Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

10
Mar 11

Na minha infância tive um amigo, um boneco, a que dei o nome de chapelhudo.

- Avó, cuidado com o meu chapelhudo…!

O meu sofrimento ao ver o meu boneco favorito misturado com as folhas de mangueira espalhadas pelo quintal, dispersas aqui e além, como se fossem a madrugada a acordar. E lá ia eu, a correr contra o tempo, tirar o meu chapelhudo das folhas para que a minha avó não o deitasse para o lixo. Mas às vezes, só me lembrava dele quando o via inerte misturado com as folhas. E ainda hoje não percebo porque lhe dei esse nome… talvez porque tinha um chapéu grande…; talvez.

E o silêncio abundava no meu pensamento. Passava horas seguidas deitado no chão, e de barriga para o ar, imóvel, olhava para os aviões que passavam a baixa altitude. E sei que nessa altura não tinha a noção do tempo e do espaço. Para mim era tudo em linha recta, sem curvas.

- Pai, leva-me a ver os aviões.

E lá ia eu com o meu pai ao domingo de manhã até à pista do aeroporto olhar pensativamente o levantar e aterrar dos aviões. Tudo parecia tão distante, tão longínquo…, e na minha inocência, acreditava que eram pássaros voadores. Pelas ruas de Luanda escondia-me na mão do meu pai, e nos machimbombos que passavam apressados, acreditava que o meu avô conduzia um deles. Passávamos pela Maria da fonte que neste momento no seu pedestal existe um tanque de guerra…, e acabava a manhã no Porto de Luanda a ver os barcos atracados no cais e as pilhas de contentores que se amontoavam pelo porto. E o cheiro? Que saudades.

Duas paixões: aviões e barcos.

Como eu gostava dos Domingos!

As idas à praia do Mussulo que a principio eram uma gritaria para mim. Eu agarrado ao pescoço do meu pai com medo à água.

- Pai, tenho medo…., não quero.

E só regressava a casa ao fim do dia quando o sol começava a desaparecer no horizonte e aos poucos, o anoitecer acordava dum sono equidistante e pessimista.

E havia domingos que ia aos Coqueiros ver o hóquei em patins ou durante a semana, após o jantar, assistir aos treinos. E os gelados do Baleizão? Ai que saudades…

- Mãe, faz-me um papagaio de papel!

E nas tardes que eu não encontrava distracção, lá ia ter com a minha mãe para brincar comigo. Construíamos papagaios de papel. Que depois com a ajuda dela, o via aos saltinhos no Céu azul, transparente e límpido, até que o cordel acabava, e o papagaio saltitava de um lado para o outro, prisioneiro da minha mão.

Que saudades!

- De Luanda?

Sim…, de tudo.

- Eu também! Eu também…

 

 

 

Luís Fontinha

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:27

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