Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

15
Jan 15

Pintura_61_A1_Nova.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

A mentira dos homens

mergulhada na falsa memória,

a solidão das palavras,

escritas e semeadas,

nos longínquos corredores da insónia,

o imperfeito corpo do espelho que alimenta a paixão...

em pedaços,

tão pequeninos... como grãos de areia em pleno voo matinal,

as telas amordaçadas que habitam a minha casa, ardem,

sinto o fumo de néon quando pego numa caneta,

tenho uma carta para escrever...

mas,

 

mas mergulho na falsa memória,

sem destinatário,

sem remetente...

tão sós...

o subscrito,

e a folha de papel oferecida por um pindérico pássaro de cigarro nos lábios...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:18

22
Jun 11

Semeiam-se palavras na água do cachimbo,

Brincam sílabas e vogais no fumo do cachimbo. Dizem-me as nuvens que no mar a revolução dos peixes, e no céu, no céu a indiferença dos pássaros, e o vento deixou de soprar,

- Deixem-me em paz, não, não quero saber disso,

Os peixes em revolução, e depois?, os pássaros indiferentes, e depois?, és tão parvo diz-me ela, és tão parvo em semear palavras na água do cachimbo, diluem-se como vento nas searas da minha aldeia, do sino de Carvalhais vem a pontualidade das horas que me irritam, ele a matar o tempo e as pedras aos poucos contra o alvo do canastro, as espigas de milho do ano passado gemem entre as ripas de madeira, a luz roda o corpinho e atravessa as frestas, e nos espaços vazios o sorriso de uma gaivota,

- E o vento deixou de soprar, e a culpa é minha?, deixem-me em paz…

De uma gaivota as asas bordadas com pétalas de rosa, pai, sim filho responde ele pensativamente, porque choram os plátanos, os plátanos?, não, estás a brincar, os plátanos não choram, os peixes não se revoltam e os pássaros, que têm os pássaros pai, os pássaros não indiferentes, e os pássaros e o vento de mãos dadas junto à ribeira, pai, sim filho, mas tu disseste que o vento deixou de soprar, sim disse estava a brincar,

- Carvalhais longe de mim, a eira começa a adormecer e as amarras que prendem o canastro a Favarrel começam a encolher na sombra da noite,

Pai, sim filho, S. Pedro do Sul é tão lindo, sim filho é, olha, sim pai, e tem os Fingertips, e o rio leva-me ao rio, e vou levar-te onde o avô Domingos me levou, onde pai, ao Castro da Cárcoda, onde o silêncio se pinta de branco e os cigarros parecem andorinhas junto ao mar,

. Semeiam-se palavras na água do cachimbo, brincam sílabas e vogais no fumo do cachimbo, e o cachimbo sentado à minha esquerda, o cachimbo impaciente por mim,

Semeio palavras na terra arada do cachimbo, encosto-me à enxada e olho o mar, e Luanda nunca tão perto de mim, e vejo o meu corpo dentro de um quadrado imaginário, e em cada vértice um bocadinho de mim, em cada vértice, Luanda, Alijó, S. Pedro do Sul e Lisboa,

- Deixem-me em paz, não, não quero saber disso.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:19

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