Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

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Jul 11

A luz emagrecida da manhã,

No quintal o pessegueiro em queixumes silenciosos, a dor nos ossos, as mão amarrotadas na tarde, os olhos pregados à janela do quarto, do quintal as silabas amortecidas do pessegueiro envelhecido, poisam-lhe os pássaros e os ossos em ais e ais, e os pássaros fogem, batem as asas como borboletas no decorrer das horas,

- Vai tomar estas drageias e a promessa milagrosa para os ossos do pessegueiro, o doutor sofrimento em gatafunhos no receituário,

Ais e ais, rangem como trovões no fim da tarde as sombras esquecidas no quintal, as pombas enjoadas dos pedacinhos de migalhas da toalha do almoço, e o cão, o cão na sesta imperfeita do corpo amachucado pelas raízes dos arbustos,

- Tês por dia e fica como novo, o doutor sofrimento a assinar o receituário, e do estetoscópio a voz do pessegueiro em queixumes, ais e ais, e no corredor os passos das mangueiras que fogem do cordel que suspende o papagaio de papel da criança,

O quintal cerra os olhos, e o pessegueiro em apalpadelas ao muro de vedação, o betão envelhecido, e da pele incendiada pelo sol as feridas da argamassa fendida, os dentes presos ao arame de aço, e cão aos gritos a querer sair do sonho, as árvores em fila correm o passeio onde brinca um triciclo de madeira, eu vou em auxilio da criança que de baraços cruzados olha indiferente o papagaio de papel amarrado às mãos da árvore, a criança chora, o chapelhudo chora, o portão geme silêncios,

- Não se esqueça três por dia e se for preciso telefone-me, o doutor sofrimento escreve o número de telefone, o pessegueiro a tentar decifrar os algarismos, e não percebo se é 936 ou 935, olho de soslaio e fico com a certeza que é 934,

O chapelhudo? Pergunto eu ao miúdo de calções e sandálias de couro, e ele explica-me que chapelhudo,

- Chapelhudo é um boneco!, e não se esqueça se for preciso, então até amanhã senhor doutor, e o pessegueiro agarrado à maçaneta da porta,

Não sabia que era um boneco, pensava que o chapelhudo fosse um boné ou algo no género, o pessegueiro olha-me e estica-me a mão,

- Estes miúdos têm uma imaginação, quem diria, quem diria que o chapelhudo é um boneco, segredo eu ao pessegueiro,

O pessegueiro indiferente e ausente e dormente e perdidamente esquecido no quintal e do miúdo e do chapelhudo e do triciclo, e diz-me que já lhe custa aguentar com o peso dos pássaros durante a noite,

- E se fossem só os pássaros, continuava o pessegueiro, às vezes ainda tenho de aguentar com as pedradas desse miúdo horrível que me inerva, mas, mas gosto dele, Trazes-me um copo com água?, diz-me ele, deve estar na hora de tomar a primeira drageia,

O pessegueiro meses depois  morreu, o triciclo e o chapelhudo e as mangueiras ficaram no quintal em Luanda, o miúdo cresceu e hoje, hoje conta histórias nas ruas da cidade, no fim da tarde senta-se junto ao tejo, e conversa com o pessegueiro, e conversa com o triciclo, e conversa com as mangueiras, e conversa com o portão de entrada, e conversa com o chapelhudo, deixou de ver o cão, e às vezes pergunta-se, muitas vezes pergunto-me e lamento-me,

- Estranho!, nunca mais vi o meu papagaio de papel preso nas mãos da árvore, e o cigarro extingue-se na noite, e a luz do candeeiro apaga-se,

E a noite entra nos meus sonhos.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:47

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