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Cachimbo de Água

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Paisagens do sono

Francisco Luís Fontinha 17 Mai 16

A paisagem despede-se de mim.

Sinto as estrelas poisarem em cada gotícula de suor do teu corpo,

Deito sobre ele a minha desnorteada cabeça,

E regressa o sono do Oriente…

Sonho com pássaros,

Sonho com barcos,

Ínfimas imagens travestidas de loucura absorvem-me,

E sou forçado a fugir para outras paragens sem escuridão.

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 17 de Maio de 2016

Migalhas

Francisco Luís Fontinha 6 Dez 14

As migalhas do teu suor

quando há nuvens com fome

e esqueletos sem nome...

os tentáculos da tua dor

mergulhados na calçada do Adeus

há uma rosa

há uma flor

que a noite alimenta

e não quer

na lareira da solidão

mas só as estrelas conseguem

desenhar na tua mão,

há uma paisagem sem amor

no sorriso de um caixão

há jardins embriagados esquecidos na escuridão

as migalhas do teu suor

quando há nuvens com fome

e esqueletos sem nome...

há ossos de papel voando na madrugada

que só o amanhecer consegue parar

há barcos infelizes

e há barcos apaixonados...

mas as migalhas do teu suor

são os alicerces da cidade dos pássaros aprisionados.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 6 de Dezembro de 2014

casa imaginária

Francisco Luís Fontinha 26 Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

encerraram-se as torneiras da saudade

como se evaporaram os cortinados do desejo

num ápice

entre nuvens e corações de pétalas encarnadas

fiquei sem o jardim da felicidade

e apenas um banco onde me sento

e observo a triste paisagem

nua

escura

sombria

como um calendário esquecido no tabique adormecido

da casa imaginária onde apareceste pela primeira vez

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

As rosas de carvalhais

Francisco Luís Fontinha 27 Jul 11

Porque se cruza a paisagem,

Quando o rio me olha,

 

Todas as noites olhava no espelho a sua voz cansada e repetia infinitamente a frase que galgava-se-lhe na cabeça fina da manhã “porque se cruza a paisagem quando o rio me olha!”, não sabia porquê e abraçado ao espelho ficava-se a dormir como rosas no jardim de carvalhais,

O sino da igreja atrapalhado nas três horas da madrugada e dentro dos lençóis as pernas dele que caminhavam na margem do rio na procura de estrelas, a noite descia e poisava na água, e a música melódica dos fingertips entrava-lhe no peito, ele estancava-se junto a uma amoreira e dos lábios deslizavam silabas engasgadas no fumo dos cigarros e ouvia-se no eco da noite Porque se cruza a paisagem quando o rio me olha!,

E pensava na sua voz de submarino afogado no mar A paisagem não existe O rio não existe E eu, eu não existo, e enquanto pegava na beata do cigarro continuava nas frases soltas da garganta Só as rosas de carvalhais é que existem!, voltava um pouco atrás Talvez eu exista!,

- E se não existe rio e se não existe paisagem?, e enquanto caminhava junto à margem um peixe olha-me e saltita na água, sinto que sorri, sinto que me acompanha, eu estaciono-me e ele também se estaciona, e vem-me à ideia E se o sino da igreja não existe e se a igreja não existe?, outro peixe na minha peugada, Dois? Pergunto-me eu, e tenho a certeza que dois são demais, um, um apenas bastava para me atulhar os ouvidos de lágrimas e os olhos de sorrisos,

As rosas de carvalhais tinham um gosto poético a sonho e quando misturadas com as palavras que acordavam na eira o sabor fundia-se na boca e a mistura derretia-se debaixo dos castanheiros, junto ao poço um miúdo atirava pedras e segundos depois o pluf dos gemidos da água,

- E se eu sou um sonho?, e agora dou-me conta que já tenho a companhia de três peixes e não tarda nada tenho um pelotão às minhas ordens, uma comandita de bêbados e fumadores de charros ao pequeno-almoço, abriam o armário e sacavam da espingarda submersa em uísque e o quinto pelotão tombava na parada de instrução, o furriel sorria e explicava ao aspirante Deve ser do vento!,

Perguntavam ao miúdo porque atirava pedras para dentro do poço, e ele respondia ao avô domingos Estou a fazer uma experiência, o avô domingos encolhia os ombros e fingia que era a paisagem, e o rio olhava-o,

- O aspirante nos gritos histéricos do pequeno-almoço Seus filhos da puta!, e da poeira do saibro de agosto a voz começava-se-lhe a encolher nas âncoras dos pés e gritava Todos para a fossa da merda, e o estúpido o primeiro a entrar, e um cagalhão entra-lhe pela janela sem cortinados,

Acorda e vê o sorriso encolhido no espelho a segurar as rosas de carvalhais, e deixa cair a frase no soalho Porque se cruza a paisagem quando o rio me olha!

A encruzilhada da paisagem

Francisco Luís Fontinha 27 Jul 11

Entre as esquinas do dia

E as sombras da noite

O meu corpo mergulha no poema

E extingue-se na cidade adormecida

 

Folheias-me as pétalas encardidas

Quando nas mãos brotam espinhos

Cintilam uvas das videiras amassadas na neblina

E o rio entra-me coração adentro

 

Como um petroleiro que desliza na geada

Como um pai que abraça o filho

E os socalcos enrolam-se-me nas pernas

E não me deixam caminhar

 

Agarro-me ao pôr-do-sol

Que esconde o rio

E nos meus lábios constroem-se barcos rabelos

E finjo-me de morto…

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