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Cachimbo de Água

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O silêncio do imperfeito

Francisco Luís Fontinha 31 Out 17

Perfeito.

Imperfeito.

O silêncio mutante da escuridão,

Quando desce da montanha uma pobre canção,

Feio,

Feito, diz ele, antes da morte,

Perfeito.

Imperfeito.

Pobre,

Nobre,

Enquanto caminham sobre a Lua as sombras terrestres do medo,

Um foguetão em apuros,

Uma traineira desgovernada,

Só, e sem nada,

Perfeito.

Imperfeito.

Sempre suspenso no alpendre da dor,

Sente,

Sofre,

Para quê? Se ele percebe que vai morrer…

Sinto,

Ele,

No deserto das serpentes,

Perfeito.

Imperfeito.

Sem jeito.

Silêncio…

Um caixão em lágrimas,

As pálpebras em chamas,

E, a vida parece uma lâmpada sem alma.

 


Francisco Luís Fontinha

Alijó, 31 de Outubro de 2017

As aventuras na eira

Francisco Luís Fontinha 16 Jun 17

Uma nuvem sulfúrica poisa no teu silenciado sorriso,

Agacho-me sobre a terra prometida…

Mas não tenho jeito para a aprisionar na minha mão,

Minutos depois, palavras muitas, perco o juízo,

Pego na luz magoada que ficou em ti esquecida,

À porta de entrada do meu coração,

 

As aventuras na eira

Enquanto cai a noite sobre o espigueiro,

Livros perdidos dentro de um mealheiro…

Para serem vendidos na feira,

 

A casa é pobre, pequena… e aconchegante,

O quintal recheado de poemas envenenados pela charrua,

O meu corpo embebido em clorofórmio vomitando sinalização de rua…

Que o luar se torna brilhante,

 

E a lua,

É tua.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16 de Junho de 2017

STOP

Francisco Luís Fontinha 8 Abr 17

Finge o tempo acordar nos adormecidos sargaços da manhã,

Invento o esmagado espaço que os pássaros alimentam sem perceberem que a madrugada se suicidou nos rochedos da solidão,

Sou feliz assim…

Procuro nas janelas do amanhecer os carrascos envelhecidos da paixão,

E dou conta que nas minhas mãos restou a saudade,

Pego num livro,

Abro-o e procuro nele as personagens da noite,

Vagarosamente,

Construo o invisível visitante da desgraça…

Que vive em minha casa,

Oiço o teu sorriso nos alpendres da insónia,

Caminho sobre o teu corpo como um vagabundo da vergonha,

E mesmo assim… para ti, sou o assassino das palavras não escritas,

Velhas e irritantes,

Escrevo-te como escrevi milhares de vezes à Lua,

Em vão…

A distância dos supérfluos caminhos do desgosto,

Essas… parecem adormecidas nos meus pequenos lábios de porcelana,

As fotografias,

As imagens prateadas das sandálias do cacimbo que ficaram nas enxadas profundas dos charcos de água,

Os fantasmas do luar descendo a calçada até que a morte vinha e nos levava para destinos incrédulos, ausentes, sem nada,

Finge o tempo,

Finge o lamaçal de vaidades que me rodeiam e odeiam como serpentes de veneno encarnado,

O tempo que não avança nas tuas coxas,

Os teus seios que se encontram acorrentados ao mísero porto, o cheiro nauseabundo da nafta e de velhas sucatas, a proximidade do teu sorriso agachado no pavimento encaixotado, móveis, miudezas e outros ossos…

A loucura,

Que finge pertencer-me…

E que eu nunca tive a oportunidade de a vencer na batalha da solidão,

São, meu amor, são os poemas desertos do desencontro que me deixam atormentado,

São as tuas palavras cravadas no meu peito que me dão as asas necessárias para eu voar junto à janela…

E mesmo assim, queres que eu finja que sou poeta…

STOP.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Abril de 2017

janela virada para o mar

Francisco Luís Fontinha 6 Abr 16

sinto o peso da lua

sobre os ossos em papel

que habitam o meu corpo

escondo nas mãos o luar nocturno da solidão

dos tristes pássaros do meu jardim

escrevo-lhes e converso com eles

a minha presença incomoda-os

e pareço uma imagem aprisionada num hipercubo de sombras

sonhos

rios infindáveis

palavras esquecidas no vento

correndo nas minhas veias de vidro martelado

o opaco desejo nas madrugadas embriagadas pelas andorinhas

o silêncio abraçado a uma árvore

sinto o peso da lua

sobre os ossos em papel

que habitam o meu corpo

aos poucos vejo o teu olhar sentado sobre o meu peito doente

como se existissem roldanas de cartão

na pele que me alimenta

sou um aldeão sem aldeia

mas das montanhas

regressam os homens do coração granítico

que trazem a noite

e me roubam as palavras

depois a tua boca entrelaçava-se na minha

um fino sorriso de nylon brincava na janela virada para o mar

os barcos encalhados nas tuas coxas

em pequenos apitos sonâmbulos

uma casa em chamas

dois corpos em chamas dentro da casa em chamas

o farol lá longe

guiando-nos até ao infinito

a morte

a paixão laminada pelos orifícios do deserto

sinto-me um prisioneiro esquecido num qualquer porto de mar

cordas

correntes de luz dificultando-me a mobilidade das palavras

os livros também em chamas

na casa em chamas

com dois corpos em chamas

o inferno inventando o suor do teu corpo

as asas que te levam para o Céu

também elas em chamas

a fogueira dos nossos cadáveres sobrevoando o horizonte

descemos a calçada

sentamo-nos junto ao rio

dois condenados ao amor impossível

às cartas nunca escritas

o amanhecer quase a chegar

nos teus lábios as pedras preciosas da saudade

há tanto tempo com esta enxada rosada na mão calejada pelas pálpebras do incenso

há tanto tempo

aqui

sem ninguém

 

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 6 de Abril de 2016

Musseque desventrado

Francisco Luís Fontinha 2 Mar 16

Não, não meu amor,

 

A lua não te pertence,

A lua é um esconderijo de beijos,

Uma cidade inanimada…

Um musseque desventrado

Com vista para o mar,

Não, não meu amor,

A lua não é um veleiro à deriva,

Uma cascata da vida,

A lua, meu amor, a lua nunca te pertenceu…

E nenhum de nós a pode abraçar,

Como se abraçam as árvores

E os pássaros na Primavera!

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 2 de marco de 2016

Pensão ruína

Francisco Luís Fontinha 5 Set 15

desenho_05_09_2015.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)

 

Mastigava as palavras nocturnas do sono,

Enquanto do outro lado da rua,

Alguém,

Alguém gemia,

Uma rosa nua?

Uma pétala de rosa tua?

Alguém,

Enquanto eu dormia,

Alimentava-se dos meus sonhos entre círculos e triângulos rectângulos,

Acariciava os catetos,

Beijava a hipotenusa,

E enquanto eu dormia,

Alguém,

Alguém vestido de musa…

Nua a rosa,

Pétala a tua,

Mastigava as palavras nocturnas do sono,

Desenhava na ardósia negra do sentido proibido

Os teus seios mendigando o meu peito,

Nunca,

Nunca tive jeito,

Vontade…

E alguém,

Sem eu saber,

Entranhava-se nos meus tristes ossos,

Alguém,

Alguém gemia,

Do outro lado da rua,

E eu,

E eu sentia,

A lua,

O mar agachado nas tuas coxas silenciadas pela amargura,

Tanto tempo perdido,

Em pequeníssimas folhas de papel quadriculado,

Chorava e gemia,

Do outro lado da rua…

O poeta suicidado,

Uma rosa nua?

Uma pétala de rosa tua?

Alguém,

Enquanto eu dormia,

Roubava-me a tela da agonia…

Acorrentava-me às paredes pinceladas de bolor…

Colocava sobre as minhas pálpebras um cubo de gelo,

No meu cabelo,

Uma rosa,

Tua,

Uma tua rosa nua,

Sem sentido,

Os livros que li,

As palavras que escrevo e escrevi,

Não,

Não eram para ti,

Porque alguém,

Não sei quem,

Injectava-me nas veias finas lâminas de saudade,

Cerrava os olhos, fingia estar vivo quando os barcos da alvorada subiam as escadas da sufocada pensão,

E eu,

E alguém…

Gritava,

Chorava,

Sem saber a razão,

Do poeta suicidado

Subir e descer as escadas da pensão,

Quando a pensão estava deserta,

Morta,

Sem janelas,

Sem cortinados nas janelas…

E todas as portas,

Também elas,

Todas,

Todas mortas,

E alguém,

Não sei quem,

Inventava fotografias para eu folhear…

Enquanto a pensão,

Enquanto a pensão se afundava no meio da rua,

Mesmo em frente ao meu cadáver descarnado pelo tempo,

Havia vento,

Havia lágrimas nos lábios do vento,

E alguém,

Sem saber porquê…

Ou razão…

Deixava o meu nome nas ruinas de uma pensão.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 5 de Setembro de 2015

O esconderijo da Lua

Francisco Luís Fontinha 13 Jun 14

Toco-te,

estilhaças-te como o espelho da velha cristaleira,

depois, depois entra o mar nas tuas veis de nylon,

toco-te, e finjo ser um barco esquecido nas tuas mãos,

em silêncio, em silêncio para que ninguém perceba que no meu corpo habitam porcelanas em cacos,

alguns sons metálicos, melódicos, alguns... alguns ciclónicos ventos,

perguntas-me como é o amanhecer quando lá longe a Lua se esconde na montanha do desejo,

e eu, eu sem jeito, não sei responder,

entretenho-me a construir beijos num velho muro em xisto,

preguiçosos,

doentes,

toco-te e sinto, a claridade do teu olhar a entrar na caverna do Adeus,

 

(Ai como eu sofro...! Oiço-o enquanto alicerço as minhas pernas ao cansaço)

 

Querias o amor, e eu, eu dei-te o amor...

daí sobejaram os segmentos de recta da tua boca,

e deixaste alguns círculos de chapa nos cortinados da madrugada,

 

(Ai...! Oiço-o...)

 

E deixei de o ouvir,

afogou-se num poço de luz,

e...

e reapareceu quando um menino de bibe descobriu que existia noite depois do dia,

toco-te, e estilhaças-te nas escadas sem rumo,

desgovernadas,

loucas, loucas e apaixonadas...

Consegues imaginar a paixão de uma escada?

Claro que não, claro que não...

dizes-me,

que... que as escadas não se apaixonam,

que as pedras, os cacos de porcelana... nunca existiram,

 

(Ai como eu sofro! Oiço-o... na sua voz roufenha... São pássaros, menino, são pássaros... pássaros de cristal)

 

O caraças

 

Toco-te e finges orgasmos de coloridas flores,

toco-te, toco-te e... estilhaças-te como o espelho da velha cristaleira,

morres,

desapareces no interior da alvenaria ensonada,

lá fora, nada, nem uma locomotiva para te recordar,

um rio, um Cacilheiro embriagado, nada...

lá fora, toco-te,

toco-te e acordo...

 

Ai... ai como eu sofro, menino! Não..., não tenho sorte nenhuma.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 13 de Junho de 2014

Cidade-mulher

Francisco Luís Fontinha 9 Mai 14

Há uma cidade infinita onde habita o amor proibido,

há uma mulher vestida de cidade, com edifícios de cartão, com janelas e portas de entrada,

há uma rua que fica nos seios dessa mulher,

há uma varanda,

dela... o mar todos os dias avança,

corre como uma criança,

há uma cidade-mulher e proibida...

sem saber que é amada,

 

Há uma gaivota nos cabelos da mulher proibida,

e voa sobre a espuma fictícia das ondas em flor,

há uma cidade,

uma mulher...

e um amor,

todos... proibidos,

 

Há uma mão que pertence à cidade-mulher e não se cansa de acariciar o sorriso da Lua,

finge vertigens e enjoos,

transforma-se em miudinha chuva,

cai nos telhados de zinco,

ouvem-se sons melódicos e palavras poéticas,

há um homem sem cabeça que caiu em desgraça...

não come, não dorme e não sonha,

e acredita que a cidade-mulher um dia vai morrer nos lençóis do pergaminho linho,

 

Há uma madrugada,

tão triste... Meus Deus!

Sem estrelas, árvores ou... ou outras cidades-mulher,

há um rio encurvado no púbis da vergonha de amar... amar o que nunca poderá ser amado,

proibido,

como os cigarros que fumo às escondidas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 9 de Maio de 2014

Janelas da solidão

Francisco Luís Fontinha 28 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

São as tuas mãos frias e doces que alimentam o meu olhar

são as tuas mãos a lareira do desejo

o sincelo amigo nas manhãs nubladas

são elas a chuva prometida

que a tua pele doirada absorve

como caramelo derretido numa panela de pressão angustiada

as vãs noites resfriadas enquanto espero por elas...

… as tuas mãos que poisam no rosto do sem-abrigo

e aquecem o mendigo

são as tuas mãos frias...

e doces...

e singelas sesmarias que alimentam o meu olhar

São as tuas mãos frias

aquelas que o papel engole quando às palavras vem a tristeza

o barco recusa-se a navegar no teu corpo

e o mar

e a madrugada lívida dos pássaros marinheiros

voam sobre a cidade dos homens abandonados

e se não fossem as tuas mãos

aquelas... as tais... que dizem ser frias...

e se não fossem elas?

nós?

Imaginas a nossa vida...

vivermos sem saber o que são as tuas mãos frias

E doces que alimentam o meu olhar

o mundo seria quadrado

a lua talvez fosse filha de um triângulos isósceles

pobre como eu

tão pobre que nem se consegue ver no céu...

se não fossem as tuas doces e tristes mãos

o que seria da raiz quadrada e do cosseno de trinta grados?

e tu miúda

bela e tão bela

preocupada com um borbulha... coisa insignificante

porque são as tuas mãos

as tais... as doces e frias... as janelas da solidão.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 28 de Dezembro de 2013

a jangada com olhos castanhos

Francisco Luís Fontinha 19 Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

trazias nas mãos uma jangada com olhos castanhos

cansavas-te com o olhar das crianças

e dos pequenos botões de rosa

 

trazias dentro de ti um cubo de faces rosadas

dos pobres lábios ensanguentados pelo bâton uma lâmina de tristeza

absorvia a tua boca enlatada

como uma conserva

esquecida numa qualquer prateleira da despensa

 

sentia-te vociferar debaixo do sombreado fantasma

agarrado a uma pétala fotográfica

e a preto-e-branco

o fotografo vestido com sais de prata

alicerçava os pobres desejos da madrugada

 

(trazias nas mãos uma jangada com olhos castanhos

cansavas-te com o olhar das crianças

e dos pequenos botões de rosa)

 

e sabia-te enlouquecida quando te embrulhavas nas marés de areia

e corrias

e brincavas num corredor longo e estreito e alto

choravas parecendo a chuva desencadeada pelos sorrisos adormecidos

dos tristes minguados sonhos que a infância assassinou

 

trazias nas mãos a jangada da paixão

escrevias nos absolutos números complexos as amêndoas com chocolate

que o vento imaginava

e não sabendo que o cacimbo lhe pertencia...

ela adoptou como filha a doce menina equação diferencial

 

ela é a integral tripla dos seios loucos com voz de rascunho

sente no corpo o aparo da caneta de tinta permanente

acaricia-lhe as coxas como quando se folheia um livros de poesia...

e as palavras saltitam como gotinhas de suor na face alegre da Lua

ela é a integral que transporta na mão a jangada com olhos castanhos

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 19 de Setembro de 2013

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