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Cachimbo de Água

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Cansada palavra

Francisco Luís Fontinha 4 Fev 18

Semeei o teu corpo numa jangada de vidro,

Vi partir o teu corpo em direcção ao mar,

Levavas os livros, levavas as memórias das noites perdidas,

E os sonhos vividos,

Semeei o teu corpo pensando que um dia adormecerias em mim…

E da tua partida,

Pela madrugada,

Algumas nuvens brincando na alvorada,

Palavras imensas, palavras dispersas em ti como um grito de alegria,

Hoje pertences às sombras do infinito,

Argamassadas no sombreado jardim de pedra,

E, no entanto, meia-hora depois, sentia o teu rosto na minha mão.

Ninguém apareceu à minha partida, fui só, apenas eu…

Como nas noites junto ao rio,

Perdidamente angustiado na solidão dos dias,

Escrevia no chão a revolta da doença,

Lançava lágrimas na escuridão,

Pobre, sem-abrigo, neste corredor de lume,

A lareira também ela, doente, infeliz e triste,

A cinza, o silêncio das fotografias, que poisavam no teu olhar.

As mãos trémulas, as mãos cansadas como pedras…

Fundeadas nos teus cabelos.

A noite, meu amor, a noite mergulhada na madrugada,

O metro entre curvas e pingos de luz, deixando a terra, caminhando para o horário nocturno das sanzalas de ninguém,

Em foco, as luzes que te incendeiam os lábios, em cada beijo,

Uma cansada palavra.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 4 de Fevereiro de 2018

O feitiço da madrugada

Francisco Luís Fontinha 17 Jul 17

Há-de crescer no teu peito a saudade,

O lívido Oceano vergado à tua sombra longínqua…

Que brinca nas minhas mãos,

Um dia regressará a mim a tua sonolência em forma de deserto,

As árvores do teu passado são hoje páginas argamassadas de poesia,

Livros dispersos sobre o mar,

Escondo-me de ti,

Tenho medo que digas que envelheci…

E que o rio deixou de respirar,

Há-de crescer no teu peito o feitiço da madrugada,

As correntes que me prenderão aos socalcos inanimados…

A máscara espelhada nos lírios da insónia,

Fragrância perceptível nas andanças tuas pernas subindo o Chiado…

E, eu sentado na penumbra disfarçado de sem-abrigo…

Cuidado,

Stop,

Amanhã aparecerás em frente ao espelho,

Triste,

Tão triste meu amor…

Pertencer a estes livros estacionados na berma da morte.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 17 de Julho de 2017

Terra do silêncio

Francisco Luís Fontinha 5 Dez 16

Esta terra entranhada nas raízes do Diabo,

Sonolenta quando acorda o Inverno,

E uma lâmina de lágrimas brota do seu coração,

Saboreia as espadas da dor

No término da tarde onde inventa o silêncio do desejo,

Uma enxada poisa na sombra da terra lavrada,

E o vulto de cigarro em cigarro,

Como uma árvore deitada

Sobre a esplanada da paixão,

Dorme docemente…

Esta terra é íngreme como as montanhas do Adeus,

Sem sorriso,

E do cansaço brilham as estrelas da noite…

A casa gélida, triste,

Murmuram os candeeiros a petróleo nas cicatrizes da incerteza,

O absoluto orgânico melancólico cilíndrico…

Que o peso da lua deixa ficar sobre os envidraçados lábios,

Esta terra de beijos e moradas,

Esta terra queimada pelo incenso do amor

Que em todas as horas desperta como uma criança de luz…

Sinto o brilho dos teus olhos

Nas almofadas do desterro,

E as palavras que semeias…

Habitam este Inferno de viver.

 

 

Francisco Luís Fontinha

05/12/16

Círculos no teu olhar

Francisco Luís Fontinha 18 Abr 15

O amor é uma lâmina de pedra

Cravada no coração

É o pedestal sem estátua

O amor é a lágrima da solidão

Descendo docemente o teu corpo

Enrola-se nos teus seios

Poisa pausadamente nas tuas coxas

E dorme no teu ventre

Crescem dentro de ti as palavras

E os Oceanos de Luz

Corre o rio da insónia

Que a noite leva

E come

Nas cidades sem pálpebras

O sangue

O teu

Voando em todas as Primaveras

Do calendário da paixão

Alicerça-se à tua boca

Como sargaços de aço

Em morte lenta

Junto ao barco do destino

A madrugada incendiada

Pelos teus lábios de inocência

Como os livros que nunca vou escrever

Uma noite

É o amor nocturno sem vagar para abrir as comportas dos líquidos sonoros do teu púbis

A janela sem cortinado

Lá fora

As miúdas de palha de patins em linha

Danças

Sobre a cama

Suspendes-te no tecto da saudade

Sem ter tempo para a saudade

Uma noite

O amor

Não tem saudade

É o volátil cansaço dos jardins em flor

Os tentáculos de marfim

Nos dentes de um crocodilo

Velho

Uma noite

Alicerça-se à tua boca

Como sargaços de aço

Em morte lenta

Os tristes poemas da amargura

O cais em engate

Como às cordas do silêncio

No pescoço da alvorada

No teu corpo

O corpo

Do cacimbo embriagado

Na tua mão

A enxada da poesia

E o medo toma conta de nós

Não percebo os segredos proibidos

Das clarabóias do infinito

Vejo no teu corpo

A lua recheada de poeira

Ao centro

Sobre a mesa

O teu corpo

Despido das pétalas em cartolina colorida

A sombra do teu cabelo deitada na almofada

O primeiro beijo antes da primeira palavra

(O amor é uma lâmina de pedra

Cravada no coração

É o pedestal sem estátua

O amor é a lágrima da solidão

Descendo docemente o teu corpo

Enrola-se nos teus seios

Poisa pausadamente nas tuas coxas

E dorme no teu ventre)

A primeira palavra

Antes do primeiro orgasmo

A sílaba no teu primeiro poema

Escrito no meu corpo

Ensanguentado de veludo

E de fotografias de mortos

Aleatoriamente dormindo na montanha da melancolia

A ardósia tarde partindo em direcção ao mar

Leva-te

Leva-te como são levadas todas as manhãs da minha secretária

O teu corpo

No meu corpo

Invisíveis marés de espuma

O sémen desenhando círculos no teu olhar

E dizem-nos que o impossível

É possível

É comestível

E no entanto

O amor é uma lâmina de pedra

Cravada no coração…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 18 de Abril de 2015

As labaredas da insónia

Francisco Luís Fontinha 9 Abr 15

A ferocidade do teu corpo

O destino mal calculado

O erro equacional dos orgasmos invisíveis

Sofrimento

Meu amor

Subir as escadas

Chorar

No corredor

Sentar-me na sombra dos cabelos

Perdidos

Nunca mais voltarão a brincar no silêncio

Os teus beijos

 

Embrulhados na clandestina manhã

O sofrimento

Meu amor

Os corredores

Um… um horror

Marés de líquido

Nas tuas veias

Rios

Mares

Salgados barcos

Nos sonhos do teu sonho

Navegar

 

O sofrimento

Meu amor

Navegar nas sílabas da tua boca

Quando caí a noite sobre Lisboa

Os anzóis do sofrimento

Sofrimento

Meu

Amor

Navegar nas tuas nádegas

O comboio escondido entre as urbes embalsamadas

Não me vou perder

Juro

 

Meu amor

Os jornais empilhados junto à lareira

O som melódico do poema

Deitando-se nas labaredas da insónia

Sabes

Meu

Amor

Amanhã serei um vagabundo

Um triste cadáver

Sem palavras

Mudo

Sem braços nem canetas

 

Fujo das tuas garras lunares

Porque sei que amanhã

Meu amor

O poema terá morrido de overdose

Os triângulos das tardes

Na ceara dos lírios

Não quero

Meu amor

Caminhar sobre esta eira de luz

E ouvir

Ao longe

O sino

 

Vê tu

Meu amor

Ao longe

O sino

Vagueando no teu púbis…

Quero o retracto do teu corpo em vinil

Tatuado com Wordsong…

Tento ouvir as arestas da geometria

E da tua pele

O endereço do paraíso…

Em shots

E shots.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 9 de Abril de 2015

Crianças de luz

Francisco Luís Fontinha 28 Fev 15

Não penso

não imagino as palavras semeadas nos relvados da saudade

não penso

não durmo

acreditando nas marés de vidro

descendo da montanha

imagino...

riscos suspensos na alvorada

crianças de luz gritando pela liberdade

e nada

nem ninguém

nas ruas desta cidade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 28 de Fevereiro de 2015

as ruas húmidas do desejo

Francisco Luís Fontinha 24 Fev 15

Desenho_A1_056.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

quando as palavras semeadas no papel envelhecido

morrem

aquele que as escreve

despede-se

entre lágrimas e falsos sorrisos

um desenho insignificante

poisa docemente no vulcão da madrugada

sem mágoa

ou... ou paixão

abraça-se à noite dos tristes aconchegos

grita pelos sonhos

e... e em vão...

 

percebe que a vida é um triângulo de luz

voando nas ruas húmidas do desejo

tenho medo do silêncio

e do cansaço dos dias junto ao rio...

aquele que as escreve

despede-se

e parece um vadio

esmiuçando ossos e cigarros

ou... ou talvez não...

porque tem no corpo um vazio

um buraco negro recheado de insónias e imagens sem nome

como têm os pássaros nos prismas imaginados por uma árvore doente...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2015

 

Corpos de Luz

Francisco Luís Fontinha 11 Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Esse teu corpo de luz

algures no espaço da solidão

ouvindo as lágrimas sem nome

que anoitecem na minha mão

esse teu corpo de vulcão

descendo a montanha do vento

depois... alicerça-se nas árvores negras da tua boca

sílabas estonteantes

e loucas

na ardósia tarde da melancolia

a eira em ferida

o trigo em chamas

salivadas pelo silêncio das palavras

e das vergonhosas gaivotas sem asas

esse teu corpo de luz

dançando na alvorada meus lábios

demoradamente sós...

perdidas

esquecidas

mortas...

como todos os corpos de luz

como todas as palavras...

murmuradas

… e amadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 11 de Janeiro de 2015

Esta noite

Francisco Luís Fontinha 10 Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Esta noite desconhecida

quando há palavras que se entranham no meu peito

estas veias onde correm avenidas

e gajos sem jeito

e néones travestidos de solidão

esta noite

a tua noite

sem janelas

sem... sem entardecer

e no entanto

sou laminado pelos teus lábios

incandescentes

 

a arder...

 

esta noite

vou voar no teu silêncio

(se ainda existir em ti silêncio)

caminhar na neblina

como se eu fosse um fio de luz

em translação

as cinco primeiras pedras do amanhecer

cinco apenas

nas palavras estonteantes

mergulhadas em cubos de gelo

e...

e... cabanas de porcelana.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 10 de Janeiro de 2015

A prisão do “Adeus”

Francisco Luís Fontinha 11 Dez 14

Na prisão do “Adeus”

velhas flores são torturadas pelo silêncio da luz,

não existem janelas, não existe uma porta,

frestas,

ou... ou literatura,

lá fora, na rua,

ouvem-se os gritos dos pássaros e das abelhas,

há um subscrito negro onde alguém escreveu...

“para a morte”

as velhas flores não precisam de saber qual é o significado da morte,

elas são velhas flores torturadas...

pelo silêncio da luz,

(e a morte é o anoitecer de cheiros e sons

que só as velhas flores conseguem desenhar

nas húmidas paredes da prisão do “Adeus”)

na prisão do “Adeus”

velhas flores são torturadas pelo silêncio da luz,

não existem janelas, não existe uma porta,

frestas,

ou pedaço de areia com sabor a mar...

e as grades de ferro transformam-se em madrugada vestida de branco.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014

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