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Cachimbo de Água

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Os sonhos de Sua Majestade

Francisco Luís Fontinha 29 Out 11

El Rei indignado com o carro de bois que ziguezagueava nas encostas da manhã, os bois mergulhados em urros e se queixavam que o peso era muito, e El Rei tranquilo que não, o peso não era muito, e os bois teimavam em abrandar a marcha até se imobilizarem frente ao Paço,

El Rei aflitíssimo,

- E agora minhas Ratazanas?,

E que as ratazanas coçavam os pelinhos do lombo e que respondiam a El Rei,

- Não sabemos Sua Majestade, nós não sabemos o que fazer,

Os bois arfavam e da boca saiam-lhes pedacinhos de cansaço, El Rei reunia de emergência as ratazanas e os cães de caça, e faltava um,

O Conselheiro Mor e guardião das chaves do Paço empoleirado à janela do primeiro andar em gritos para os pássaros poisados junto à praia E o que é que quer?,

Ao que El Rei lhe responde que não quer nada, apenas que os bois continuem com a sua divina marcha em direção ao cais,

- Nada, não quero nada, só quero que os bois retomem a marcha,

As ratazanas engasgadas no silêncio da reunião cruzavam os braços e escreviam na ardósia que transportavam às costas,

- Não sabemos, não sabemos Sua Majestade,

O autor do texto tropeça num momento de infância e vê-se no recreio da escola com um papel preso nas costas com fita-cola Sou Burro,

- Eu sou Burro,

E há pessoas que esqueceram rapidamente o que foram no passado, e eu nunca me esqueço, o autor recorda-se de estar sentado à mesa na cozinha e enquanto comia olhava os pais, e ele perguntava,

- Vocês não comem?,

Respondiam-lhe que não tinham fome,

Hoje percebo que não comiam para que o filho se alimentasse porque a comida não chegava para todos,

E há pessoas que esqueceram rapidamente o que foram no passado, e hoje, hoje julgam-se donos do mundo,

Esqueceram-se rapidamente e fazem questão de o recordar passando por cima do que foram,

- Eu sou o dono do Mundo,

E claro que passado é passado mas às vezes um pouco de humildade faz bem e recomenda-se,

O autor volta ao texto e aos bois,

- Não sabemos, não sabemos Sua Majestade,

El Rei enfurecido gritava às ratazanas que é para isso que lhes paga, para saberem resolver os problemas quando necessário,

Uma das ratazanas, a mais fiel, que nunca tinha acontecido uma junta de bois recusar-se a trabalhar,

E outro que era a primeira vez que assistia a uma junta de bois em greve,

- N uncaa vi t al na vidaaa,

El Rei chegava à conclusão que estava rodeado de incompetentes,

(o autor do texto)

- E que se esqueceram rapidamente o que foram,

El Rei desce as escadas do Paço e junto aos bois propõe o seguinte:

- Meus amigos diz Sua Majestade, Meus amigos,

Os bois às marradas a uma árvore seminua do lado esquerdo da tapada a explicarem a Sua Majestade que não adiantava suborná-los porque estava decidido não continuarem a marcha até ao cais,

- Está decidido está decidido,

As ratazanas envergonhadas porque os bois repentinamente tinham deixado de obedecer,

- N uncaa vi t al na vidaaa,

Nem eu que sou o autor do texto, nem eu,

Mas que às vezes acontece,

O Conselheiro Mor e guardião das chaves do Paço empoleirado à janela do primeiro andar em gritos para os pássaros poisados junto à praia E o que é que quer?,

El Rei sufocado nos cortinados do fim de tarde acorda,

Minha Rainha, Minha Rainha, Os bois deixaram de obedecer-me!,

Bois qual bois seu palerma?

Os bois os bois…

E enquanto coçava a cabeça percebeu que tinha sonhado,

Porque os bois obedecem sempre à voz do maestro assim dizia o tio Serafim em Carvalhais,

- Amarela anda lá amarela,

N uncaa vi t al na vidaaa…

 

(texto de ficção)

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