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Cachimbo de Água

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Gladíolos de papel

Francisco Luís Fontinha 28 Jun 14

Já não há pássaros azuis,

deixaram de existir corações para amar,

já não há palavras de escrever,

aquelas que se escreviam num corpo transatlântico e com olhos de chover,

não há, morreram os gladíolos de papel,

morreram os beijos com odor a mar...

já não há cidades clandestinas,

vestidas de meninas, mimadas, amadas... meninas... com lábios de mel.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 28 de Junho de 2014

Flautas de mel

Francisco Luís Fontinha 13 Jan 13

Tenho pena que os caminhos que ao alvorecer cruzávamos, hoje, estejam moribundos como as nuvens azul-cansado que sobre o peito nu da melancolia amanhecer desperta num relógio longínquo, abstracto com roldanas e rodas-dentadas, com uma boca fechada, como as janelas que dormem nos prédios desabitados, sem luzes, sem portas, nem crianças a brincar, tenho pena

Este vazio sincero que as pálpebras escuras da noite deixam ficar nas mãos de que a trabalha, a ela, a terra prometida, e dizia ele que a terra é de quem a trabalha, mas o dito fruto, mas o fruto pertence

A quem o colhe, nem mais, tenho pena das tuas sílabas suspensas nos teus lábios de areia branca, tenho pena das malditas luzes e das rodas-dentas esquecidas na mesinha-de-cabeceira, e à tardinha, dizia-te simplesmente

Vou-me

Desistir de caminhar nas pedras falsas das calçadas vulvas que todos os cadáveres deixam adormecer antes de morrerem, canso-me, despeço-me, demito-me, mas nada melhor do que deitar-me sobre um rio doente, e nada melhor do que levitar como os cavalos do velho cigano, ouviam-se os sons silenciosos das abelhas e das flautas de mel, e eles,

Subiam, desciam, e vias-me

E eles levitavam como pássaros negros antes de caírem os muros de madeira que os anjos de asas verdes construíram nas searas alheias, via-se a reforma agrária, e quando lhe perguntavam

Se tivesses duas casas davas uma? Ele respondia que sim, Dava sim senhor,

Se tivesses dois carros davas um? Ele respondia que sim, Dava sim senhor,

E se tivesses duas galinhas, davas uma? Ele furioso respondia que não, não dou, e quando lhe perguntava porque não dava uma das galinhas visto ele ter duas, simplesmente respondia

Porque só tenho duas...

Subiam, desciam, e vias-me

E vias-me partir de barco debaixo do braço, chapéu na cabeça, e com as sandálias na outra mão por causa da areia, não a reia dos teus lábios, mas a areia fina e fútil da praia, pousava as sandálias, despia-me e colocava a roupa sobre elas, estava nu, e quando tinha o barco em posição para a partida, entrava, sentava-me, sorria ao olhar os restos mortais que tinham sobejado de mim

As sandálias, os calções, e um ou outro parafuso que à partida eu achava que não seriam necessários, e se o fossem, paciência, depois de estar em alto mar, nada a fazer, nada, a não ser, mergulhar profundamente nos oleados maciços das marés aldrabadas pela voz de um solitário, coitadinho, coitados

Dos satélites vestidos de mulher às voltas de um planeta a que toda a gente apelidava de árvore fantasma, esqueleto vagabundo, sentinela sonâmbulo das noite embriagadas com óleo vegetal e sardinhas de conserva, Vou-me a ela

Coitadinho dos coitados plásticos da marmita onde os restos de comida serviam para alimentar um regimento inteiro, muitos, entre a Calçada e os Jardins junto ao rio, os automóveis estacionavam-se e abriam-se as portas de porcelana das bonecas das meninas

Vou-me a ela

A quem o colhe, nem mais, tenho pena das tuas sílabas suspensas nos teus lábios de areia branca, tenho pena das malditas luzes e das rodas-dentas esquecidas na mesinha-de-cabeceira, e à tardinha, dizia-te simplesmente que as meninas eram falsas, nunca existiram, e tal como as bonecas de porcelana e os automóveis de cerâmica, e tal como as meninas e os meninos da Calçada

Vou-me

Adormeciam como os fósforos cansados dos finais de tarde, quando entravas em casa de barco debaixo do braço e dizias-me

Olá amor, regressei,

E eu sabia que tu não regressavas, e eu sabia que continuavas em alto mar à procuras das coisas impossíveis,

Olá amor, regressei,

Atiravas os chinelos para debaixo do sofá, poisavas o barco em cima da mesinha da sala de visitas, despias a camisola e os calções, e mergulhavas nos lençóis de seda da nossa montanha de Primaveras nocturnas que o mar desenhava nas estrelas dos meus seios de papel mata-borrão, e eu via a caneta de tinta permanente em lágrimas azul-cansado que nas moribundas nuvens espetavam no peito nu da melancolia noite,

Olá amor, regressei

Às sandálias, aos calções, e um ou outro parafuso que à partida eu achava que não seriam necessários, e se o fossem, paciência, depois de estar em alto mar, nada a fazer, nada, a não ser, mergulhar profundamente nos oleados maciços das marés aldrabadas pela voz de um solitário, coitadinho, coitados

Amor

Olá regressei,

E eu sabia que tu não regressavas.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

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