Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

12
Ago 15

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(Francisco Luís Fontinha)

 

O amor entre quatro paredes em vidro

Pincelado por um louco,

O amor de tão pouco…

Em nada satisfaz a luz da solidão,

Um coração dilui-se na madrugada semeada nas palavras,

O livro que o louco tem na mão…

Arde como ardem os cigarros das quatro paredes em vidro,

Esqueci como era o mar,

Esqueci como enferrujado está o meu corpo,

Sem perceber a mendicidade nocturna das pontes entrelaçadas nos petroleiros do luar,

O meu relógio cessou de gritar,

Afogou-se numa esplanada de vento…

 

Quando o rio brinca nos meus lábios,

Sinto-te correndo em direcção às quatro paredes em vidro,

Escondes-te no meu peito,

Sofres,

E não sabes o nome da minha cidade,

O amor de tão pouco…

Louco travestido de alvenaria,

Entro, sento-me… e fico até encerrar a livraria,

A paixão é uma tempestade de saudade,

E nunca sei se hoje há literatura nas tuas coxas,

E nunca sei se hoje há coxas embrulhadas em literatura…

Porque tu és um quarto escondido entre quatro paredes em vidro.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 12 de Agosto de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:35

06
Abr 11

Achas que as livrarias físicas vão acabar? Nua sentada no divã, ela descrevia círculos na pequeníssima luz que iluminava a praia, nas ondas habitava o silêncio de uma noite sem luar, e dentro dela, dentro dela garças que se abraçam, se amam, se desejam, dentro dela a luz em finíssimos fios de seda, a pele clara e no dedo um anel não de verdade, um anel de brincadeira, junto ao soalho conchas em movimento rectilíneo e uniformemente acelerado, Newton em cuecas passeando no quintal, Einstein em contas de cabeça percorrendo cada milímetro quadrado da parede onde estava pendurado um reles crucifixo de um reles trapezista de circo, maricas, homem de bons princípios, e dos princípios, ela lembrava-se de Arquimedes enfiado na banheira a dar lustre aos colhões, e os colhões em voz alta,

- Achas que as livrarias físicas vão acabar?

Meu deus, eu morria.

Se as livrarias físicas acabassem, se deixasse de haver livros em papel eu suicidava-me, pior que isto só os pacotes do FMI, pior que isto só o circo sem trapezistas, não trapezistas, pior que isto só o circo sem palhaços, não palhaços, não crucifixos pendurados de cabeça para baixo nas paredes da sombra, pior que isto só os charlatães da banha da cobra que há anos nos andam a enganar e a enganar novamente nos querem…

- Se as livrarias físicas acabassem,

Uma tragédia que nos assola diz ela,

- nua sentada no divã, ela descrevia círculos na pequeníssima luz que iluminava a praia, nas ondas habitava o silêncio de uma noite sem luar, na maré estantes de gaivotas engasgadas de livros, às vezes um sorriso de tosse alisava a madrugada, e o divã adormecia nas carícias da pele dela, de mão poisada na almofada da dor, e da dor,

Achas que as livrarias físicas vão acabar?

Meu deus, eu morria.

Se as livrarias físicas acabassem, se deixasse de haver livros em papel eu suicidava-me, escondia-me dentro do nada, agarrava-me a uma carruagem do TGV e pimba, pimba daqui para fora, saltava a fronteira rumo a outro país não de mentira, rumo a um país de verdade…

Achas que as livrarias físicas vão acabar?

- pimba daqui para fora rumo a um país de verdade… não um país de mentira, não um país de charlatães, um país de verdade…

 

 

 

(texto de ficção)

FLRF

6 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:06

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