Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

05
Mai 19

A sombra dos teus lábios,

Suspensa no silêncio da noite.

Desenho a madrugada,

No teu corpo de escrever,

Escrevo palavras,

Silêncios de sofrer.

Em cio todos os pássaros,

Todas as abelhas,

No telhado da aldeia,

A sombra dos teus lábios,

Brincando na eira,

Escrevo palavras,

Parvas,

No teu corpo alvorada,

Desisto,

A melancolia,

Um dia,

Morta na calçada.

A sombra dos teus lábios,

Que a noite vê crescer,

É luar,

É mar,

É poema de sofrer…

A sombra dos teus lábios,

Os pinceis da revolta,

O jardim envergonhado,

Sem escolta,

Descendo a calçada,

O sem-abrigo desgraçado,

De livro na mão…

Deita-se no chão,

Dorme tranquilamente como uma pomba…

Engana a fome com o poema,

Bebe todas as sílabas do poema…

E morre.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

5/05/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:47

19
Abr 19

É noite,

E hoje não estou ao teu lado.

É noite,

Começa em mim a procissão do adeus,

Nas lâminas incandescentes dos teus lábios,

Não, não estou apaixonado,

Nem pela madrugada,

Nem pela tempestade…

Apenas te oiço nos lençóis do mar.

É noite,

Abro a janela e apenas um fio de luz no teu olhar,

O silêncio espetado no teu corpo,

Como a espada que tenho na mão,

Para assassinar a noite.

Vou matá-la.

É noite,

É noite e os livros já dormem,

Como crianças,

Na cama da saudade.

As ruas sem ninguém,

Nem transeuntes,

Nem automóveis,

Nem submarinos,

Apenas petroleiros fundeados junto à porta de entrada;

Fugimos, hoje?

Para as grutas da montanha envenenada pela solidão,

Os amantes, as amantes, lambem-se entre quatro paredes envelhecidas,

Mortas,

Perdidas.

É noite,

É noite e não consigo pegar na tua mão…

Talvez amanhã o consiga…

Amanhã.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

19/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:20

10
Abr 19

Suspensa nos teus lábios, a fotografia do amanhecer.

Chove no meu corpo,

Piso o deserto da saudade,

Enquanto a serpente do teu cabelo rasteja no meu olhar,

É noite, meu amor.

Suspensa nos teus lábios, a inocência da infância,

As correntes marítimas dos oceanos embriagados,

Vai,

Não regresses mais, tempestade oncológica das tardes perdidas…

Até que o vento te leve,

Para longe,

Em pequenas lâminas de aço,

Pobre.

Rico.

Sem-abrigo, é tudo o que eu sou…

Meia dúzia de ovos, um café e uma torrada,

Ao final da tarde.

Mendigo.

Perigo.

Suspensa, em ti, as palavras minhas,

Desajeitadas,

Sem nexo,

O beijo da serpente.

Abro a janela da paixão,

Finalmente há amanhecer,

Porque a tua fotografia,

Pertence aos teus lábios.

Estou alegre.

Apaixonado pelos socalcos da geada…

Mendigo.

Perigo.

Aventuras, telegramas sem remetente…

Nos braços,

O ausente,

Da morte,

Que há-de regressar ao teu peito.

 

A cidade, toda a cidade arde,

Nos teus seios,

O jardim dos gladíolos…

 

Sem nexo.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

10/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:14

10
Mar 19

As volúpias palavras descendo a calçada, junto ao rio, o mendigo assassina o último cigarro do dia, senta-se junto às escadas do prédio esquelético e com fome, uma brisa sobe até ele, e a vida parece-lhe contente com o aproximar da madrugada,

Todas as pedras à sua volta, choram,

Adormecem as acácias.

Choram com lágrimas de papel amarrotado que o merceeiro deitou no lixo, cobre-se, inventa o calor com lâmpadas de néon…

E dorme.

O néon embriagado pelo silêncio, os dias parecem-lhe horas tardias, doentes, com a mentira debaixo da língua,

E dorme,

As palavras dilaceradas, os livros incendiados pelo teu perfume, e tens no olhar a solidão das flores envenenadas,

E dorme, e dorme, o coração abandonado, por ti, por eles, pela melancolia do dia, e vê em todas as rochas, mesmo as mais pequenas, o sorriso do lobo.

Não estará o mendigo, louco?

E o poeta?

E se a loucura for a sanidade melódicas das palavras ditas?!

Dorme.

O sorriso do lobo, a alegria do mendigo por conversar com o lobo, pois, só este, e mais ninguém, consegue conversar com o mendigo…

É Domingo, dizem eles. Não o sei…

Não o sei, como desenhador de palavras, e, poucas, apenas sei que amanhã nos teus lábios vão acordar as amendoeiras em flores, todas, lindas, belas, elas,

E dorme.

Cansado da viagem.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10/03/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:56

28
Fev 19

Da tarde emancipava-se a lunar luz do horizonte, tenho lágrimas nos olhos sombreados pela tempestade, como ontem, o limite entardecer que ofusca a madrugada, não sei se acordará em mim o feitiço do entardecer, está frio em ti, tens na mão o silêncio da noite, somos dois,

Perco-me em ti,

Somos dois pássaros revoltados com o orvalho, diariamente sentimos as frestas da sonâmbula rua adormecida, só e triste,

Perco-me em ti,

Triste nos horários invisíveis, a cidade acorda, submete-se ao abismo,

Tenho medo, mãe.

Perco-me em ti, meu amor, desde a infância até hoje, perco-me em ti todas as manhãs quando acordam as árvores do meu quintal, os pássaros, mãe, os pássaros choram por ti, e

perco-me...

E sei que não regressarás mais aos meus braços, e sei que deixarei de escrever nas tuas mãos as palavras adormecidas pela chuva gélida de Inverno, saberás que um dia vou navegar para longe, saberás que um dia serei duzentos e seis ossos em fino pó, como a terra que nos alimenta nas estrelas,

Perco-me.

Da tarde, uma gotícula de tristeza desce o teu invisível cabelo, saberei que amanhã não estás, saberei que amanhã as minhas mãos serão tábuas de silêncio suavemente suspensas no teu rosto,

Perco-me em ti, meu amor,

Sabes, mãe?

Trinta dias sem rumo a navegar nesta barcaça,

Tens medo, filho?

Trinta dias escrevendo nas ondas o teu nome, desenhando o vento nas nuvens dos teus lábios, e, um dia vamos acordar na longínqua Luanda, com palmeiras, com capim e mangueiras...

Tens medo, filho? Não, mãe, não tenho medo da tua sombra ao acordar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

28/02/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:57

24
Fev 19

Lembro-me de ti.

Juntos ao rio das pedras cinzentas,

A aragem do teu cabelo saltitando entre as gaivotas,

Murmuravas as palavras do destino,

Sentada, junto a mim, uma rosa no peito adormecia,

E os teus olhos cor de amêndoa voavam na paisagem…

Lembro-me de ti.

Sentada.

Presos na minha mão todos os guindastes da insónia,

O medo,

No silêncio…

Sentada,

Junto a mim.

Lembro-me de ti,

E dos teus suspiros velejados pelos livros de poesia,

Unificados sejam todos os fins de tarde,

Quando pegava na tua mão e desenhava nela o sol da madrugada,

Junto ao mar,

A jangada,

O poema embriagado,

Só,

Junto a ti,

Sentada,

Junto ao rio…

Lembro-me de ti.

Todas as ervas daninhas embriagando os teus lábios de seda,

Desenhava o beijo no teu olhar, olhavas-me, criavas um sorriso na tarde, e descobríamos as tempestades da noite,

Tu, sentavas-te, no meu colo,

O medo,

O medo de amar-te sabendo que o amor é o mar enraivecido nos dias ímpares,

A jangada,

Junto a ti,

Sentada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

24/02/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:11

04
Nov 18

Uma caneta de espuma dispara contra mim a bala da saudade.

Traz dentro de si o amor das noites mórbidas,

Que habitam nesta velha cidade.

Embrulho-me no papel amarrotado pelo sonho, escrevo-me como se fosse o último banho antes de partir,

Entrelaço as mãos, e voo em direcção à tempestade,

Sento-me no teu colo,

Pego no teu cabelo sombrio, cor de noite, como as serpentes da minha vida, cansadas de envelhecer em mim…

Sei que os teus beijos são porcelana de açúcar, rosas mortas no jardim da solidão,

Como os teus olhos, negros da saudade envelhecida dos relógios engasgados pelo luar…

Habitas-me,

Habitas-me enquanto eu respirar, e aos poucos, sinto-me deslizar montanha abaixo…

E escondo-me no rio da morte.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 4 de Novembro de 2018

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:10

09
Set 18

Das janelas não se viam as transeuntes folhas caducas,

A rua imunda, suja, recheada de sombras invisíveis,

E um corpo putrefacto mergulha na minha mão…

Que faço eu com ele?

Alimento-o,

Enterro-o…

Ou escrevo nele a minha raiva.

As espadas da saudade, cravadas no peito húmido do esqueleto de vidro,

As pedras perfurantes alicerçadas nos lábios do abismo,

Sinto-me tudo isto, ao adormecer…

Sem perceber as palavras do amor.

 

 

Francisco Luís Fontinha

09-09-2018

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:39

24
Jun 18

Três dedos de conversa, uma chávena de chá, um livro poisado na tua mão, enquanto lá fora, muito distante de nós, uma cobra brinca na fina areia dos teus olhos.

Enquanto dormia, a flor do teu sorriso despede-se das pétalas envenenadas da noite, rosna o sorriso do lobo, rosna o silêncio da montanha, quando deitas a cabeça no meu colo…

São rosas, meu amor, são rosas os teus cabelos brancos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/06/2018

 

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publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:57

17
Jun 18

A arte do ser,

Quando acorda na noite o prazer,

De ler,

E chovem estrelas de adormecer…

No teu corpo de sofrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 17 de Junho de 2018

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:26

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