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Cachimbo de Água

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Os flocos de aveia

Francisco Luís Fontinha 20 Mar 11

Ele de cabecinha deitada no colo dela, ele deliciava-se com os livros arrumadinhos à sua volta nas estantes até ao tecto, ela deliciava-se com os flocos de aveia a ouvir Beethoven (Presto) e os cachimbos sorriam-lhe como se fossem crianças, lá fora a lua em construção olhava-os e desejava abraça-los, mas ele indiferente à lua, ele indiferente à noite, ele de cabecinha deitada no colo dela, e à espera que o mar entrasse pela janela, e uma onda rodopiasse à sua volta, iluminasse as estantes a acabasse por silenciar-se junto aos seus pés.

A homepage do sapo maluca, ele carregava no resultado do FC Porto - Académica e era direccionado para a notícia “bloco de esquerda vai apresentar programa de crescimento” e pergunto-me o que tem o futebol a ver com o bloco de esquerda? Nada. Ou talvez o circo seja o mesmo.

Em cada som de Beethoven uma nuvem entrava pela janela e ele em voz baixa,

- comeste?

Comi amor.

Comeu nada.

Torradas e um copo de leite,

- não me apetecia mais nada,

E as mulheres têm sempre a mania que se alimentam direito, e estão sempre sem apetite, eu ao contrário,

- alimento-me de livros, como as palavras e das frases procuro as vitaminas necessárias, e antes de me deitar ainda devoro cerca de quinze páginas,

- comi amor.

Ela misturava os flocos com a música e pregava os olhos no cachimbo de água, e imaginava-se,

- eu deitada junto ao mar e tu com a tua cabecinha poisada nos meus lábios, ao longe um barco vem em nossa direcção, muda de rumo e começa a navegar para os prédios que aos poucos, um a um, adormecem nas ruas iluminadas, do meu lado esquerdo o teu cachimbo de água em ebulição, em suspiros vagos, e apetece-me beijar-te, pegar no bocal dele e juntamente com os teus lábios começar a entrar pelo mar dentro e sem destino…

 Ele de cabecinha deitada no colo dela, ele deliciava-se com os livros arrumadinhos à sua volta nas estantes até ao tecto, ela deliciava-se com os flocos de aveia a ouvir Beethoven (Presto), e a noite aos poucos alimenta-se nos segundos pendurados no relógio de parede,

- comeste?

Comeu nada.

- comi amor…

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

20 de Março de 2011

Alijó/Portugal

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