Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

22
Mar 14

foto: Algures entre Luanda e Lisboa – Setembro/1971

 

Percebia-se nas tuas tristes pétalas o cansaço da manhã,

flutuávamos sobre as palmeiras hilariantes junto à Baía, davas-me a mão, e obrigavas-me a sonhar,

dizias-me que os barcos eram corpos moribundos de passageiros em viagem,

e do cais observávamos os caixotes em madeira prontos para o suicídio da loucura,

eu, eu acorrentava-me a ti como se tu fosses um embondeiro entre nuvens e sanzalas, que voava,

que... que acreditava em papagaios de papel e nos alicerces nocturnos de uma cidade em construção,

 

Gosto muito de ti, dizia-te!

Quero ser como tu, simples, como as primeiras palavras que me ensinaste e os primeiros rabiscos que deixei em todas as paredes da casa onde tínhamos as mangueiras e as pombas... e o portão, o portão...

imaginava-me a sobrevoar todo o bairro em cima de um velho triciclo,

e... e nunca me esquecia de te esperar no final do dia,

“percebia-se nas tuas tristes pétalas o cansaço da manhã”,

e chorava quando adormecia sem perceber que já tinhas chegado...

 

E chorava quando me mostravas o mar, e as gaivotas, e... e os coqueiros,

levavas-me ao Baleizão, sentávamos-nos na esplanada, e eu, eu sonhava como essa cidade em construção que um dia tive de abandonar, regressei às tuas mãos, regressei como um velho caixote em madeira... procurando corpos moribundos em viagem,

afinal... afinal também me transformei em passageiro em viagem,

um caixote em madeira, com olhos, com braços, com mãos... e sonhos de sonhar,

barco, dei-me conta que hoje sou um barco rumo ao desconhecido,

um barco travestido de saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 22 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:59

09
Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sentia-me surpreendentemente minúsculo no colo dele, sentia-lhe o medo na ponta dos dedos, sentia-lhe a ofegante madrugada a entranhar-se nos seus olhos castanhos, sentia-me

E ele percebia as minhas tristes pálpebras desde que acordei da noite e nunca mais adormeci, e nunca mais sonhei, e nunca mais..., amei, porque

Sentia-me envergonhado de ser um menino em papel colorido com cabeça a preto-e-branco, sentia-me envergonhado porque sabia que o vento me vinha buscar, e que eu, eu não tinha coragem de pronunciar a palavra “Obrigado”, porque, porque percebia-se nas telhas do casebre que mais tarde ou mais cedo algo de triste

Triste?

Que algo de triste ia acontecer, e aconteceu, e... senti-me ténue nas mãos garras da gaivota sem nome, pediram-me a certidão de nascimento, acanhadamente respondi-lhes que não a tinha, que nunca a tive, porque

Sou,

Sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu

Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos

Sou,

Pássaros como bolas de naftalina, como beijos prometidos e nunca dados, como beijos perdidos na avenida longínqua da saudade, e sentia-te sentir na minha mão os teus velhos lábios, os teus lábios inventados pelo batom encarnado, e de uma roulote ouviam-se-lhe os gritos da distância, no oitavo andar sentia-lhe os sons amorfos encurralados na janela de porcelana, ele chorava entre as linhas do velho, também ele, do velho

Caderno quadriculado?

Um lindo poema morre, e sou, sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu conversava com as também velhas sombras de Deus, e de nada percebia, queríamos conversar e não tínhamos todas as palavras necessárias, Deus imaginava-me um louco vestido de andaime suspenso num oitavo andar da memória, Deus queria-me e eu sentia-lhe os sonoros melódicos suspiros do velho piano de cauda, um livro estava com febre, uma mão agachada no capim, tristemente agoniada... mão, não tinha força para se levantar, para gritar, para chamar os velhos pássaros que viviam nas velhas árvores no velho quintal,

Caderno quadriculado?

Sou,

Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos meninos, e que vestiam velhos calções e calçavam velhas sandálias... e nas mãos

Nas mãos velhos papagaios em papel pardo,

E nas mãos sentia-lhe o nome “pai”, e ele percebia o meu choro, as minhas lágrimas, como percebeu muito mais tarde o meu sonho...

 

 

(ficção – não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 9 de Fevereiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:10

30
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

há uma ordem indefinida que habita no centro do teu corpo

a tempestade preguiçosa dos barcos encarnados abraçam-se a ti

e tu parecendo uma ardósia em fim de tarde

escreves-te e alimentas os volantes e êmbolos da tristeza

escreves-te e gaguejas as palavras mortas que o vento transporta

como nuvens de poeira sobre a pele húmida da paixão...

apaixonado sempre

sempre... como um vulcão entranhado na montanha dos sonhos

trazes-me os cinzeiros com asas voláteis depois dos desalojados cigarros partirem na tua mão

recordas-te do silêncio

e acreditas nas pedras quentes dos telhados invisíveis da insónia

há uma ordem secreta dentro de ti que não quer movimentar-se na roldana dos beijos cinzentos,

 

lembras-me as chuvas endiabradas das sanzalas com telhados de cacimbo

eu chorava porque tinha acabado de perder um simples papagaio de papel

tinha quatro cores

e... e um velho cordel

havia em ti uma ordem

que do centro do teu corpo ao meu olhar perdia-se como se perderam todas as sombras do desejo

e despejados nós

continuamos a procurar marés de papel das cartolinas suspensas nas paredes da velha escola

hoje

sei...

sei que há uma ordem embrenhada na desordem

e as tuas vãs palavras vivem no caos da solidão.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:54

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