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Cachimbo de Água

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Bufunfa...

Francisco Luís Fontinha 23 Ago 14

Procurava nas penteadas espigas de milho,

o sabor amargo de amar,

deitava-me sobre o chão frio do granito ensanguentado da eira,

pincelava o luar de madrugada,

e procurava...

adormecia sem o perceber,

porquê?

e se era aquele o momento de o fazer!

o sino ouvia-se ao longe,

o horário deixou de fazer sentido,

tal como o calendário,

procurava... e nunca as encontrava...

 

As chaves do espigueiro telintavam numa algibeira furada,

que servia de esconderijo a um corpo emagrecido,

cansado,

e ferido...

 

Havia lágrimas nos olhos das frestas do espigueiro,

a madeira envelhecida... rangia... parecia um homem desiludido com a vida,

acordavam-me para o jantar,

e fazia de conta que não ouvia...

nem sentia...

o vento soprar,

e eu procurava... e ele em pequenos círculos... me abraçava,

acreditava que das pálpebras dos pinheiros fugiam as estrelas em papel,

acreditava que à resina regressavam as plumas fluorescentes das meninas de cartão...

e nunca vi o mar acorrentado ao granito ensanguentado da eira,

nem os barcos, nem os marinheiros com odor a sexo,

e no entanto... havia uma mulata que dançava na eira só para mim,

 

O zinco da sanzala gritava,

e um menino em calções chorava grãos de pólen,

não havia abelhas para me consolarem...

nem... nem mangueiras sombreadas nas mãos dos mabecos enfurecidos com o meu sorriso,

 

Bufunfa...

o kimbundu poético da paixão dos pássaros,

o voo silencioso dos dentes de marfim sobre a mesa da sala de jantar,

uma ténue luz que iluminava o capim que jazia nas bermas da estrada,

caminhava, caminhava... e não tocava no granito ensanguentado da eira,

brincava com os papagaios de papel inventados nos seios de um coqueiro,

cintilavam em mim as gazelas, os elefantes... e ao meu lados os entristecidos marinheiros...

e procurava...

adormecia sem o perceber,

porquê?

e se era aquele o momento de o fazer!

Levantar-me do chão frio do granito ensanguentado da eira.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 23 de Agosto de 2014

A rosa branca no cabelo

Francisco Luís Fontinha 19 Jul 11

A pérola embriagada das manhãs cânforas do meu olhar,

O rosnar do cavalo a diesel de boca aberta a engolir o milho da manhã, a madrugada despede-se e aos poucos a claridade abraça-se aos pinheiros, nas fendas do granito do muro de vedação da leira um coelho esconde-se, e ao lado do tanque uma perdiz em movimentos femininos, de sapatos altos e minissaia, nos lábios poisa o batom em fogo do sol que se esconde nas ripas do canastro, e nos cabelos prende uma rosa branca, a perdiz saltita, a mulher emagrece nas sombras das ramadas, as videiras coçam-se ao arame e encostam-se aos esteios de cimento, na mulher cresce um sorriso de bom dia e a perdiz mingua junto à água que caminha rego fora, tropeça numa pedra, desvia-se, e cai sobre a leira seguinte, mistura-se nas fezes da passarada e demais habitantes da aldeia, e em forma de cotovelo acaba por se perder na poça, a mulher olha-se no espelho que em tentativas demoradas pesca da carteira de couro fingido, e dos olhos as barbas de milho realçando-lhe a cor infinita do olhar, toca nos lábios argamassados de vermelho com a língua, dobra a língua à maneira de trapezista de circo, entra dentro da boca, toca num dente em convalescença, o corpo fino e esguio nos desperdícios das coxas, ouve-se um Ai e certamente a perdiz, a perdiz com as patas enterradas no rego, agonia e afoga-se, e a água dissolve-a nas alavancas das pernas da mulher, a mulher geme, ensaia alguns passos e os saltos esguios de eucalipto sepultam-se na terra encharcada de suor,

O motor do cavalo cessa repentinamente e sobre a cabeça as nuvens preguiçosas das horas que se aproximam da leira, o velho desce do cavalo, e em voltas completas e de mãos na cabeça acredita que alguma coisa grave aconteceu, e pensa com o auxilio da boina às riscas que quando se embebeda esconde no bolso das calças calcinadas pelas geadas do inverno, Será cansaço?, o velho começa a comer os cigarros sem filtro e novamente a tentar perceber o amuo do cavalo a diesel, Será os filtros semeados de poeira?, não,  não pode ser Ainda ontem os limpei com o compressor!, mas que raio suplicava ele deitado na poeira, a mulher ao longe grita-lhe E não será fome?, Fome, repete ele!, sim fome, mas que porra se ainda antes de vir lhe dei de comer…, o feno verde que a bomba manual da boca puxou do tambor de duzentos litros e os vómitos e o enjoo e a final e derradeira cuspidela para o chão do diesel amargo do feno.

(continua)

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