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Cachimbo de Água

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A tua voz não pode gritar!

Francisco Luís Fontinha 29 Jun 14

A tua voz me entristece,

quando sei que deixou de existir em mim o verbo amar,

a minha cidade, lá longe, tão longe... que nunca a conseguirei alcançar,

dormir nela,

acordar cedo, e abrir a janela,

a janela que tenho no meu peito,

há gaivotas, e há um corpo que envelhece,

a tua voz... a tua voz me enlouquece,

e no entanto, sou obrigado a viver acorrentado a este silêncio sem nome,

a esta vergonha de perder sem ser encontrado,

... não sendo habitado,

nesta sanzala de papel...

 

Este esqueleto de gesso que carrego e me deito,

sem perceber que há lábios de mel, que há lábios de desejo..., lábios consumidos pela fogueira de beijar,

esta voz me entristece,

como a água do rio que se evapora,

e levita,

e procuro-te, e procuro-te...

e me dizem... aqui ninguém mora,

aqui... aqui ninguém... chora,

 

Aqui é proibida a escrita,

 

Os tentáculos do amor,

os seios de uma flor antes de acordar,

as cordas de nylon que ancoram a tua dor...

ao cais de embarcar,

 

A tua voz me entristece,

o teu corpo vacila na tempestade de sonhar,

o calendário não cessa de correr...

e come-te em pedacinhos,

a tua voz enfraquece,

e transforma-se em versos desesperados,

versos odiados,

versos de escrever...

a tua voz me entristece,

antes de alguém desenhar no tecto das tuas pálpebras a madrugada,

ainda não zarparam os barcos da minha infância,

ainda... ainda não encontrado o verbo “AMAR”...

 

A tua voz não pode gritar!

 

A tua voz é um feitiço,

uma nuvem vagueando sobre o Tejo,

a tua voz é um marinheiro mórbido, um marinheiro embriagado na esplanada do beijo...

há cadeiras apaixonadas, há sorrisos travestidos de amanhecer,

a tua voz não pode cessar, a tua voz... não pode morrer,

a tua voz... não é o meu verbo “AMAR”...

que... que deixou de ser,

que... que deixou de sofrer...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 29 de Junho de 2014

Os pássaros afogam-se no mar

Francisco Luís Fontinha 7 Jul 11

O cubo do corpo

Hermeticamente fechado

E lá de dentro o cheiro da minha mão

Que me acena do silêncio frio da escuridão

 

Fumo de papel amarrotado

O corpo impresso na calçada junto ao rio

À procura de barcos com chouriço

E migalhinhas de pão

 

O corpo sem mão

Camuflado na manhã sedosa das nuvens envergonhadas

Cansadas

Depositadas na sepultura da tarde quando as rosas

 

Empoleiradas no arame da secura

A boca engasgada nas horas intermináveis

Da língua o fogo do desejo

Na língua os teus beijos amargurados

 

Finos cansados acordados

Que tingem o meu corpo de névoa anoitecer

Que prendem os meus braços aos ramos de uma oliveira

E na brincadeira

 

Espetas-me pregos nas costas pisadas na sombra

O meu corpo tomba

E na minha cabeça dessoldada

Poisa uma gaivota evaporada

 

O rio foge-me no mar

O meu corpo misturado com o lodo

Eu fico nada

E ontem eu também nada

 

Não tenho corpo

Lábios

Não tenho beijos

Ou corda onde me agarrar…

 

O meu corpo uma simples pedra

A rocha quando as lágrimas soltam o amanhecer

O meu corpo envelhece o meu corpo parece morrer

E os pássaros afogam-se no mar.

O uivar dos pássaros

Francisco Luís Fontinha 1 Jul 11

O uivar dos pássaros

Das ruas imersas em pedacinhos amanhecer

O sol que se alicerça nas amoreiras

E escorre da monta ao rio esconder,

 

Das páginas da manhã

As sílabas das horas mortas

As vogais em silêncio

Correndo pelas ruas tortas,

 

Em flor a tua mão

O livro semeado na alvorada

No livro o papel encardido

Quando acorda a madrugada,

 

Ai senhor o uivar dos pássaros

E das ruas vem-me o cheiro a hortelã

Nos plátanos cansados

Os segredos da manhã,

 

E não importa que sou

Porque tenho corpo para sofrer

Cheirar o uivar dos pássaros

E lutar para não morrer…

Se eu morrer

Francisco Luís Fontinha 17 Mar 11

Se eu morrer

Sei que ninguém se vai importar;

E porque se importariam com um ser insignificante

Que muitos querem silenciar?

 

Porque sou inoportuno,

Porque sou de incomodar,

Porque sou vagabundo…

 

Se eu morrer

Quem se irá importar!

 

 

Luís Fontinha

17 de Março de 2011

Alijó/Portugal

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