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Cachimbo de Água

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Os cigarros “fodidos”…

Francisco Luís Fontinha 12 Set 15

desenho_13_09_2015.jpg

(Francisco Luis Fontinha – Setembro/2015)

 

Há uma invisível incógnita

Na equação da paixão,

Um silenciado olhar enforcado na minha boca,

O luar saciando-se nos meus lábios…

E tu… e tu gritando como uma louca,

 

Dessa maldita equação

Sobejaram as lâmpadas ofuscadas pelo cansaço,

Um brilho de noite agachada na calçada,

O homem da bangala tropeçando no abismo

Que acorrenta a madrugada,

 

Há uma invisível incógnita

Na minha desalojada mão,

Os ossos apodrecidos,

Em pó…

Em busca dos poemas mendigos,

 

Os amigos,

Ausentes deste papel quadriculado em brasa,

Os cigarros “fodidos”…

No cinzeiro roubado na Feira da Ladra,

E uma vez mais… em busca dos poemas mendigos,

 

Rasgados ventres nas amoreiras em flor,

Sabotando o corpo nas cordas do sofrimento,

Há uma invisível incógnita na equação da paixão…

Morta,

Alicerçada no meu coração.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 11 de Setembro de 2015

desenho garrido

Francisco Luís Fontinha 4 Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

vivo neste esconderijo

um cubo de vidro

no... lixo

não

não quero que me toques

me olhes...

não...........................

não quero existir

voar

ler

não

vivo neste cubo de vidro

 

adoro este esconderijo recheado de palavras

e

e de mendigos

 

o relógio não anda

a janela não se abre

nem fala comigo

há numa das paredes deste cubo de vidro...

tristeza

e... e o frio

 

um velho amigo

que me acompanha desde a infância

um desenho garrido

um espelho

neste cubo de vidro

não vivo

que vivo

sem perceber que o meu corpo é um esconderijo

 

de vidro.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 4 de Janeiro de 2015

Cigarros sem alma

Francisco Luís Fontinha 17 Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O biombo da saudade

que morre no teu ventre

o pensamento em pequenos voos

lentamente em direcção ao mar

rumo à cidade

do adeus...

o meu corpo sobre os carris do cansaço

tenho medo

tenho pena...

que este pobre poema

não consiga acordar a madrugada

que vive acorrentada,

 

há nas pálpebras do teu sorriso

fios de luz em decomposição

canções melódicas ensanguentadas pelo silêncio da tua voz...

… amarga

complexa

nesta triste matriz composta

neste triste cubo de vidro

com braços de papel...

o biombo da saudade

que morre no teu ventre

inventa-se

a cada segundo que o tempo come,

 

a rua incendeia-se

e todos os mendigos... não mendigos

e toda a fome... não fome

apenas as palavras sobrevivem aos teus encantos

e lamentos...

apenas as sombras nocturnas do adeus

conseguem trepar o muro da agonia

e resta este pobre poema

que um dia...

que um dia ressuscitará

das cinzas

como cigarros sem alma.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014

Estes versos e ossos

Francisco Luís Fontinha 1 Nov 14

Tristes versos

estes

barcos esfarrapados que se afundam nos teus olhos

carcaças de ossos

gente aos molhos...

tristes versos dos mendigos sem solução

habitantes de uma cidade em alvoroço

dia sem almoço

carcaças

ventos e marés em confusão

estes

versos

sem nome

estes

estes barcos enferrujados lapidando calçadas e transversais loucas

mulheres cansadas

mulheres acariciando a madrugada

tristes

versos

os corpos em migalhas

em direcção ao rio da amargura

tristes

tristes tardes de literatura

que alimentam os mendigos sem solução

estes

versos

e ossos

este vazio dentro do meu peito incendiado

embriagados livros cambaleando na atmosfera

os círculos do coração... em espera

estes nomes

versos

e crianças...

procurando as árvores da infância

tanto medo... meu Deus...

medo da esperança.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 1 de Novembro de 2014

A cidade dos mendigos

Francisco Luís Fontinha 10 Ago 14

Esta cidade de mendigos,

sem porto para aportar,

estes esqueletos vivos...

sem corpo para transportar,

esta nudez das árvores silenciosas,

que brincam na areia límpida dos cigarros de arder,

esta lua, este luar... esperando o amanhecer,

esta cidade de mendigos,

estes rochedos que servem de abrigos...

sem porto para aportar,

esta noite ventosa,

fria..., amarga... sem lábios para beijar,

 

Esta cidade moribunda,

quando o poeta espera o regresso do amor,

estas correntes de luz sem sabor...

que me aprisionam ao teu olhar,

este cansaço, estas montanhas de abraçar...

que se escondem nos teus seios de triste madrugada,

esta cidade,

esta cidade amaldiçoada...

vestida de rosa sem odor,

triste, febril... esta cidade imunda,

onde passeiam os peixes, e as algas... e os corações sem cor,

esta cidade, esta cidade que vive nas lâminas da saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 10 de Agosto de 2014

Malabarista de primeira classe... diplomado

Francisco Luís Fontinha 26 Jul 13

desenho de: Francisco Luís Fontinha

 

Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno

procuraste uma tela vazia

construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana

pintados à mão,

 

(Fui o que nunca quis ser

sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)

 

Desenhaste-me em murais que ultrapassavam os edifícios em ruína na cidade das gaivotas

sentei-me em ruas onde tudo se vendia

o corpo flores drogas álcool e amores

livros e papel de embrulho

desenhos e merdas sem sentido

porcarias vãs

vadias entre as pernas alicerçadas aos tambores de choque

envaidecias-te

eras nobre como um donzela puta de adorno...

e os jardins cansavam-se de ti como velhos sorrisos

sonâmbulos das ínfimas janelas

e entrava-nos na sala de jantar o enfeitiçado mar...

 

Um cheiro horrendo

barcos vomitando saliva esbranquiçada

lágrimas

e muitas estrelas

todas elas

embriagadas,

 

Desenhaste-me como se eu fosse um boneco de palha

um cabrão mal vestido

de fato

gravata

e sapato bicudo afiado reluzente como um espelho da feira popular...

chorudas mulheres de açúcar

dormindo em roulotes como gazelas em sexos murchos que os finos pinheiros de Carvalhais...

lançam

deixam ficar sobre a tua pele...

todas as palavras de adeus...

Adeus

Até nunca mais me desenhares nos murais das montanhas de aço,

 

Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno

procuraste uma tela vazia

construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana

pintados à mão,

 

(Fui o que nunca quis ser

sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)

 

Desenhares-me invisível

sem saberes quem sou

como penso

vivo

se tenho sonhos

consegues perceber os meus lamentos?

 

Fui tanta porcaria...

cavaleiro

donzela

prostituto

pintor

escritor

abelha tonta tonta como ela... ela tão bela...

e tudo porque me desenhaste nos murais das montanhas de aço,

 

E poeta não o sou

talvez o seja quando se apercebe em mim um silêncio de loucura

devaneio

os peneirentos pássaros que as arcadas do desassossego escondem

constroem e inventam insónias em papel como pobres flores de arremesso...

 

Desenhares-me em toda a porcaria livre

nas calçadas

nas ruas e ruelas

cansadas...

desenhas-me como se eu fosse um esqueleto de amêndoa

suspenso nas três horas da madrugada...

nas calçadas

ruas

e ruelas

sou

nunca o fui

desejo-o como se ele fosse um abutre de asas cinzentas,

 

Sou

fui nunca

poeta pintor escritor porque nunca deixei de o ser...

malabarista de primeira classe... diplomado.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Cabelos frios e secos

Francisco Luís Fontinha 25 Jul 13

desenho de: Francisco Luís Fontinha

 

Dirigi, atravessei fronteiras antes inultrapassáveis, subi muros, desci avenidas, ergui-me, caí, voltei a erguer-me e novamente caí, escrevia, riscava, rasgava... fazia arder a manhã misturada em pedaços de cacimbo e tecidos vagabundos, fui uma ilha, fui uma rocha, fui um longo cubo com lábios triangulares, fui seno, fui cosseno, vivi em união de facto com a tangente, fui amante, de noite, as clandestinas visitas à cotangente..., e do círculo trigonométrico..., nada restou, depois, da tempestade, nuvens, chuva entrando em nós, de ti, uma pedra mármore com a tua fotografia, diz lá

O quê?

Eterna saudade de nós..., de mim, em ti, dirigi, suicidei-me, atravessei antes inultrapassáveis ruas, hoje, escuras, ardósias como ninguém percebeu, que um dia qualquer, um dia, ao lado do café, um miúdo, miúdo com sandálias de couro, percebeu, percebi, que a morte entrava-nos, e levava-te como levou todas as árvores que dormiam sobre as nossas sombras, dilatavam-se as tuas pálpebras, dirigi, adormeci, acordei num jardim recheado de zínias, fui feliz, infeliz, fui feliz, fui agreste, montanha, passeio pedestre, fui

O quê?

Ratazanas

Dirigi, vivi sobrevoando canteiros e riachos, sobrevivi aos beijos assassinos dos guindastes de chumbo, naveguei, cruzei oceanos como se eu fosse uma leve e tranquila folha de alumínio com uma bolha castanha, andava, ia a cima, descia, vinha a baixo, sentava-me, despedia-me, levantava-me, erguia-me... e caía,

As ratazanas amigas, amigos, protestantes e mendigos, vivi, fui vivendo, dirigi e atravessei o teu corpo transparente embrulhado em jornais envelhecidos, tinhas rugas, usavas sapatos cambados, e fui aprendendo a ultrapassar, dirigi, fui roupeiro, cobertor, homem espantalho, fui há muito tempo

Palhaço,

O quê? O que têm as ratazanas?

Palhaços, cabelos de fino arame, fui trapezista, vendi pipocas, corri avenidas em tristes engates, fui ratazana, fui praia, areia, ou barco, fui aço, fui âncora, palhaço, circo, pedestal, dirigi, cansei-me de olhar o rio, cansei-me de colocar a minha pobre mão na salgada água, lembras-me o mar, o ébano eu?

O quê?

Tínhamos zínias, cheirava em nosso redor a Primavera embriagada, desconfiávamos que o amor tinha algures um ninho num dos ramos da árvore de papel do nosso quintal onde brincávamos em meninos, não dávamos importância alguma aos pêssegos, às laranjas, às roulotes com lentes de contacto, um parvalhão de fita métrica na mão assaltava transeunte, chovia, não sabíamos, eu desconfiava dos vidros das janelas da casa das ratazanas,

Eu? Não sabia...

Desconfiava apenas,

Ratazanas, zínias enraivecidas com dentes de marfim afiados, metadona desconfiada, sem dono e abandonada, tudo se vende, tudo se compra, o zinco em chapas, os telhados em vidro, as barracas

Quais barracas?

As casas, húmidas, vivendo-se dias desenhados sobre a areia molhada, vinha o vento... e nada, tudo desaparecia, tudo se deitava, dormia, dormiam as zínias, as ratazanas, a mulheres-a-dias e as concubinas..., o quê? Eu? Não o sei... como o poderia saber,

Que horas são, hoje, mulher do mar, de mar, ao mar,

Desculpa?

Que horas são, mulher-a-dias, veleiro carrancudo, com velas de assobio, o circo, as tuas mãos desprezíveis, íngremes como as calçadas nocturnas das cidades escuras, desculpa...

Feldspato?

Não o sei, pergunta ao gerente da barraca, talvez ele saiba...

Gosto, não gosto... pelas dúvidas... deixo-te um like sobre as sobrancelhas, e

Dirigi e caí,

Me levantei, voltei a cair, e caí, me ergui, e me pendurei no teu pescoço de galinha envenenada, serpente, crocodilo, em madeira, em bom estado, vende-se dentadura postiça, primeira mão, em prestações, trinta e seis suaves, como lírios, como zínias, cachorros e cadelas e trapezistas e palhaços e trompetes de aço, me levantei, eu, e para quê?

Me sentei em ti, dormi, envelheci, e quando acordei, tu, vestida de mar..., me seduzi, me engatei nos laços transversais dos parafusos encalhados, fui, vou-me a ela, fui rua, donzela, fui... e nua, nua a tua doce madrugada.

Dirigi. Menti. Atravessei fronteiras antes inultrapassáveis, subi muros, desci avenidas, ergui-me, caí, voltei a erguer-me e novamente caí, escrevia, riscava, rasgava... tudo, tudo para nada.

(texto, ficção, vida, desenho, arte, zínias, jardins, amor, Primavera, tudo, e nada, pouca coisa, desenvergonhada, ela, paixão de areia, homens de vidro, cabelos frios e secos, mendigos).

 

(não revisto – quase ficção)

@Francisco Luís Fontinha

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