Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Ago 15

desenho_07_08_2015.png

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

Sinto-me um abutre sem dono

Margaridas, meu amor, margaridas no teu corpo,

Margaridas em sono,

Em flor,

Em dor,

Sinto-me um transeunte vestido de negro,

Confundindo-me com a noite,

Quando a noite era apenas um desenho incógnito,

 

Sou a luz da escuridão iluminada,

Margaridas, meu amor,

Margaridas na esplanada,

Margaridas sem nada…

 

Oiço a tua voz envergonhada,

Sinto o teu corpo recheado de amendoeiras,

Margaridas, meu amor,

Margaridas… margaridas entranhadas nas videiras,

 

Quando tínhamos as janelas encerradas,

Não existiam madrugadas,

Margaridas, meu amor, margaridas roubadas,

 

Margaridas em ti assassinadas.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 7 de Agosto de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 02:45

12
Jan 13

Os homens sonoros, que de casa em casa, que, que de jardim em jardim, arbitrariamente prendiam as inocentes palavras que um louco com asas de vidro e olheiras gelatinosas, escrevia nas paredes transparentes dos pilares de areia, morreram, desapareceram nas veias lilases das pétalas em flor, morreram, evadiram-se com éguas em cio correndo sobre o verdejante pasto, húmido, sombrio, os homens, sonoros, que de casa a casa, porta a porta, impingiam rádios a pilhas, lanternas pornográficas, revistas com gajas nuas, que ele vendia num quiosque junto à rotunda das margaridas (flor) envenenadas pelo tesão da chuva esfomeada

Comprávamos três revistas, religiosamente encerradas dentro de um saco plástico, por vinte e cinco escudos,

Da chuva esfomeada vêm-se as estrelas de prata que cobrem o tecto da aldeia com sabor a laranja de S. Mamede de Ribatua, laranja saborosa, conhecida mundialmente, bonita, a moça, da chuva

Dávamos-lhe os vinte e cinco escudos com direitos adquiridos, uma voltinha às revistas, e posteriormente

Revendidas separadamente, aprendi que comprando um maço de cigarros e vender os cigarros a avulso podia ganhar alguns escudos, não muitos, alguns, economia paralela, entre os carris do comboio com destino a Santa Apolónia, e derretiam-se os corações de açúcar quando olhávamos o Tejo vestido de pérola-mármore à porta do Texas em Cais do Sodré,

Até,

Até que

Comprávamos três revistas, religiosamente encerradas dentro de um saco plástico, por vinte e cinco escudos,

Da chuva esfomeada vêm-se as estrelas de prata que cobrem o tecto da aldeia com sabor a laranja de S. Mamede de Ribatua, laranja saborosa, conhecida mundialmente, bonita, a moça, da chuva

As farpas zangadas das moças enfeitadas com os ramos de amêndoa e chocolate, doces elas, as margaridas envenenadas pelo tesão da chuva esfomeada, uma resma de cartas de amor alicerçadas ao fantasma das Índias com um lacinho de cetim no pescoço esguio da jovem escritora do amor complexo das revistas pornográficas, lindas elas, não as revistas, mas, quando abríamos as janelas do compartimento onde nos escondíamos, ouviam-se, ouviam-se pedaços de areia nas mãos dos pássaros de pedra doirada, que o sol incendiava no final da tarde, até que

Até

Comprávamos três revistas, religiosamente encerradas dentro de um saco plástico, por vinte e cinco escudos,

Até que o destino entrava em nós, despíamos-nos em frente a um espelho de saliva com floreados de zinco, ela sorria, eu sorria, os velhos altares com crucifixos de prata, também, também sorriam, e eu acreditava que o amor era como as flores do jardim do quintal de Luanda, e eu pensava, pensava que

Até que,

Até

Que o amor era como os papagaios de papel que construí e depois incendiava no compartimento de sombra que em cada mangueira se erguia, até que

Desaparecia o Sol,

Até que

Desaparecia o vento,

Até que, desaparecer ao invés dos inocentes dentes de marfim do crocodilo de madeira que ainda hoje dorme sobre a mesa da sala de estar, sentado, deitado, e em noites de geada

Embrulho-me nas fotografias a preto e branco com sabor a Luanda,

Até que

Desaparecia o mar onde viviam as meninas das tranças loiras de arame prateado, descia a noite e vinham-se as estrelas de prata que cobrem o tecto da aldeia com sabor a laranja de S. Mamede de Ribatua, laranja saborosa, conhecida mundialmente, bonita, a moça, da chuva

Dávamos-lhe os vinte e cinco escudos com direitos adquiridos, uma voltinha às revistas, e posteriormente um dos homens sonoros desligava a luz dos sonhos,

Terminávamos sentados sobre um fénix remoinho de terra queimada depois das chuvas envergonhadas pela sal-gema moça de coxas emagrecidas pela fome estrelar, depois os outros homens sonoros pegavam numa enxada pintada pelo suor dos homens não sonoros que por medo apenas respondiam sibilante sim, sibilante não, sibilante não sabemos, sibilante talvez covardemente

Até que,

Até que o destino entrava em nós, despíamos-nos em frente a um espelho de saliva com floreados de zinco, ela sorria, eu sorria, os velhos altares com crucifixos de prata, também, também sorriam, e eu acreditava que o amor era como as flores do jardim do quintal de Luanda, e sibilante não

Às coisas horríveis que o amor deixa ficar sobre o esqueleto ambulante, de feira em feira, de mercado

Ao mercado das aves tricolores,

Que de mercado em mercado, desliga a luz dos sonhos.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:48

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