Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Os últimos cacos de ti desaparecem nas amoreiras virgens dos telhados de colmo

a dor inseminada que sentiam as tuas dúcteis veias habitam hoje nas janelas de mármore

e durante a noite

a mão solitária da insónia rouba o mar que se ouvia das janelas de mármore...

sinto-te neste momento em finas placas de poeira

inventas o vento para que os teus despojos sejam selvaticamente levados para a montanha

uma ribeira alegremente chora

e no teu rosto de cacos

as pequenas lágrimas de cianeto que invadem o teu doce sofrimento

hei-de ser uma lareira acesa na tua mão de porcelana

um livro em forma de chocolate...

hei-de ser um dos últimos cacos de ti.

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 19 de Janeiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:08

15
Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Perceber o fogo do corpo em suspenso

aquele que arde entre a morte e as palavras enraivecidas

escrever no corpo que arde em suspenso quando os lábios do fogo

não morrem... e permanecem inconstantes como um círculo descendo a calçada da Ajuda

perceber que o homem arde

fervilha

e dorme no colo de outro homem...

ergue-se o cansaço argiloso das andorinhas de papel

vem a nós os desejos preguiçosos das saudades de ontem

e fervilhas

como um pedaço de madeira nas mãos de Deus...

porque o rio se despediu de ti e tu permanecerás dentro da lareira da paixão.

 

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:44

25
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

A colegial sem nome que esconde os lábios na madrugada

o livro da colegial dorme como uma criança cansada

o cansaço inventa sorrisos nas mãos do desejo

e este

às vezes como um poço sem fundo

também como a colegial

sem nome

voa sobre as praças com candeeiros de prata,

 

Os lábios foram-me oferecidos pela madrugada

e a noite constrói-se nas lágrimas da chuva

dos orgasmos fingidos

que a colegial também esconde

não na madrugada

não no corredor da morte...

mas... mas esconde-os na alma do Diabo

como pétalas de insecto mergulhadas nas manhãs de Inverno,

 

A colegial é transparente

é imóvel

saboreia-se nas candeias que o destino lhe roubou

ela desconhece que a lareira existe apenas para a aquecer

despe-se para o espelho...

a colegial sem nome diz que quando for grande quer ser uma fotografia a preto-e-branco

perplexa

descobre o veneno dos zincos telhados que acordam a criança cansada...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:37

09
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

brincava com as dúcteis tuas mãos de porcelana

vivia em nós o espelho giba da paixão

e sabíamos que das barcaças tontas dos malignos jacarés de palha...

palavras em fogo atravessavam os nossos corpos

eram agulhas de desejo

como serpentes envenenadas da selva dos beijos embriagados

comíamos coisas fúteis

bebíamos líquidos esbranquiçados com duas simples pedras de gelo...

a tua mão tremia

abraçada à tua voz de noz enfeitada com néons de linho nos cortinados vazios das esplanadas nocturnas de Belém... e os cacilheiros dentro de ti

choravas e uivavas...

e apitavas...

 

percebia-se nos teus olhos o romper da madrugada

e o regresso das chuvas invisíveis com sabor a procissão desalmada

brincava

choravas

e vivíamos encalhados numa tenda de circo

com asas metálicas

e nariz em fibra-de-vidro...

não não éramos um avião

e vivia em nós o espelho giba da paixão

um fino sabor a hortelã vagueava no teu rosto desenhado no xisto de prata

e da lareira

uma nuvem de sofrimento fundia-se como chumbo no prato fundo da ribeira dos tristes orvalhos...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 9 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:08

02
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

A musicalidade das tuas mãos poéticas, sinto em mim as teclas do piano onde poisas o teu silêncio, e mergulhas no Sol e és levada para as nuvens invisíveis que habitam no meu peito, a rua está deserta, e chove, e a lareira ficou acesa, há um cadeirão pronto a receber-te e um livro esguio e macio para abraçar a tua doce pele de chocolate,

Sinto-me criança envolta de farrapos e antigos utensílios de cozinha, quero ligar o interruptor do amor, aquele que há muito foi desligado pela intempérie do desejo e não consigo, sou tão pequeno, sou tão baixinho... que não o alcanço com os meus dedos de arame envergonhados pelo reumatismo e pela insónia de procurar-te entre as fotografias e de nunca ser eu capaz de te encontrar, sem

Atrasado?

Sempre ignorado, vergado, mergulhado nos lençóis da infância quando apenas tínhamos um cobertor que servia para nós os três, não havia divisões na nossa casa,

E apenas

Chita suspensa num cordel,

A vedação de nós, separados por milímetros de estampados impregnados com cheiros do outro lado da rua, e uma varanda, de vez em quando, agoniava-se com a nossa presença,

E apenas pássaros sobre o teu cabelo curto de alfazema...

E apenas

Chita suspensa num cordel,

Sempre impermeável como um oleado telhado sobre a velha estrutura em madeira, chovia-nos e às vezes parecíamos candeeiros de parede esperando a mão de quem os acende, a chama era ténue, e tremíamos como arbustos esperando o regresso do Tejo dos tempos que nos visitava, entrava pela varanda, os primeiros dias ficava à nossa espera até que um de nós lhe pegava e o trazíamos para dentro, depois

E apenas

Chita?

Depois ele mesmo fazia as cerimónias da casa, subia à varanda, ora fica a fumar o seu cigarro ora entrava logo após regressar, e sentava-se no colo de um de nós, quase sempre fazia-o no meu, talvez porque eu era o que mais saudades tinha dos tempos dos barcos paquetes rasgando os Oceanos meninos das floreiras em tristezas Primaveras,

Chita suspensa num cordel,

E apenas queríamos viver como todos os outros viviam, e apenas esperávamos o regresso da vida condigna como todos os outros a tinham, e apenas..., sentíamos o pulsar dos corações da geada nos vidros estilhaçados, tínhamos janelas incompletas, vazias, doentes, janelas com quadrados espaços onde tudo entrava menos o calor e a saudade, tínhamos vergonha da vergonha quando em nada tínhamos de nos envergonhar, e sabíamos que as escadas graníticas, durante a noite, desapareciam, e ficávamos sem acesso à rua, madrugada dentro

Sempre,

A chita?

Entravam, embriagadas como varões em aço esperando a mão do operário especializado em ferro, e logo pela manhã, e logo que fosse dia, deitávamos-lhe água a ferver, desaparecia-lhe a embriaguez e o gelo e após alguns minutos voltávamos a ter escadas de acesso à rua, chita suspensa num cordel, metralhadoras ouviam-se em volta do chafariz junto à igreja, gorgulhos de felicidade cresciam nos arrozais dispersos dos teus lábios de lânguida manhã de Outono, e os outros besouros adormeciam na nossa varanda enquanto não regressava o Tejo, e de cigarro na boca, e de pulseira no braço, e de lenço ao pescoço...

Gargantilhas voando entre gafanhotos e portas de madeira prensada, tristes e belas, e envergonhadas pelas janelas sem vidros, e da casa

Sem paredes, nada, apenas

Chita?

E um cordel de medo a atravessar o espaço vazio de nós...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 2 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:57

20
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

apetece-me comer-te

morder os teus lábios em chocolate

fervilhar como tu dentro de uma chávena de chá

olhar-te

saborear-te quando entras em mim

pela manhã sem manhã

 

mastigar os teus olhos de néon

sem que tu percebas que os teus olhos são comestíveis como as castanhas

no Outono

sentados a uma lareira invisível

enquanto eles se dissipam através da chaminé do desejo

voando sobre os velhos telhados da tua aldeia

 

apetece-me comer-te

saborear-te como saboreio um copo com água

como saboreio as gotículas de suor do teu corpo bronzeado...

mastigar-te e saborear-te e engolir-te

como se tu e os teus olhos e a manhã sem manhã... fossem pedaços de vento

também eles comestíveis e saboreáveis...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 20 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:35

31
Jan 13

Todos eles me dizem e salivam nas paredes do orvalho

que eu não tenho coração

que eu sou uma nódoa num pano pornográfico

à janela do tempo indeterminado

oiço-os dentro dos buracos e respiram

e se alimentam nas vãs mensagens sem destinatário

não vou regressar

e recuso-me a absorver-me nas planícies que a paixão tece

e vagabundeia sabendo que às vezes

lágrimas

há lágrimas de chocolate

na aldeia do desejo,

 

há uma lareira com vista para o Douro

lá encosta-se e poisa a mulher mais bela

e ardem pedaços de videira

e se aquecem as palavras sem livros onde dormirem

e se aquecem abajures de linho

há uma claridade intensa

da paixão das almas e dos xistos com olhos de diamante

lá encosta-se a Deusa adormecida

como o Douro em cascatas até ao cimo da montanha

lá encosta-se o desejo de um coração de prata

com sabor a lilases flores que o Inverno atormenta

e a lareira não cessa de amar.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:33

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