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Cachimbo de Água

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Sonâmbulo das cavernas

Francisco Luís Fontinha 24 Mar 18

Esta melancolia, aprisionada na tua mão, meu amor,

Esta triste despedida,

Na calçada sofrida,

Quando o beijo esvoaça na fogueira prometida.

O sangue frio do massacre, lá longe, na sanzala, os perdidos cabelos de Primavera,

Quando a fala,

Quando o silêncio do teu sorriso,

Perde o juízo,

Sonâmbulo das cavernas, no limiar da pobreza,

A bela,

A bala na cabeça de um canhão,

E tu, meu amor,

E tu meu amor procurando a sombra do coração,

Desisto.

Insisto,

Desisto da tua fotografia esbranquiçada,

Na sala malvada,

Insisto no pôr-do-sol ao final da tarde,

Saio de casa,

Procuro-te no arrozal,

E finjo ser um poeta, e finjo ser a fogueira que arde…

Sobre ti, meu amor, sobre ti.

O miúdo com a fralda de fora,

Da praia regressa o secreto amor,

Aqui mora,

Habita a mais bela flor,

Que o meu quintal acolhe,

A sede,

O molhe,

As rochas envenenadas pela madrugada,

Sofre, descansa, abraço-te minha amada,

Que toda a vida teve.

Eu vi, quando acordei,

A esplanada do amanhecer,

Sabes, meu amor,

Chorei,

Cansei da vida sem prazer,

Respirar,

E morrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Março de 2018

O vento que passa

Francisco Luís Fontinha 28 Abr 16

O vento que passa

E leva com ele a madrugada

O peso das árvores sobre o sorriso da solidão

Um livro assa

Na fogueira do teu coração

Quando a manhã acorda cansada,

 

O vento que passa

E traz a mim a insónia dos corredores

Preciso de espaço para saborear o beijo

E libertar-me da maça

Que lapida os meus ossos como flores

E me leva o desejo,

 

O vento que passa

E transforma a liberdade em melancolia

O sorriso da fera acorrentada

E se enlaça

No acordar do dia

Como uma montanha apressada…

 

Francisco Luís Fontinha

quinta-feira, 28 de Abril de 2016

Tristes dias

Francisco Luís Fontinha 19 Mar 16

São tristes os dias sem ti

Que a noite alimenta

Sem saber que a solidão existe

E mente como mentem todos os relógios…

Que o meu pulso abraçou,

São tristes as madrugadas

Sem os teus gemidos

E sofrimento,

São tristes os dias sem ti

Que a noite lamenta

E descobre em cada sombra

O abraço passageiro da melancolia…

São tristes

Os dias…

Sem ti

Enquanto dormem as tuas mãos no meu rosto…

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 19 de Março de 2016

Um corpo sem corpo

Francisco Luís Fontinha 6 Mai 15

Terá Deus incumbido à palavra

Para me atormentar

A qualquer hora

Do dia

Da noite

Na esperança…

 

Saberá Deus o significado

Da derrota

E da tristeza?

 

A maldita noite

Que cresce nos subúrbios do silêncio

E se alimenta de uma cidade em ruínas

O livro não escrito

Na prateleira do sofrimento

E sem beleza

Sem… sem desenhos do cansaço

Estampados no rosto

Em pergaminhos beijos

E da tristeza

Da derrota

Quando vem a tempestade,

 

E o mar se deita

Na melódica cidade

Sem o saber

Troca abraços

Por sombras

E sombras

Por uma viagem

Anónima,

 

Sem

Regresso

Nunca

Porque nunca habitará um corpo no meu corpo sem corpo.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 6 de Maio de 2015

Tortura

Francisco Luís Fontinha 20 Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O peso do sono quando a noite se suicida no olhar das palavras,

a metáfora inventada

que as imagens alicerçam à construção da fantasia,

regressar... nunca,

o peso do sono suspenso nos oiros plátanos da ínfima melancolia,

o sono morre como morrem as ervas daninhas das minhas veias,

em silêncio,

o peso do sono voando sobre as esplanadas de vidro,

o cansaço das fotografias entre quatro paredes de xisto,

cintilam as calamidades do infinito orgasmo de papel...

e ninguém percebe que na tua mão...

que na tua mão habitam os finíssimos cabelos do poema,

o corpo vacila no pêndulo da saudade como um círculo de luz,

esquecido nas masmorras da infância,

o peso do sono mensurável nas avenidas acabadas de projectar,

sem automóveis para conversar,

pessoas,

sombras...

casas em sonolência despedida,

eu,

transeunte iluminado pelos vapores de iodo,

mergulhado em vulcões de alegria

e... e alguns pedaços de fogo,

e o peso do sono em constante tortura... quando me visto de noite inseminada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Gaivota clandestina

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 14

Percebo a insónia tua quando abres a janela do desejo, e voas, e evaporas-te como uma gaivota clandestina, sem nome, apenas... só,

percebo nos teus olhos a tristeza das tuas lágrimas, livres como a Primavera, e voas, e só...

sinto em ti o cansaço do corpo que espera o clarear da madrugada,

oiço a tua voz de cristal... e sei, e sei que habitas na minha mão,

escrevo no teu rosto as palavras não escritas, as palavras invisíveis... e só, só...

percebo que na tua voz existe melancolia, amargura, livros, livros em pedaços de lume,

percebo que há pétalas coloridas, e que há outras tão negras, negras... tão negras como a noite,

tão negras como os teus cabelos em silêncio... e só, e só, que tudo percebo.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 1 de Abril de 2014

Janela de esqueletos

Francisco Luís Fontinha 12 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Parecemos esplanadas de vento correndo nos algerozes das montanhas abandonadas,

penso se não existirá dentro de nós a melancolia dos barcos apodrecidos, como ossos molhados, como corpos cansados, como eu, e como tu, dois ventres desventrados, amorfos, humildes como sanzalas de granito, vadios...

parecemos dois loucos escondidos na sombra da madrugada ainda não nascida,

perdidos nas palavras ainda por escrever...

olhamos as estrelas que deixaram de brilhar,

comemos o pão como quem come a sombra de uma árvore...

indolor, infestados de giz depois do recreio escolar,

tu, e eu, debaixo de um busto sem nome,

 

Correndo, brincando... enganando a fome...

correndo, correndo calçada abaixo, até que acordava o dia, até que da tua bocas eu sentia a tristeza dos perdidos calendários de Fevereiro,

o medo,

o medo das clandestinas vozes da escuridão,

e no entanto,

sem o sabermos,

inventávamos estórias de adormecer,

sem o sabermos... estávamos mortos numa janela de esqueletos.

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 12 de Fevereiro de 2014

Querida melancolia tarde de Domingo

Francisco Luís Fontinha 26 Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Estás tão triste querida melancolia tarde de Domingo

o vento levanta-se dos teus anseios cabelos

como o mar se acorrenta nos teus abraços

dos belos castanhos beijos

e os medos vaiados pelos poemas teus olhos

que alimentam a tua boca em desejo,

 

Tão tristes as paredes ruínas que encobrem as tuas melodiosas canções de amar

sabendo tu que o amor é um Sábado disperso e cansado

comendo amêndoas recheadas com chocolate e pequenos versos

e grandes nadas

tão triste querida palavra que não sou capaz de pronunciar...

porque hoje é Domingo,

 

Porque hoje é melancolia adormecida

luz em pequenas lâminas de silêncio

sobejantes janelas sem os cortinados do dia...

uma ardósia encolhe-se-te no centro dos teus seios

e todas as palavras de amor

choram como crianças arrependidas...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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