Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Abr 19

O chão semeado de sombras,

Dentro de mim, o mar,

Descalço,

A convidar-me para brincar.

O cheiro da terra húmida,

As palmeiras envenenadas pelo silêncio,

Quando as gaivotas de Luanda, dormem na Baía…

Oiço-as.

O chão semeado de sombras,

O capim molhado com cheiro a sonho,

Sobre a terra,

Os barcos de papel da infância.

O som dos transeuntes mabecos perto da sanzala,

As crianças brincando com a tarde salgada,

Que um velho sábio trouxe do mar.

Abraço-me às mangueiras, deito-me no chão semeado de sombras,

Sonho com uma Lisboa desconhecida, onde se passeiam putas e bêbados…

Pelas avenidas escurecidas.

E, no entanto, ainda hoje, desenho no teu corpo, gaivotas.

Uma Lisboa embrulhada em cheiros e sabores,

As tasquinhas, nas paredes, o peixe frito com sabor a cebola,

O vinho misturado com a água salgada,

E as pipas parecem esconderijos de marinheiros.

As gaivotas, meu amor,

As gaivotas que desenhei nos teus seios,

Dos incêndios da minha infância…

Alucinações,

Eu, eu brincando com as galinhas da minha avó,

De calções,

Sandálias…

E sonhos.

 

E hoje, sou apenas um velho esperando a morte.

 

 

Querida Lisboa,

 

Dos enfartes que as guloseimas de uma criança, deixa sobre a terra,

 

Querida Luanda; as gaivotas dos teus braços.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

07/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:54

02
Abr 19

Borboletas no meu velório,

Apenas borboletas,

Ninguém,

Ninguém à minha espera,

Comigo, morreram as palavras,

Todos os livros, machos e fêmeas,

Segunda-feira ou Terça-feira?

O xisto amarfanhado pelo silêncio da poesia,

As frases afundaram-se nas tuas mãos,

Como gaivotas em cio.

O poço,

O cheiro nauseabundo dos velhos livros,

Abraçados a mim,

Tenho um corpo de merda,

E uma rua dentro de mim, sem nome, sem casa, sem nada…

Dormir,

Não durmo,

Comer…

Não como nada.

Peço aos amigos, a todos, paciência,

Nada mais do que isso,

Nem flores,

Odeio flores e odeio o teu sorriso,

Odeio o mar e o todos os rios…

São recheados de falsidade,

Como tu, pobre pomba poisada no meu ombro,

Dormir,

Não durmo,

Comer…

Quase nada.

Borboletas em papel,

Sombras em pastel,

Telas esbranquiçadas com lábios de suor…

É esta a minha vida,

Embrulhado em palavras,

Dormindo,

Não dormindo,

Dentro das sílabas assassinadas.

Despeço-me, e do cimo do monte…

Enterro o teu nome,

Escrevo na terra…

Amo-te, não te amo, amo-te… só quando nascer a noite.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

02/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:24

03
Jun 17

Não me interessa quem me apedreja,

Sou um desgostoso filho da noite branca,

Sou filho do feitiço amordaçado das tempestades sem nome,

Caminho nos teus braços como uma serpente sem veneno…

Despois do entardecer,

Vivo vivendo a vida quotidiana das amoreiras em flor,

E das tormentas encarnadas do amor…

Amanhã vou zarpar para a montanha desconhecida,

Levarei comigo um ramo de flores adormecidas pela tempestade,

E não haverá lágrimas no meu rosto,

Nem palavras nos meus livros desgraçados…

Um sonâmbulo pede-me lume,

Faço uma fogueira com a minha tristeza,

Sem perceber que durante o amanhecer

Uma árvore me visita,

E me abraça fortemente,

E a noite me incendeia…

 

O dia termina na minha mão,

Os teus dedos entrelaçados nos meus…

Sempre que o sol acorda livremente

Nos rochedos da solidão,

 

É tarde,

O tempo dorme docemente no meu ventre

Enquanto junto ao rio o voo das gaivotas me atormentam…

E tenho medo do teu sorriso pela madrugada,

Alimento-me de nada,

Alimento-me de uma vazia esplanada

Ancorada na sombra da Primavera,

 

(Não me interessa quem me apedreja),

 

E das pedras invisíveis…

Ergue-se a paisagem nocturna da janela sem cortinados,

Sente-se o teu desgostoso perfume

Contra o meu peito desajeitado,

Sem nome,

Sem morada…

Como sou,

Sem nada,

Despedido dos teus sonhos…

Me suicido na escuridão.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 3 de Junho de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:55

23
Abr 16

Os poemas perdidos, a noite incendeia a solidão do corpo enquanto lá fora o silêncio da morte acorda os pedestres rochedos da insónia.

Desço às profundezas do rio, toco na sua boca como se alguém me empurrasse para a escuridão, feliz aquele que vive só, sem ninguém,

Os poemas perdidos que invadem a tarde junto ao mar, lá longe, os sifilíticos segredos da esperança, perdidos, as palavras, os sons e a melódica tempestade dos guizos,

Perdidos.

Os poemas na minha mão caminhando sobre as areias finas do desejo,

Invento crianças que brincam nos quintais de espuma,

Marés de incenso sobre a secretária desarrumada,

Milímetros quadrados de nada, de ninguém, que só os muros da geada conseguem atravessar, tenho pena do coração da Primavera; triste.

Como eu,

Triste

Nos poemas perdidos,

Amanhã renascerá uma estrela no meu peito e o meu corpo transformar-se-á em lâminas de prazer, amanhã terei os poemas perdidos fora do livro, esqueléticos casebres das montanhas de neblina, rios que invadem a cidade e trazem a morte, dos poemas, e dos livros com poemas,

Triste,

Os poemas perdidos quando incendeiam os dedos amachucados pelos cigarros em despedida,

As fotografias dentro de uma caixa de cartão à espera de serem resgatadas pelas palavras dos poemas perdidos, sem ninguém, procuro nela o meu rosto de infância, imagino-me a olhar os barcos entre apitos e partidas, e o medo absorve-me…

Deixo de ver a cidade, dou-me conta em pleno Oceano, sinto o cheiro das gaivotas percorrendo os trilhos do sono, e dos poemas perdidos…

O sangue que corre nas minhas veias, os dias iguais às noites, as noites iguais às sílabas de luar quando olho pelo camarote um finíssimo fio de nylon que me acompanha até ao meu regresso,

Despeço-me dos poemas perdidos,

Despeço-me da aldeia onde nasci e abraço uma Lisboa camuflada pelas âncoras do Tejo, os caixotes em madeira presos aos meus pés, sem nada, apenas tarecos, apenas pequeníssimas coisas sem nexo,

Os poemas perdidos,

Despeço-me,

Deles, delas…

 

Sem perceber que os poemas perdidos nunca existiram em mim.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 23 de Abril de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:30

16
Mar 16

As gaivotas assassinas

Que atormentam os teus/meus sonhos,

O silêncio da pedra onde descanso

E sinto a sombra do sofrimento

Antes de acordar a noite,

O túnel da amargura suspensa na água transparente do desejo,

Desapareces entre as nuvens de algodão que alimentam o dia… e neste momento… mortas, feridas, e indesejadas pelos pássaros da avenida nocturna da paixão,

As complexas muralhas do sono nos cortinados das tristes madrugadas…

O beijo da aranha

Que habita o circo da minha infância,

E…

As gaivotas assassinas…

Nos meus/teus sonhos,

Vivo em ti e de ti, semáforo da tristeza

Sem perceber que a vida é uma jangada de pequenos sorrisos

E místicos poemas sem destinatário…

A vida só,

Só…

Como são todas as gaivotas assassinas…

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 16 de Março de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:59

12
Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Não me ouves da tua lápide

inventada por um louco

acreditas que as minhas palavras são húmus

resíduos inorgânicos

da paixão secreta

do sol pela poesia

não me ouves porque não existes

ou... ou... ou porque sou eu que não existo

ou talvez

eu

tu

nunca existimos

somos riscos

fumo desvairado de um cigarro amordaçado

somos riscos suspensos numa parede invisível

onde algures habita uma porta com acesso à paixão

eu

o medo

tu

o medo

e dos cortinados cinzentos dos teus cabelos...

o medo apodrece sobre os nossos ombros embrulhados no cacimbo da infância

procurando as sombras de um rio

com barcos de papel e gaivotas em cartão...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:55

10
Nov 14

Meninos

meninas

senhoras e senhores...

o grandioso espectáculo vai começar,

malabaristas,

trapezistas...

cobras amestradas e homens de vidro,

canções, poesia e melódicas palavras...

(em tesão)

grandioso espectáculo...

bonecos em barro,

borboletas em papel rebuçado,

loucos, loucas e vampiros em chocolate,

casas sem janelas,

moças donzelas...

e...

e... e... e gaivotas em porcelana,

hoje,

só hoje...

o grandioso espectáculo da neblina matinal,

oito,

apenas oito bilhetes para o inferno...

o espectáculo de Inverno,

e as crianças não pagam,

mas... mas também não entram!

em cinco, em quatro, em... um... e zero...

as sete charruas do mendigo,

os três forquilhas da Andorinha,

o palco em vibração,

a cabeça em abraçados cansaços de xadrez,

oito,

três,

o amor que não vê,

nem sabe... que este circo,

circoooooooooooooooooooooooo...

chegou hoje à cidade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:41

22
Ago 14

Há uma janela neste jardim da insónia,

um coração de palha com braços de aço,

um pássaro com vontade de amar,

há um vidro em estilhaços,

uma parede que ruiu...

há no olhar do amanhecer um falso sorriso,

uma rua em lágrimas,

em mim,

há uma janela, há uma janela com lábios de mar,

um paquete desgovernado...

tão triste, tão triste que não consegue olhar as amendoeiras em flor...

que habitam esta cidade enfeitada de amor,

 

Há uma janela com cortinados de dor,

uma cama suspensa nos rochedos de amar,

há um homem prisioneiro nas gaivotas de voar...

 

Há um solstício...

um cadáver vestido de sofrimento,

um velório, um velório de alegria,

há uma janela neste jardim da insónia,

um corpo mergulhado nas ervas daninhas...

uma multidão que grita,

e vomita...

palavras, frases, e árvores caducas,

há um jardim pertença de uma fotografia,

há um solstício...

em monotonia,

na janela da insónia...

 

 

Francisco Luís Fontinha - Alijó

Sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:24

10
Jun 14

Que faço às limalhas do teu olhar!

São pingos de sofrimento embrulhados em folhas de alumínio,

folhas adormecidas, folhas mortas, folhas... folhas embalsamadas,

 

E o teu olhar vive num cubo de vidro,

respira as magoadas madeixas de uma triste madrugada,

são singelas paredes, são insignificantes sombras...

são transeuntes encalhados numa calçada,

 

Que faço às limalhas do teu olhar!

 

E o teu corpo voa como a gaivota de amar,

poisa em mim como se eu fosse o mastro cansado de um veleiro,

desço à preia-mar,

cerro os olhos para não ver o teu triste olhar,

um cartaz apressadamente preenchido, grita-me e obriga-me...

… e obriga-me a chorar,

e obriga-me... e me obriga a sonhar,

com o teu olhar,

as limalhas do teu olhar quando prisioneiras das tempestades que os teus seios inventam,

esqueço,

e pareço...

o velho às voltas com a roda da vida,

 

Sento-me em ti!

 

Sento-me em ti não sabendo que és de papel,

que... que quando o vento se enfurece, tu... tu desapareces, tu...

tu... tu te transformas em silêncio,

em neblina,

em... em equação sem resolução,

 

Que faço às limalhas do teu olhar!

São pingos de sofrimento embrulhados em folhas de alumínio,

folhas adormecidas, folhas mortas, folhas... folhas embalsamadas,

 

Folhas como eu, folhas como ele, folhas... folhas apaixonadas,

que faço, meu amor, aos pingos do teu sofrimento,

quando vaiadas todas as mandíbulas da paixão,

e ao acordar, a minha mão não encontra o teu corpo de andorinha... tu, tu nunca lá estiveste,

 

Tu... tu nunca exististe dentro de mim,

tu, tu desejas não desejando o amanhecer,

e é tão distante, e é tão longínquo... que me perco nos teus braços invisíveis,

engano-me quando o espelho da saudade me informa que hoje...

“hoje não há felicidade”!

Hoje apenas existe uma cidade, uma rua, e... e uma velha calçada,

sem pressa de fugir, sem pressa de amar..., amar não amando os dias sem sentido,

eu sentado, esperando que tu, que tu... que tu sejas tu e não a noite vestida de limalhas, as limalhas do teu olhar!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 10 de Junho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:21

01
Mai 14

foto de: A&M ART and Photos

 

não o sei

às vezes desce sobre mim a voz do silêncio

o rio com mãos de porcelana

acorda

deita-se na nossa cama

chora...

olha-se ao espelho e grita

não o sei

e às vezes

pergunto-me porque há barcos em papel com coloridas manhãs de Primavera

e às vezes

não o sei

 

os sonhos sonhados quando a noite deixa de nos pertencer

as palavras escritas amadas e desamadas

e o palheiro da madrugada invadido pelos odores do jardim anónimo

não o sei

acorda

e às vezes

tantas vezes... meu Deus

percebo que há andorinhas com fome

e fome vestida de gaivotas

chora...

não o sei

porque vives escondida no meu peito.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:39

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