Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

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Mar 11

A cidade encerra as portas no crepúsculo da noite, uma janela semi-aberta deita-se sobre o mar, o soalho começa a ganhar vida, e na cidade alimento-me do sofrimento da maré, ao fundo da rua desço a calçada, meto no quelho da pensão, à porta, putas esperam por uma hora de carinho, meia hora paga a preço de ouro, é a única voz que oiço junto ao mar, e no cais um veleiro tenta engatar-me, começa a apalpar-me as pernas, eu frio na espinha, ele insiste, o meu corpo encolhe-se na água, emerge na noite, a cidade à minha espera, a cidade à espera dele, ele sozinho nas ruas desertas, um silêncio aproxima-se, e o jantar ficou na tarde de ontem, o veleiro quer-me, eu odeio-o, e apetece-me partir-lhe a cabeça, e ele sem cabeça à procura dos miúdos junto ao Tejo, o Tejo abandonou-me quando eu criança fumava cigarros nas suas margens, cigarros não, quando eu criança fuma charros nas suas margens, e sobre as minhas costas o comboio para Cascais. Eu sentado, eu olhando Almada, eu ao fundo da rua…

Deixei de ver o sol, deixei de olhar a lua, deixei de ver o sol das tardes junto ao Tejo, das saudades do meu corpo que ainda hoje deve passear-se junto ao rio, hoje eu sem corpo, hoje apenas ossos, um esqueleto suspenso em sofrimento, e ontem eu o sol, e ontem eu a lua, hoje não, hoje não nada.

A cidade encerra as portas no crepúsculo da noite, uma janela semi-aberta deita-se sobre o mar, o soalho começa a ganhar vida, e na cidade alimento-me do sofrimento da maré, ao fundo da rua desço a calçada, uma sombra a gritar-me, e eu a esconder-me nos braços do veleiro, tiram-me a cabeça, cortam-me as mãos, e eu sem cabeça, e eu sem mãos, eu apenas com braços nos braços do veleiro, o veleiro sorri, o veleiro quer-me na noite, e da noite uma roseira entala-se num plátano, o plátano em corrida acaba por tropeçar no néon das ruas, ao fundo da rua uma puta espera, desespera, e nas sombras sorri,

- vai uma voltinha, filho?

E a cidade encerra a janela, acenda a luz e se tiver sorte, se tiver sorte hoje tem jantar…

 

 

(texto de ficção)

FLRF

31 de Março de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:11

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