Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Jul 17

Tão longe entre montanhas e socalcos,

Cravado na terra cremada da saudade,

O comboio se perde nas curvas do amanhecer,

O apeadeiro da solidão agachado junto ao rio…

Sem conseguir adormecer,

Uma voz se perde na caminhada como se fosse apenas uma gaivota amedrontada…

Tão longe entre montanhas e socalcos,

Finge acordado,

Esperando os apitos aflitos do maquinista…

Até que o pôr-do-sol regressa,

E amanhã novo dia, nova noite, e a tarde sempre igual…

Nem vivalma para entreter o estômago do desassossego.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Julho de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:25

26
Jul 14

Esta vida que não me esquece,

cai a noite e me absorve, e me evapora,

desço a calçada como poeira cansada,

e aos poucos, despeço-me do rio,

despeço-me da alvorada,

sento-me, e espero o regresso do amanhecer,

folheio um livro, leio um poema amaldiçoado,

dói-me o corpo, e esta vida que não me esquece,

 

Desenho uma gaivota apaixonada pelo silêncio do mar,

há uma cabana sem lareira, uma cabana atraiçoada,

e eu sentado, converso com a gaivota, converso com a cadeira...

sobre esta vida que não me esquece,

e me evapora,

folheio, folheio... e o livro do poema amaldiçoado... me deseja,

me leva para o solstício do beijo,

e sendo eu sou um ausente,

que não sente, que não ama...

pergunto-me... o que é o amor?

É uma cidade destruída? É uma canção com poemas de chorar?

que a vida não esquece, que a vida não me esquece... de me recordar...

 

Esta vida que não me esquece,

quando lá fora há estrelas à minha espera,

quando lá fora a gaivota apaixonada... chora,

porque foi maltratada, porque foi espancada...

pelo vento da clareira cinzenta,

que desce comigo a calçada, e... e me atormenta.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 27 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:55

15
Jul 14

Imagino-me dentro de ti,

 

O sonho, o sonho invade a clarabóia das serpentes,

há uma montanha, uma montanha desenhada na rocha submersa da solidão,

imagino-me dentro de ti,

sentir o odor do papel amarrotado, triste...

cansado,

o sonho tem um nome,

vive dentro de um corpo anónimo, diluído nas asas de uma gaivota,

há um esqueleto em revolta,

faminto,

tão... tão desgraçado...

escreve, e das palavras se alimenta,

e vive, e sonha...

 

Imaginando-se dentro de ti!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 15 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:45

26
Mai 14

acordar sobre o titânio amanhecer

pegar nas tuas mãos de andorinha selvagem

agarrar o mar

se possível

esconder o mar na tua algibeira de cartão

 

sentir os teus braços no rio que corre dentro de mim

acariciar todas as rosas das tuas pálpebras de marinheiro naufragado

descansar sobre o teu peito

beijar-te

simplesmente beijar-te... gaivota adormecer.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:06

04
Abr 14

Imagino-me embrulhado nos suspensos olhos dos teus lábios,

sinto-os a alicerçarem-se aos meus,

imagino-me acorrentado ao teu olhar,

pálpebra infinita da madrugada,

sinto-a e imagino-me em círculos verdes com braços de prata,

uma louca locomotiva entra-me porta adentro e finjo habitar nas tuas mãos de pérola adormecida,

imagino-me longamente só esperando as personagens dos teus sonhos,

os vivos, os mortos, sonhos... e os impossíveis de realizar,

como as tuas palavras,

difíceis de escrever,

impossíveis... impossíveis de pronunciar,

e depois regressam todos os esqueletos cinzentos da neblina,

 

Imagino-me sentado no teu ventre desgovernado,

sílaba cansada da literatura que poisa sobre os teus seios de sanzala,

imagino-me um menino apaixonado,

triste,

tão triste que... tão triste que acredito pertencer aos sisudos livros do luar,

imagino-me filho da noite em construção,

um menino rebelde, sem pátria, sem pão,

e à minha volta gravitam as tuas perdidas caricias perpendiculares aos relógios de pulso,

derradeira e desamada paixão, esta, viver não vivendo, amar... amar... não amando,

e no entanto,

eu, eu invento, eu corro em direcção aos rochedos das tuas coxas em silêncio...

imaginando, imaginando estrelas de papel nos teus cabelos de gaivota.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 4 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:55

20
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Voas nos meus olhos, gaivota madrugada,

procuras em mim, palavras,

voas porque sentes nos teus lábios o vento em desejo,

e no teu prometido beijo, uma simples canção, melódica... e adormeço,

e esqueço que lá fora habitam telhados de vidro, esqueletos de prata,

bairros em lata,

lá fora, na imensidão nocturna da embriaguez,

e um dia, talvez... talvez percebas as minhas tristes palavras,

como pertence aos muros o xisto envenenado,

dos socalcos... o cansaço humano vestido de negro,

e no rio... no rio o meu corpo ensanguentado pelas nobres estrelas da cidade,

voas, voas sem saber que estou vivo...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 20 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:52

20
Set 11

(para ti)

 

Dos beijos das sílabas

As palavras que acordam em mim,

Fluem as vogais dentro dos meus olhos cansados

Na sombra dos plátanos sentados no jardim,

 

Abraço-me ao rio que corre para o mar

E deito-me nos socalcos do amanhecer,

O meu corpo começa a navegar

Nas palavras que acabam de morrer,

 

Dos beijos das sílabas

As palavras em sorriso de pétala,

O poema evapora-se na madrugada distante

E a gaivota que fala

 

À gaivota que voa…

Da gaivota pensante,

Ai os beijos das sílabas à toa

Quando a gaivota que voa abraça-se à gaivota amante!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:20

04
Ago 11

Sumiu-se no fumo da tarde

O sorriso da gaivota

Do cigarro que arde

Em cigarros de revolta,

 

Poisa a mão o enforcado

No peito da árvore adormecida

Tomba o corpo cansado

Na tarde envelhecida,

 

Sumiu-se no fumo da tarde

O sorriso da gaivota

Do cigarro que arde

No cigarro que não volta…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:53

22
Jun 11

Saboreia-se a garganta fina e escura

No rio desencontrado

Brincam gaivotas com ternura

Gaivotas que poisam no chão molhado…

 

Gaivotas que voam no meu peito

E nas asas transportam a saudade

Do dia que termina sem jeito

No mar em liberdade,

 

Saboreia-se a garganta fina e escura

Nesta mão que tece a madrugada

Em lábios de secura

 

Na boca engasgada.

Ai se pudesse abraçar a gaivota molhada

Que corre na areia cansada!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:04

13
Mai 11

Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar,

- queres colinho ai queres queres,

A tarde evapora-se na liquidez das coxas dela quando na sombra e em brincadeiras no colinho dele, a tarde, a tarde pendurada na janela com vista para o mar, e nas profundezas dos campos de trigo ele em busca do prazer, perde-se nas horas e na secretária poisa uma gaivota embrulhada no desejo, o Cesário morto ou vivo,

- queres colinho ai queres queres, dá-me a tua mão, a minha mão, sim a tua mão, para quê, não tenhas medo e dá-me a tua mão, poisa-a no meu rosto, dás-me um presente, sim dou, está bem pega lá a minha mão,

E das coxas a tarde transpira, finge esconder-se nos sobressaltos dos minutos quando ele em cima dela, não o Cesário em cima da gaja, quando ele em cima dela balança no silêncio das espigas de trigo, está vento, e o sol consome-lhes a pele cálida depois de uma queca apressada e nem tempo teve de tirar as calças, as calças penduradas nos tornozelos, e nos sapatos o cansaço das viagens,

- queres colinho ai queres queres,

Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar, os segundos pendurados no silêncio do número treze, sexta-feira, e a gaivota sobre a secretária sorri para o Cesário, uma gaivota embrulhada no desejo, o desejo quando nas coxas a mão adormece e a água com açúcar abraça-se às plantas de trigo.

- Queres colinho ai queres queres…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

13 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:29

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