço das viagens,

- queres colinho ai queres queres,

Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar, os segundos pendurados no silêncio do número treze, sexta-feira, e a gaivota sobre a secretária sorri para o Cesário, uma gaivota embrulhada no desejo, o desejo quando nas coxas a mão adormece e a água com açúcar abraça-se às plantas de trigo.

- Queres colinho ai queres queres…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

13 de Maio de 2011

Alijó

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