Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

18
Jun 19

Observo os pássaros poisados na minha janela.

Converso com eles,

Contam-me estórias,

Lamúrias,

Contam-me os murmúrios da noite,

Quando se acendem as estrelas e cessa o dia.

Pergunto-lhes porque me visitam, se durante o dia não recebo uma única visita.

Pergunto-lhes porque me perseguem enquanto saboreio, à noite, o meu último cigarro, e, o meu último copo de uísque.

São chatos.

Cansados,

Choram,

Gritam,

E não sei o que lhes dizer…

O que se pode dizer a um pássaro abandonado?

Que está frio?

Que a noite é a coisa mais bela de se olhar?

Escrevo-lhes.

Não me respondem.

Mas olham-me.

Abro a janela, eles entram, são as primeiras visitas dos últimos meses, e, ficam tão felizes por eu lhes acariciar as penas de algodão da cabeça…

Pergunto-lhes.

Vamos escrever um poema?

Que não. Que a poesia é para lamechas.

Mesmo assim, escrevo-lhes.

Falei-lhes de um tal de Francisco, que em miúdo, puxava um triciclo com um cordel invisível por um quintal de Luanda.

Não acreditaram na minha estória…

Dizem-me que não existem triciclos.

Dizem-me que nunca estive em Angola.

Sabes?

Não.

Nunca vi o mar das oliveiras.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

18-06-2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:52

13
Ago 17

Tenho medo da tua imensidão,

Da fúria das tuas mãos quando o vento se agacha no chão…

E pede perdão,

 

Pára,

Escuta o silêncio dos mortos, e dos sonâmbulos abandonados,

Ergue-te e cresce na floresta dos vivos,

Enquanto a cidade se prostitui nos horários nocturnos da madrugada,

Pára,

Escuta o silêncio dos mortos, e dos pássaros envenenados,

E da paixão,

A húmida terra lapidar do desassossego…

 

E crava no peito uma canção,

Abraça o coração…

 

Das falésias adormecidas.

 

Tenho medo da tua imensidão, e dos acrílicos desenhos desgraçados.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 13 de Agosto de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:06

02
Fev 16

Seus olhos voaram enquanto a tempestade se alimentava do vento,

A ténue Primavera não acordou, hoje, nem acordará tão brevemente,

O silêncio pertence à noite,

O desejo pertence-lhe, só a ela, ele… embainhado nas palavras…

Sofrendo como sofrem todos os poemas depois de lidos,

Seus olhos voaram…

E o vento no estômago da tempestade,

Gritava

E desenhava estrelas no luar,

E gritava,

Sem perceber porque dormiam os pássaros

Na janela encerrada…

 

Quando o mar,

Também ele, berrava,

 

E seus olhos voaram…

E seus olhos transformaram-se em luz divina,

 

Que nenhum homem consegue abraçar.

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:52

21
Nov 15

Sou um pássaro assustado

Sem poiso onde aportar

Sou a noite vestida de solidão

Com janela para o mar

E tenho na mão

Um rochedo de dor

Que só este corpo acorrentado

Sabe suportar

Como o perfume de uma flor…

Sou um pássaro assustado

Esperando o regresso do amor

Neste barco de amar.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

sábado, 21 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:34

12
Out 15

desenho_12_10_2015.png

Fontinha – Outubro/2015

 

Ouvi-los… nunca,

Estes loucos pássaros envergonhados e tristes,

Estes homens sem fronteira

Galgando a sombra de outros homens,

Na fome, na miséria beleza

Quando o mar se aproxima, e mata, e eles fingem morrer,

Junto à ribeira,

Com o medo de tudo perder,

Eles, os pássaros, eles, os homens sem fronteira,

Agachados nos riachos envenenados pelo dinheiro,

Rastejando no capim outrora fértil de palavras…

E hoje, e hoje Oceanos de lágrimas laminadas.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 12 de Outubro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:05

13
Ago 15

Encosto o meu cansaço aos sons nocturnos das tuas lágrimas,

Sinto o silêncio do teu coração,

Fogem-me as palavras,

E o medo embrulha-se em mim,

Não tenho alma,

Não tenho fôlego para gritar aos pássaros…

Que habitam no teu cabelo,

E o rio que brinca nas minhas veias,

Aos poucos,

Cessa de correr para o mar,

Senta-se,

Lê… e desaparece nos musseques da solidão…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:55

15
Jan 15

Pintura_61_A1_Nova.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

A mentira dos homens

mergulhada na falsa memória,

a solidão das palavras,

escritas e semeadas,

nos longínquos corredores da insónia,

o imperfeito corpo do espelho que alimenta a paixão...

em pedaços,

tão pequeninos... como grãos de areia em pleno voo matinal,

as telas amordaçadas que habitam a minha casa, ardem,

sinto o fumo de néon quando pego numa caneta,

tenho uma carta para escrever...

mas,

 

mas mergulho na falsa memória,

sem destinatário,

sem remetente...

tão sós...

o subscrito,

e a folha de papel oferecida por um pindérico pássaro de cigarro nos lábios...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:18

06
Dez 14

As migalhas do teu suor

quando há nuvens com fome

e esqueletos sem nome...

os tentáculos da tua dor

mergulhados na calçada do Adeus

há uma rosa

há uma flor

que a noite alimenta

e não quer

na lareira da solidão

mas só as estrelas conseguem

desenhar na tua mão,

há uma paisagem sem amor

no sorriso de um caixão

há jardins embriagados esquecidos na escuridão

as migalhas do teu suor

quando há nuvens com fome

e esqueletos sem nome...

há ossos de papel voando na madrugada

que só o amanhecer consegue parar

há barcos infelizes

e há barcos apaixonados...

mas as migalhas do teu suor

são os alicerces da cidade dos pássaros aprisionados.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 6 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:35

21
Mai 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Os teus olhos no espelho que poisa no meu rosto,

do cansaço adormecido das palavras anónimas,

tu, meu amor, sussurras-me baixinho que serei eternamente tua,

acredito,

acredito que há no teu jardim rosas envergonhadas,

acredito,

acredito que os olhos que habitam no meu espelho,

um dia serão as minhas estrelas vadias,

 

Os teus olhos que dormem nos meus lençóis,

sós,

a aldeia escapa-se entre os dedos da tristeza...

e acredito...

 

Ofereço-te o meu corpo embrulhado em poemas de miséria,

eternamente tua, eternamente... ausente de ti,

regresso ao espelho e descubro os teus braços na sombra dos meus seios,

afago os teus cabelos enquanto a noite se veste de menina desajeitada,

de menina... de menina de uma outra cidade,

ofereço-te o meu corpo como se eu fosse a tua flor preferida,

a árvore sob a qual te deitavas quando se inventavam em ti os sargaços da manhã,

e partiam os barcos para o luar como pássaros em busca dos filhos em voos infinitos,

 

Os teus olhos que dormem e sonham nos meus lençóis,

tão distante, tu, homem sem local para aportares...

ofereci-te os meus abraços,

e tu,

e tu fingiste não ouvir,

disseste-me que o cais serve apenas para a partida,

e partiste,

sem regressar nunca,

 

Como as palavras,

depois de extinta a fogueira da paixão,

ouvia o silêncio dos teus livros...

e nada mais tenho a acrescentar a ti e de ti,

 

Os teus olhos que nunca me pertenceram,

os teus olhos que brincavam nas minhas coxas antes de eu levitar em direcção aos sonhos,

cerravas-os e partias como uma tempestade de areia...

a ti e de ti,

as conversas inacabadas,

as palavras não escritas, e não ditas,

os teus olhos, os teus malditos olhos que iluminavam um cubículo de papel...

e tinham tentáculos que conseguiam beijar o mar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:07

24
Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sou um pássaro sem gaiola de aço

um rio sem pontes

sou um barco sem leme sem velas sem vento...

sou uma árvore dentro dos finos abraços

escondido nos montes

saboreando o sofrimento,

 

Sou uma nuvem envergonhada

correndo os corredores da dor

sou uma rua esquecida na cidade

sou uma sombra desenhada

do jardim em flor...

sou... sou um homem construído pela saudade,

 

Sou um pássaro sem poiso um pássaro fingindo amar

sou um esqueleto invisível caminhando junto aos rochedos do amor

sou... um pássaro conversando com pequenos livros de porcelana

sou uma janela virada para o mar

esperando a morte vestida com cor

esquecendo a vida em noite escura que a toda a hora me proclama,

 

Sou o Inverno das madrugadas em geada

o patamar dos vadios pés revestidos a azulejo

sou um pássaro voando nos sonhos inventados

uma ribeira gelada

sou... sou um pássaro em desejo

comendo corações apaixonados.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:53

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