Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

As cinco primeiras insónias da madrugada

Francisco Luís Fontinha 24 Dez 12

Suicidou-se nos meus braços,

 

Quatro filhos, um marido alcoólico, o amante constantemente com as primeiras cinco insónias da madrugada, um cão, um pássaro, que mais ela podia desejar?

 

Saía de casa por volta das 04:30 horas, ainda não tinha acordado o dia, levitava-se pela casa em bicos de pés, beijava na face cada um dos filhos, rogava uma praga ao marido embriagado e pensava nas primeiras cinco insónias do amante, pegava-lhe na fotografia ao de leve, e beijava-o docemente

 

Nos meus braços,

 

O cão sabia ler, o cão sabia escrever, e o pássaro

 

Nos meus braços,

 

Fazia a contabilidade da casa, organizava os jantares de família, digamos que ele era a governanta lá do sítio, cabisbaixo, de asas poisadas sobre a lareira dos sonhos, fazia contas, e quando chegava à prova dos nove

 

Foda-se a conta está errada,

 

Nos meus braços, os fósforos que a morte come quando de deita o dia, chega a casa cansado, desinteressadamente infeliz, faltava-lhe tudo, os rebuçados, as guloseimas, as amêndoas de chocolate e o caramelo Espanhóis que o contrabandista do zarolho oferecia todos os anos pelo Natal, felizmente já faleceu, e vimos-nos livres dos caramelos

 

O meu pai sempre disse, isto um dia vai acabar mal, nos meus braços, O cão sabia ler, o cão sabia escrever, e o pássaro

 

Enfaixado nos caramelos de Luz, chovia, o meu pai acordava todas as manhãs embrulhado em vómitos e crateras de sulfato de amónio nos lábios, acendia o cigarro da desgraça, o cão impaciente, o pássaro fodido, e a minha triste mãe de lágrimas nos olhos a escrever as queixas nas faces rosadas do amante, faltava-lhe qualquer coisa

 

Nos meus braços, suicidou-se ao entardecer,

 

E o meu pai sempre disse, isto um dia vai acabar mal, nos meus braços, o cão sabia ler, o cão sabia escrever, e o pássaro não resistiu aos salpicos das garras do gato do vizinho que aproveitando a janela da cozinha entreaberta, zás..., fodeu-lhe o pescoço

 

Enfaixado nos caramelos de Luz, chovia, o meu

 

Foda-se a conta está errada,

 

Docemente a beijava, sem perceber que a casa ardia na fogueira da paixão, os meus queridos irmãos

 

Suicidou-se nos nossos braços,

 

Eu

 

Caminhava com quatro filhos, um marido alcoólico, o amante constantemente com as primeiras cinco insónias da madrugada, um cão, um pássaro, que mais posso desejar?

 

A morte,

 

O gato constrói um arroto que todo o prédio presenciou sonoramente, na Antena 3 desenhava-se o Planeta 3 nas falsas palavras dos livros dele, os uivos, os gemidos, os milagres concedidos à minha querida mãe, e que hoje partilha uma assoalhada bem lá no alto

 

A morte de um orgasmo,

 

Bem lá no alto, No céu?

 

Os meus três irmãos os estúpidos de sempre, engasgados nas asneiras da literatura vendida no vão de escada, subia-se, subia-se

 

No sexto andar seus parvalhões,

 

Subia-se até que chegávamos ao céu,

 

Eu, três irmãos, a minha querida mãe melancólica, o meu paizinho sempre embriagado, o amante da minha mãe constantemente à procura das cinco primeiras insónias da madrugada, um cão, um pássaro, que mais eu podia desejar?

 

A morte de um orgasmo

 

Na cabeça da lua, nos braços

 

Bem lá no alto, No céu?

 

Suicidou-se nos meus braços sem perceber que eu era um cadáver ensonado que de jardim em jardim, que de embarcação em embarcação, que de autocarro em autocarro (riscar autocarro porque estão em greve), que de papoila em papoila

 

Bem lá no alto, No céu?

 

A morte de um orgasmo depois do suicídio das lâmpadas de néon que todos eles utilizam no Natal,

 

A morte de um orgasmo

 

Na cabeça da lua, nos braços

 

Bem lá no alto, No céu?

 

Sim, no céu, os dias deixaram de ser dias, os dias, pequeníssimas folhas de papel voando sobre um ninho de cucos...

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

Os dias embrulhados nas coxas da noite

Francisco Luís Fontinha 27 Jun 11

Não faço nada... imagino que está frio,

E às vezes sinto frio de não fazer nada... e que bom, eu mergulhar no Douro lentamente como se fosse uma pétala a descer o corpo de uma mulher, uma qualquer, ou homem, um qualquer, prender-me ao fundo e esperar que a minha respiração cesse, e que da noite desçam até mim as estrelas, FIM, e no teste de História o doutor Morais com a caneta vermelha,

- FIM da brincadeira, princípio do estudo,

REPROVADO,

E ainda não é desta e desço e desço e desço até ao fundo do rio e toco e toco e toco com a mãozinha no lodo, e não e não e não cessa a minha respiração, e não e não e não estrelas vindas da noite, CONTINUAÇÃO,

Do dia de ontem igual ao dia de hoje, o mesmo sol, o mesmo calor, as mesmas nuvens e a mesma noite,

Tudo igual,

- Escreve-me um poema!,

Não e não e não, não,

O coitadinho de mim, e ela com uma pedra de gelo desde o meu pescoço até… e apanha-a com os lábios como se fosse um silêncio de nada, o coitadinho de mim suspenso na continuação do dia de ontem, e irritam-me os dias sempre iguais, nem morro nem mato nem dou seguimento à minha existência medíocre, o pacóvio adormecido nas noites milagrosas de Agosto, o vendedor de sonhos na feira da ladra,

- Baratinho só cinco euros,

Peço desculpa, onde se lê cinco euros deve ler-se mil escudos,

Embrulhados na algibeira para as noites tórridas de verão e sobre a mesa da esplanada sílabas de cerveja e vogais de tremoços, e o estômago incha, e o liquido derrama-se no escuro muro de vedação da noite, e estrelas?,

- Estrelas?, quais estrelas?,

No fundo do Douro,

Não desceram estrelas do céu, o céu não existe, o Douro não existe, as estrelas não existem, o mar não existe, e, e o poema não existe,

- O poema és tu PARVALHÃO,

Os dias embrulhados nas coxas da noite,

 

Da pele de silêncio as gotinhas pétalas das tuas mãos

Os sorrisos seios do teu peito

As finíssimas nuvens dos teus lábios

Na entrada húmida e cintilante boca de esmeraldas,

 

- Olha… passou-se,

Os dias embrulhados nas coxas da noite, CONTINUAÇÃO,

 

As tuas cristalinas palavras que escreves

Quando a madrugada se despede na ópera da noite

E o teu púbis mergulha no meu corpo de silício…

Do meu corpo na combustão da tua sombra,

 

Da pele de silêncio as gotinhas…

A mão que deixa cair-se lentamente em ti

Como se fosses um pedacinho de neve

E a minha mão aos poucos na tua solidão.

 

- Não faço nada... imagino que está frio,

E às vezes sinto frio de não fazer nada... e que bom,

Quando as estrelas descem até ao fundo do rio, e um corpo cessou de respirar, e que bom perceber que esse corpo não é o meu, o meu, o meu corpo pendurado no espelho do guarda-fato e batem-me à porta; vamos jantar.

Sobre o autor

foto do autor

Feedback