Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

12
Nov 17

Acusais-me de tudo e de nada.

Acusais-me da chuva e do sol,

Das províncias desgovernadas,

Dos socalcos inanimados,

Tristes…

Cansados.

 

Acusais-me do cansaço,

De ser o menino dos papagaios

E das estrelas em sombreados tentáculos,

Acusais-me de o mar não regressar…

 

E de matar.

Acusais-me do eterno ventrículo agachado no musseque,

Das palmeiras envenenadas pelo silêncio,

Acusais-me das palavras gastas,

Tontas,

Nas paredes da solidão.

 

Acusais-me de tudo e de nada.

Acusais-me do medo,

Da morte em segredo,

Acusais-me do sofrimento

Nas montanhas solidificas dos livros

E dos momentos passados na escuridão de um velho bar.

 

Acusais-me da dor,

Das metástases ensanguentadas de um corpo em delírio…

Acusais-me de nada,

De tudo,

Até da triste madrugada…

Que a sombra alimenta.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Novembro de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:48

16
Abr 16

túbia dos lábios em cromados beijos

a fúria da tempestade alimentando o desejo

que se perde num olhar

não vejo o silêncio

não sinto o mar,

túbia do cansaço alicerçado à escuridão

um simples gesto

um simples poema

túbia do deserto quando a noite morta

invade a solidão dos musseques floridos

túbia da morte em circunferências loucas

finge-se a sorte

das planícies do medo

arrebata-se a sombra sobre os cadáveres do degredo

entre rochedos

e penedos

que apenas a ondulação da insónia sabe abraçar,

túbia meu do alimento proibido

que travestido de Inverno viaja de cidade em cidade

túbia sentido as pálpebras quebradas

do triste sino

das lamentáveis madrugadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 16 de Abril de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:43

07
Abr 16

Na longitude do amor

Desenho a cabana do sofrimento

A saudade regressa do infinito ausente musseque

Procuro os pequenos charcos da infância na algibeira do tempo

Queria ser gente

Correr

Saltar

Brincar no teu olhar como brincavam as gaivotas sobre o meu cabelo

Habitar nas tuas mãos com que afagas o meu olhar

Sentar-me nos jardins inventados pela escuridão da paixão

A solidão vive

Absorve-me como absorve as tempestades

O silêncio do medo agarrado ao meu corpo sonolento

Os meus ossos ficam colados no espelho dos tristes dias ausentado

Como uma fotografia sem ninguém

Cubro-me pela madrugada em construção

Sonho

Vivo sonhando com papagaios em papel

Imagino-me no parapeito de uma janela gradeada pelas sombras do abismo

O amor morre

Morre como morrem os fantasmas do amanhecer antes de ir para a escola

Sou um marinheiro desempregado

Passo os dias junto ao mar na ânsia que alguém me venha procurar

E novamente saltito nos charcos dos musseques de zinco

O medo

O medo de não regressar nunca

Às palmeiras de cartão

 

 

Francisco Luís Fontinha

quinta-feira, 7 de Abril de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:51

25
Mar 16

a felugem do corpo

no alfabeto secreto da paixão

as múltiplas palavras ensanguentadas

no deserto coração

as madrugadas invisíveis

estas que o são

e não regressam à minha mão

nunca mais

a felugem do corpo

descendo as ruas íngremes da cidade

o feitio estranho da cegonha vaidade

quando a saudade

poisa no ombro do beijo

os lábios amargos do musseque no abismo desejo

sem destino

este menino

sem cartas de amor

este remetente ausentado

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 25 de Março de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:20

14
Nov 15

este rio de sangue

em direcção ao musseque da esperança

o cacimbo envergonhado na solidão

o triste amanhecer esperando nas mãos da manhã

um novo dia a acordar

novas palavras prontas para a vida

um livro sobre a secretária no silêncio a arder

nos teus lábios

junto ao mar

um barco amarrado aos teus braços

neste rio de sangue…

… impossível de zarpar

Sonhar

E crescer

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

sábado, 14 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:28

01
Nov 15

A morte das palavras num qualquer musseque da insónia, as cinzas dos poemas disfarçadas de sanzala sem dono, destino ou incómodo de sobreviver à pobreza, o exilado texto além-fronteiras, os gritos, os gemidos da noite entre siderais e abstractos retractos e o espelho do quarto, depois vem o amor, depois vem a paixão, e nada mais do que isso

Ou morte, de ti, às primeiras horas da madrugada,

Odeio a noite, e nada mais do que isso nos nossos corpos, a distância das palavras, mortas, numa lápide de saudade e o eterno amor, depois, ele, partiu para as incandescentes ruelas do inferno, embrulhou-se nos lábios do sofrimento, tombou no pavimento

O espelho, cansado desta imagem prateada,

Tombou no pavimento como se fosse uma abelha a ancorar à colmeia do sexo, o orgasmo poético, a ejaculação da prosa em pequeníssimas lâminas de esperma, e eu… sofrendo com a tua ausência programada, hoje, acordei acreditando que estavas vivo, entre mim e em mim, olhei-te, perguntei por ti

E o espelho fantasiado de vergonha, a alvorada não nasce, o dia promete ser uma abstracta palavra, mota,

Perguntei por ti, ouvia-te longinquamente sobre as árvores do nosso jardim, e os pássaros poisados na nossa sanzala, o álbum de fotografias dos teus ossos, e percebi que brincavas entre mabecos e gaivotas embalsamadas pela tristeza,

Palavra, morta, ninguém à nossa porta,

Pela tristeza e pelo silêncio… marchar, marchar…

Fui, desisti…

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:40

20
Out 15

O inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas,

Menos tabaco nesses cigarros…, gajas no inferno?

E canteiros recheados de malmequeres, crisântemos e orquídeas selvagens, imperfeito, o vidro estilhaçava-se, ficou sem cabeça, ficou sem coração, e ficou com o medo misturado nos óbitos grãos de areia, ainda hoje acredito que um objecto depois de crucificado… permaneça o mesmo objecto, mas com formas e cheiros e desenhos…

Menos tabaco, amigo, menos tabaco,

Diferentes, tornam-se ausentes, tornam-se miúdos brincando no musseque, os charcos, o capim descendo a rabina, o miúdo do bibe acreditava na liberdade, e é tão difícil ser-se livre nesse País, tão difícil meu pai, tu sabes

Menos tabaco, menos,

Tu sabes que vivi encerrado entre quatro paredes invisíveis, tu sabes que vivi entre três janelas sem vista para o mar, mas sentia-o no meu quarto,

Lembras-te, filho? Os Domingos junto ao Porto e os barcos pareciam cancelas suspensas na madrugada, lembras-te, filho? Os Coqueiros, as gaivotas comendo os Coqueiros, e tudo apenas imagens a preto e branco do meu imaginário, porque, meu filho

Sim, pai?

Lembras-te do Mussulo?

Sim, pai, sim… a areia recheada de lençóis brancos, a poeira do cansaço vomitando languidas lâminas de azoto, e depois, e depois regressava a noite, dormias, sonhavas, gritavas… e eu, eu sem dormir, comer,

Ao longe, meu amigo, ao longe o inferno, as gajas, as nuas gajas junto à porta do inferno,

Louco, menos tabaco nesses cigarros, menos,

Ao longe a agonia do fim de tarde agachado em cima de um telhado em zinco abraçado a um livro, não sabia ler ainda, mas lia-o, absorvia-o, como hoje o faço, e não sabia ler ainda,

E tu, pai, e tu emprestavas-me os teus livros, e eu, eu dilacerava-me com o cheiro do papel, com as letras, com as imagens, com as tuas palavras “estes livros não são para a tua idade” como se houvesse idade para se manusear e cheirar e “foder” um livro… vigava-me, riscava-os, tal como as paredes do corredor, riscos, riscos, um livro entre gemidos, um livro em pleno orgasmo… Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…

Desaparecem todas as palavras, o inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas, pensei (estou em cais do Sodré) não, não estava, nunca lá estive e nego-o, absolutamente,

Menos tabacos nesses cigarros, menos

Aproximava-me, lentamente a minha verticalidade diminuía, sentia-me um miúdo de bibe gritando, berrando, “fodendo” livros com uma caneta de tinta permanente, e nada, até hoje, nada, morreu ele, morri eu, morremos todos.

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 20 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:54

12
Mar 15

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas

que habitam os socalcos da saudade

sou um ninho de cacos

e pequenas películas de silêncio

pela madrugada

oiço a tua voz aprisionada nas frestas deste cubículo

há entre nós um espelho cansado

e triste

ausento-me dos teus lábios

e perco-me nas palavras sem nome

como as ruas da tua cidade

ou da tua aldeia

 

o musseque

fervilha

transpira poesia

e o teu cabelo suspenso numa fotografia

tão distante

o mar

e as marés de sono

que me embrulhavam

hoje

não mar

não sono

nada

 

amar

amar

amar as flores e os desenhos embalsamados

correr montanha abaixo

deitar-me sobre ti

apenas

o peso das nuvens pinceladas de alfazema

a aceleração

acorrentada a uma equação

a física

a matemática

e... e amar

 

nada

os separa

os fios de sémen perdidos no cacimbo

o cachimbo em brasa

lúcido

de braços abertos

e abraça-me

e beija-me

como se beijam todos os livros

folheados

e no entanto

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 12 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:35

13
Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

A cidade camuflada pela espingarda das palavras,

o homem vestido de madrugada

esconde-se entre os candeeiros sem nome,

no cais,

encontra a solidão

e alguns cigarros de triste olhar,

há sobre ele o cheiro da saudade

e dos machimbombos puxados pelo cordel invisível do capim,

ouvem-se canções no musseque,

e dançam

e dançam

e dançam...

dançam em redor dos mabecos em fúria,

dançam imaginando pequenos charcos de água

como se o dia não tivesse acordado,

a cidade,

acorrentada,

o homem,

sufocado,

ele,

ela...

e não há poesia nos triciclos de madeira apodrecida, e não há poesia nos papagaios de papel,

esta cidade está infestada de sombras

e de lágrimas cor-de-rosa...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:06

22
Jul 14

Não te mexas,

deixa poisar o Cometa Amar na Sombra do teu olhar,

não grites,

mantém-te imóvel nos lábios do entardecer,

não fales, não... não grites,

geme no salivar nocturno que acolhe o luar,

não te mexas, por favor!

Silencia-me como se eu fosse apenas e só o teu livrinho de cabeceira,

a tua almofada recheada com seios de verniz...

o espelho do teu quarto, onde dormes, sonhas... e... e brincas...

como uma menina mimada,

escondida na madrugada,

 

Não te mexas,

fala-me, ouves-me?

Não te mexas,

acaricia o cansaço dos meus abraços com o teu cabelo de cetim,

não grites,

por favor... não sejas assim...

 

Assim, como?

Assim... menina mimada,

menina com sabor a Musseque,

menina... menina bronzeada,

 

Não,

não te mexas,

escreve no meu peito de xisto tudo aquilo que te apetece fazer,

sei lá eu...

também não o sei, meu Amor, mas não te esqueças de nada,

escreve tudo, escreve...

mas... mas não te mexas,

escreve em mim, desenha em mim,

o mar,

o pôr-do-sol, ou... ou a saudade,

o poema mais belos da montanha do desejo,

escreve, não te mexas, escreve... escreve beijo,

 

(Assim, como?

Assim... menina mimada,

menina com sabor a Musseque,

menina... menina bronzeada).

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 22 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:24

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