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Cachimbo de Água

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e à noite deixei de ouvir-te

Francisco Luís Fontinha 15 Ago 12

deixei de sentir o peso do meu corpo

e o vento levou-me o coração de silício

que eu transportava nas palavras

e escondia dentro do meu peito

 

escondo-me na tua voz invisível

e inaudível

que também ela se esconde nas tardes junto ao Tejo

 

deixei de sentir os abraços do inverno

e o beijos da primavera

deixei de sentir o peso do meu corpo

sobre a água salgada onde se suicidam os barcos do verão

com a voz cansada dos pedaços de cigarros em decomposição

na sepultura do amor

 

escrevo-te

 

despeço-me dos teus lábios antes de cair a noite

dentro dos lençóis da loucura

despeço-me com justa causa

ausência

infinitamente entre paredes e veredas de xisto

escrevo-te

 

e despeço-me

 

e será que me ouves quando abres a janela da torre do teu castelo de algodão?

Deixei de sentir as nuvens

e os finíssimos gemidos dos grãos de areia das brincadeiras no Mussulo

e deixei de ouvir as lanternas mágicas na rua com escadas para o sótão dos enganos

hoje timidamente ausente de ti e de mim e do próprio vento

e despeço-me

escrevo-te

da ausência do peso...

 

sou um pássaro de papel

que voa em direcção ao buraco da solidão

 

escondo-me

escrevo-te

da ausência do peso das palavras

que escreves nas paredes do meu esconderijo

a noite

e à noite deixei de ouvir-te

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