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Cachimbo de Água

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Os nossos delírios anseios

Francisco Luís Fontinha 25 Fev 13

Das raízes dos teus olhos, há o vento campestre, triste, e ausente, há as campânulas de silêncio embainhadas nos sabres lentos da insónia, há, havia ontem palavras por escrever, escritas depois da montanha em sonolência começar a descer, a descer, a descer como descem os corpos embalsamados que poisam nos jardins sem secretismos lábios em beijos, ou

Os nossos delírios anseios,

Os bolos de chocolate sobre a mesa na sala, deixamos de ter iluminação artificial, por opção própria, a mesa espera pacientemente pelo regresso dos convidados ossos com chapéus de pólen, uma criança, a filha da Alice, insignificante sorriso com espinhas e restos de morango, ela dança, ela está alegre, e porquê?

Apenas

Talvez

Ainda não percebi se o faz por ser louca, indesejada, ou, ou porque amanhã vai receber das mãos do tio Augusto um livro de COLETTE “GIGI”, está lindíssima a mulher da capa a olhar para as janelas? Da cidade em desalinho, a elegância das palavras, dos sons, dos automóveis camuflados de ervas daninhas,

(não sei se conseguirei sorrir depois de ler o jornal)

Uma tristeza em desenhos alicerça-se no meu peito, uma mulher com cabelo preto e lábios elegantes, lança-me um corda com inúmeros nós, muitos, infinitos, como os anzóis que o rio come e depois acordam debaixo das pedras pintadas de fresco

“CUIDADO – PINTADO DE FRESCO”

Distraidamente, sempre eu distraidamente, sento-me no alegre banco de jardim acabo de nascer, as ripas de madeira como se existisse entre eu e elas um pedaço papel-químico, transportam-se para as minhas agastadas calças de ganga, velhíssimas, e robustas, como os petroleiros que atravessam o Tejo e depois acabam por se esconder num qualquer bar de uma ruela inconsciente da Lisboa perdida numa simplificada folha de papel, queixavas-te dos sons nocturnos das asas em voos rasantes das gaivotas embrulhadas em fome, sede, e falta de dinheiro,

Ouviam-se os sucessivos suicídios dos cigarros de enrolar contra os rochedos,

Como as árvores quando desistem de viver,

“CUIDADO – PINTADO DE FRESCO”, (NÃO SEI SE CONSEGUIREI SORRIR DEPOIS DE LER O JORNAL), e ela acredita na ressurreição,

GIGI olha-nos, GIGI grita-nos, GIGI deita a cabeça no teu colo construído de verdes e iluminados pensamentos como uma candeia a petróleo que encontramos dentro da parede da cozinha, quando, alguns meses antes da nossa partida, no interior da espessa parede de xisto ela esperava pelo teu sorriso, e pergunto-me

Porque todos e todos necessitam do teu sorriso apenas meu? (saberá uma rosa o que é o amor e o quanto ele é fodido?), e

E,

(Das raízes dos teus olhos, há o vento campestre, triste, e ausente, há as campânulas de silêncio embainhadas nos sabres lentos da insónia, há, havia ontem palavras por escrever, escritas depois da montanha em sonolência começar a descer, a descer, a descer como descem os corpos embalsamados que poisam nos jardins sem secretismos lábios em beijos, ou), ou GIGI transformar-se-á em estrela de luz com olhos de papel de muitas cores, ou, eu, com mandíbulas de aço inoxidável roubo a lua

Ofereço-te-a,

Ou

E,

Peço aos trapezistas das noites ausente de ti, e procuro-me dentro do teu corpo liquefeito, que a fórmula da paixão escreve-se nos muros finos e altos entre os edifícios da cidade velha, há ruas com reumatismo e ensonadas com pingos de asma, há ruas com dores diversas nos diversos ossos em diversas noites, de diversos dias, quando as semanas se escoam como líquidos termodinâmicamente estáveis, e sinceros na esbelteza das asas de cartolina de uma mulher escondida numa das ruas anteriormente descritas, como as ratazanas, e há ruas como há pássaros, há crianças como há cadáveres, na minha nossa velha cidade com telhado de areia,

E procuro-me no interior de um círculo de coxas com cubos de púbis, geometricamente a manhã acorda só para nós, mas ambos sabemos que a falsidade habita no exterior de uma janela de vidro, sobre um telhado de zinco, no quinta juntamente com pedaços de capim, húmidas pedras em húmidos orgasmos entre as palavras e os desenhos pintados nos teus seios de amêndoa,

Ou

E,

“CUIDADO – PINTADO DE FRESCO”,

(E procuro-me dentro do teu corpo liquefeito, que a fórmula da paixão escreve-se nos muros finos e altos entre os edifícios da cidade velha, há ruas com reumatismo e ensonadas com pingos de asma, há ruas com dores diversas nos diversos ossos em diversas noites, de diversos dias)

Como o amor das rosas em papel.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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