Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

23
Mar 14

Recomeço, esqueço-me que estou vivo, oiço na TV um grupo de Jazz, deslumbrante para um Sábado sem memória, escrevo sem saber porque o faço, talvez recorde os teus beijos, talvez recorde a tua ausência, talvez viva sem o saber,

Que estou vivo,

Permaneço inconstante, finjo ser uma equação diferencial sem solução, pego numa integral tripla e acaricio os teus lábios de garra madrugada, e amanhã sobejam palavras escritas por mim na tua degradante janela, o velho Augusto pega no cigarro enrolado pela tristeza, amanhã não sei se estou vivo, amanhã não sei se estarás ao meu lado, amanhã sinto que tal como o título do Livro de Miguel Esteves Cardoso “O amor é Fodido” eu... eu estou fodido... tal como o amor, oiço o programa de jazz, imagino a tua pele rosada embainhada nos lençóis de uma cidade a que apelidaram de Lisboa, esqueço a poesia, tenho raiva da poesia, porque sou uma incógnita vestida de equação trigonométrica,

Que estou vivo,

Tenho medo que morras, porra... porque morrerás tu, porque escrevo sabendo que a inveja infesta as minhas palavras, os meus olhos, sei que existes dentro de um cubo de vidro, um aquário com barbatanas de papel, e lá fora regressam os corações de cintilantes pergaminhos com bordados e flores envelhecidas, percebo a tua dor, percebo que aos poucos te vou perder, e nada, nada consigo fazer para te resgatar do rio apelidado de medo, oiço-os, vejo-os na tua mão como se fossem pedras acabadas de nascer, que estou vivo? E amanhã o saberei,

A inveja dos outros quando as palavras crescem nos teus seios, a inveja de partires e não ser capaz de te procurar-te no Oceano mais longínquo das minhas veias argamassadas, via-te sentada numa esplada de vidro, sentia o pulsar do teu desejo quando abríamos um livros de AL Berto e líamos um dos mais belos poemas, depois... depois tínhamos o Pacheco e o magala travestido de poeta, eu, deambulando pela rua à procura do banco em madeira onde nos sentávamos, e... e pegava na tua mão, e escrevia no teu corpo, tantas e tantas... vezes em sentido, eu

Que estou vivo, que estou vivo sem o saber,

O uísque desaparece e entranha-se no gélido teu orgasmo, apaixonei-me pela escrita de António Lobo Antunes, cresci com Milan Kunera, e hoje, hoje apenas vivo finjindo que vivo, sou um cadáver em movimento curvíleneeo e uniformente acelerado, não sou Angolado, não sou Português... sinto-me apátrida como o destino, penso, não caminho, olho os jardins e sei que algures por lá andas escondida, talves te tivesses transfomado em arbusto, em saudade ou... ou em objecto de velharia na banca de uma qualquer feira, recomeço, esqueço-me que estou vivo, oiço na TV um grupo de Jazz, deslumbrante para um Sábado sem memória, escrevo sem saber porque o faço, talvez recorde os teus beijos, talvez recorde a tua ausência, talvez viva sem o saber,

Que estou vivo, que há pessoas prontas a assassinarem-me intelectualmente, mas eu, eu estou vacinado conta a inveja, mas eu, eu estou habituado a ser huminhado, e o velho Augusto perdido nos cigarros de enrolar, e eu perdido no gélido teu corpo de amendoeira, e, eu...

Que estou vivo, que estou vivo sem o saber,

Que amnhã existirá um amanhecer, que amanhã... amanhã sem o saber, tu, tu quererás pertencer às minhas palavras, porra... não podes morrer, não, não poedes,

Que estou vivo?

E uma âncora de desejo permanecerá no teu corpo...

 

 

(texto de ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 23 de Marvo de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 03:02

10
Jun 12

Milan Kundera e sua esposa Vera
publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:55

27
Abr 12

Sonhos impossíveis

amores risíveis (o livro dos amores risíveis, Milan Kundera)

palavras dispersas

no papel achatado pela solidão da manhã

sonhos parvos em cabeças parvas

letras

muitas letras e palavras

coisas sem nexo

sonhos

impossíveis

amores risíveis

sexta-feira sem sol

e chove

e coisas dentro de mim

e coisas...

… sonhos

 

sexta-feira

sem livros

sem letras

sem palavras

na algibeira

 

sonhos impossíveis

 

sem palavras

sem letras

 

amores risíveis

amantes complexos

em quartos caquécticos

 

coisas

muitas coisas

muitas coisas suspensas na parede

muitas coisas suspensas na parede da solidão

 

antes de terminar o dia.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:49

20
Jan 12

 

 

Meu querido Luiz Pacheco,

Literalmente estou fodido, desempregado e sem subsídio algum, esforço-me e não encontro trabalho, recorri ao rendimento social de inserção e foi indeferido, pedi a isenção de pagamento de taxa moderadora e quase de certeza também vai ser indeferido, já pensei ir limpar latrinas mas devido à crise duvido que ainda exista merda para limpar porque de tanto apertarem o cinto os portugueses aos poucos deixam de defecar,

Não comem pá,

Já pensei fazer como o teu mangala que passeava pelas ruas de Braga e fazer-me à vida nos jardins de Belém mas nem para isso tenho jeito, o meu amigo doutor psiquiatra receita-me injeções e tenho de pagar um euro para me picarem o rabo,

- Pede supositórios Pá… E ainda consolas o rabinho,

Isto é se for na data marcada porque se for fora do agendamento são quatro euros,

- Estás mesmo fodido Pá,

Pois estou Meu querido,

E pronto Não sei o que fazer à puta da vida, ainda tenho os teus livros para ler e do António Lobo Antunes e do Saramago e do Cesariny e do AL Berto e do Milan Kundera e do Proust e do Gogol e do Tolstoi e do Dostoevsky, isto é, reler, porque já os li mas tal como o melhoral que nem faz bem nem faz mal, certamente voltar a lê-los também

- Tens vinte paus Pá?,

Também a noite tem algo de silencioso quando vocês entram em mim e particularmente fico fodido quando o AL Berto diz que se gritar mar em voz alta o mar entra pela janela, e abro a puta janela e o caralho do mar onde está?,

Não comem pá,

De tanto apertarem o cinto deixaram de defecar,

- Tens vinte paus Pá?,

Paus já eram e agora só existem aéreos e até ao final do mês só tenho cinquenta e cinco cêntimos,

- Essa merda dá para quê Pá?,

Para nada,

- Então estás Literalmente fodido Pá.

 

(texto de inspiração pessoal e dedicado ao Grande Luiz Pacheco; Lisboa, 7 de Maio de 1925 – Montijo, 5 de Janeiro de 2008)

 

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:49

18
Jan 12

Sou um mendigo dos tempos modernos,

Culto e inteligente e prostituo-me intelectualmente, sento-me à mesa do café e converso de politica e converso de economia e que os mercados são uma merda e que se fodam todos, falo aos meus amigos de literatura e poesia e pintura, já fumei toda a merda que há para fumar e leio muito, e li também muita merda, e leio muito porque estupidamente o meu pai quando eu menino dizia-me que ler era muito importante, mas o meu pai esqueceu-se ou não previu a chegada do vinte e cinco de abril e que uma cambada se ia instalar pelas árvores dos jardins, meus deus, tantos macacos em tão poucas árvores, e assim atualmente não importa se li muito ou se tenho habilitações,

Importam as árvores,

Falo aos meus amigos de António Lobo Antunes, e meus deus, o que seria de mim sem os livros dele, falo aos meus amigos de Saramago Cesariny AL Berto Luís Pacheco Milan Kundera Proust Gogol Tolstoi Dostoevsky, falo aos meus amigos de literatura Cubana, e gosto e adoro, falo aos meus amigos do Big Bang e da partícula de deus e de hipercubos,

Mas continuo a ser um mendigo dos tempos modernos que pediu a isenção de taxa moderadora, um mendigo dos tempos modernos que depois da palestra tem direito a tomar café e água sem gás e um maço de cigarros, porque os meus amigos são porreiros, e é tão fácil ser prostituto intelectual,

Faço programas em folhas de cálculo e tive lições de estruturas, foi um prazer estudar aços e ligas metálicas e termodinâmica e física e matemática, mas o que eu gosto,

Mas o que eu gosto é de ser prostituto intelectual e falar aos meus amigos de literatura e falar aos meus amigos de poesia e falar aos meus amigos de pintura, escrevo umas merdas e pinto outras tantas, e leio

E leio muito,

E antes de me deitar olho-me ao espelho e do outro lado um filho da puta qualquer sorri-me e eu sorrio-lhe e pergunta-me E pergunta-me se sou feliz,

E que mais eu posso querer Respondo-lhe Eu tenho tudo,

E claro que sou feliz porque enquanto tiver livros do António Lobo Antunes para ler sou muito feliz,

Sou um mendigo dos tempos modernos, Culto e inteligente e prostituo-me intelectualmente, sento-me à mesa do café e converso de politica e converso de economia e que os mercados são uma merda e que se fodam todos,

Vou fazendo uns bicos (e o escritor alerta que bicos são pequenos trabalhos e não broches),

Tomo comprimidos para dormir receitados pelo meu amigo psiquiatra, porque sendo um mendigo profissional dos tempos modernos, tenho alguns amigos porreiros,

E vou fazendo uns bicos e confesso que sim,

Sou feliz,

Enquanto tiver livros de António Lobo Antunes para ler, muito feliz,

E que deus lhe dê muita saúde.

 

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:03

30
Ago 11

E que os dias se escondem nas sombras dos ponteiros de um relógio, desce suavemente o cortinado da noite, e no palco da vida começa o espetáculo, um texto inventado, personagens inventadas, cenários fictícios, e a vida resume-se a uma estória inventada, a vida enrolada nas manhãs junto ao abismo, um pássaro sorri, e no espetáculo da vida continua a chover, há nuvens, e a tempestade alicerça-se junto aos espetadores, tristes, impávidos, ausentes, e começa a noite,

 

Um poema é disparado contra a assistência, e sobre o palco, sobre o palco três cadeiras e uma mesa coxa, e numa das cadeiras está sentado Milan Kundera, sereno, e olha a assistência de frente, como em toda a sua vida, olhos nos olhos,

 

Recorda os tempos da antiga Checoslováquia, nascido em Brno, em 1929, e recorda, e de olhos nos olhos para a assistência recorda, quando foi demitido de professor no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, viu os seus livros proibidos, e o seu nome banido da lista telefónica, e acabaram por lhe vedar o acesso ao trabalho, e em 1975 fixa residência em França,

 

Da assistência alguém interrompe Milan Kundera, e o encenador da vida pega no copo de água poisado na mesa, mastiga os lábios e molha-os, e o espetador pergunta-lhe Como é possível ter isso acontecido?, Milan Kundera poisa o copo sobre a mesa, finca as mãos e responde-lhe É assim o palco da vida, meu amigo, é assim o palco da vida!,

 

E que os dias se escondem nas sombras dos ponteiros de um relógio, desce suavemente o cortinado da noite, e no palco da vida começa o espetáculo, um texto inventado, personagens inventadas, cenários fictícios, e nada é real, os atores que se deitam sobre a seara de trigo junto ao mar, o texto é folheado por um aprendiz de feiticeiro, e todas as personagens, e todas as personagens são engolidas pelo cansaço da maré,

 

O público aplaude, o público quer mais,

 

E o encenador da vida com as lágrimas nos olhos vê o seu rosto no espelho pendurado na parede do camarim, e pergunta-me, e pergunta-se, Terá valido a pena?, e puxo de um cigarro, e acendo-o, e quando o poiso sobre o cinzeiro, respondo-lhe Amigo, tudo na vida vale a pena…

 

E a vida resume-se a uma estória inventada, a vida enrolada nas manhãs junto ao abismo, um pássaro sorri, e no espetáculo da vida continua a chover, há nuvens, e a tempestade alicerça-se junto aos espetadores, tristes, impávidos, ausentes, e começa a noite,

 

Apagam-se as luzes do teatro da vida e o encenador adormece.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:57

27
Ago 11

 

Decididamente este é o nosso quarto, porque eu, eu o desejo, e tu, tu o queres, simples, muito simples, e nada de luxos, porque eu e tu não gostamos de luxos, porque eu e tu somos simples, e talvez neste quarto faltem alguns livros, e a janela, virada para o mar, e ao acordarmos damos conta que estamos num quarto de um qualquer romance de Milan Kundera,

 

Decididamente este é o nosso quarto, porque eu, eu o desejo, e tu, tu o queres, e ao acordar saímos em silêncio das páginas de um livro, descemos as escadas e abraçamos o mar…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:08

21
Ago 11

“Quando a mãe do poeta perguntava a si própria onde teria sido concebido o poeta, apenas três possibilidades entravam em linha de conta: uma noite no banco de uma praça ajardinada, uma tarde no apartamento de um amigo do pai do poeta, ou uma manhã num recanto romântico dos arredores de Praga.”,

“A vida não é aqui”, título de um livro de Milan Kundera, 1ª edição: janeiro de 1990, página 11,

 

E em 1990 eu acreditava que a vida não fosse aqui, coisas da juventude, sonhos que com o passar do tempo se transformam em pedacinhos de nada, mas hoje, hoje tenho a certeza que a vida é aqui, e que para alguns é boa demais, e para outros, madrasta, para uns é boa de mais porque coabitam com o oportunismo, umas vezes estão na margem esquerda do rio, e outras, outras estão na margem direita do rio,

 

Nada tenho contra os que atravessam os rios, pois foi precisamente para resolver esse problema que desde sempre se utilizaram barcos, pontes ou a nado, e o oportunismo tem limites, e em Alijó mete nojo, e então nos últimos vinte anos veem-se coisas que escrevendo ninguém acredita, lugares criados propositadamente para esta ou aquela pessoa, algumas delas do mais incompetente que existe, o doutorado em economia que vê passar à frente o licenciado, apenas porque um era genro de um alto dirigente do poder, e mais, e mais, e não interessa continuar, e não lhes bastando terem-se apoderado do Triângulo das Bermudas, querem agora assaltar as obras da Barragem do Tua, mas deixamos Alijó e voltamos ao que interessa, à juventude, aos sonhos, à poesia, a Milan Kundera, e felizmente que a prática de enviar os renegados para a Sibéria terminou,

 

E a vida é realmente aqui, injusta, e para aqueles que não se vergam, não dizem sim apenas porque alguém quer que ele diga sim, porque se eu tenho um copo na mão e mesmo que o meu melhor amigo me diga para eu dizer que é um cinzeiro, eu, eu simplesmente lhe respondo, Desculpe mas é um copo,

 

O problema de Alijó e de A vida não ser aqui é extensivo ao resto deste retângulo, o oportunismo, os políticos deixaram de desempenhar as funções para que foram eleitos, isto é, defender os interesses do povo, para à custa do povo resolverem os seus problemas familiares e pessoais, e mete o filho, e mete a filha, e mete a sobrinha, e mete a cunhada e mete o namorado da filha e mete a amiga do namorado da filha e mete o vizinho que andou a passear a bandeira e a receber cheques para andar na campanha eleitoral, vergonha, vergonha, e vergonha…

 

Kundera escreve lindamente, e sou apaixonado por ele, e aconselho vivamente a leitura deste livro, mas não posso concordar com ele quando coloca como título “A vida não é aqui”, claro que a vida é aqui e para alguns tem sido um sonho, ouro sobre azul…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:35

03
Jul 11

As peugadas que a noite constrói na janela virada para o mar,

Procuro no papel amarrotado das minhas mãos as palavras que guardei debaixo das pedras da minha infância, três caixas de cartão silenciosamente esquecidas na sombra da biblioteca e falta-me a coragem de as abrir, folhear uma por uma as folhas das árvores do jardim onde me sentava nas noites de verão, e falta-me a coragem de incendiar o lixo do meu passado, e falta-me a coragem de assassinar os versos tresloucados que mergulhavam nos meus olhos encarnados, pupilas inchadas nos fins de tarde quando de braços cruzados fitava o soalho de relva do meu quarto, as flores sobre a cómoda da bisavó sorriam-me e na noite ouvia o chilrear de pássaros que dormiam no meu peito, cigarros metafóricos derretiam-se sobre os livros de Milan Kundera, e queria ter a mesma coragem que tive quando numa fogueira alimentada de vodka destrui todos os meus desenhos, vi sem lágrimas o lume comer os seios de uma gaivota, vi sem lágrimas o lume comer o azul do céu e a arrotar nuvens de malmequer, e vi sem lágrimas as cores vestidas de cinza que semeei no quintal, pensava ele na preguiça da manhã e frente ao espelho da casa de banho,

- Para que queres tu três caixas de cartão, três caixas de lixo, e restos de árvore que cheiram a pássaros afogados no rio,

Não as quero,

Provavelmente as pessoas a quem dedicaste esses versos impregnados no resto de comida da messe de sargentos já morreram, tal como tu, dizia-me ela,

Não as quero, mas guardo-as religiosamente e todas as noites ajoelho-me com o terço na mão e rezo-lhes, peço-lhes que me ajudem a destrui-las, encosto as mãos à pele macia dos azulejos da casa de banho e com a cabeça poisada na parede fico lá, esqueço-me que estou vivo e quando acordo a barba enrola-se-me no pescoço, há tanto tempo que morri, gritava ele na noite,

- As gotinhas de suor mergulhadas na esponja da garganta, os lábios colados na minha boca de menina da cidade, falávamos do mar, escrevíamos na margem do rio o silêncio dos pássaros, da noite vinha até nós o desejo das estrelas, pegava-me na mão, abraçava-me com força, a mão dele caminha debaixo da minha blusa como se fosse as penas macias da lua, acariciava-me os seios finíssimos de areia, a mão descia-me pelo corpo esquelético, e com uma pinça afastava as minhas cuecas da maré, a mão dele dentro da minha vagina, eu transpirava, eu em lágrimas de prazer,

Há tanto tempo que morri quando nas peugadas que a noite constrói na janela virada para o mar a mãe dela nos surpreende na despedida de um beijo, a senhora sorri nos olhos das palmeiras,

- E eu em gemidos silenciosos nas escadas do prédio, e eu amava-o, e eu desejava-o, e eu depois de ele morrer voltei a amá-lo e a desejá-lo e a sentir as mãos dele dentro do meu corpo de mulher,

Não as quero, dizia ele quando olhava as três caixas de cartão,

- Ainda guardo dentro de um livro a rosa que roubaste no jardim, deste-ma e eu todas as noites olhava-a e sentia o peso dos teus braços,

Não as quero.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:36

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