Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

25
Jul 14

Quando o tambor do desassossego entoa no coração da sanzala,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

 

Sento-me junto ao pequeno charco acabado de nascer,

puxo de um cigarro,

e finjo ver o mar a regressar da sombra das mangueiras,

as pequeníssimas películas de cacimbo alicerçam-se aos meus dedos,

ao longe, mulheres... e fogueiras,

e missangas de medos,

saltitando nos braços cansados de um esqueleto de papel,

oiço o bater fulgurante do zinco conta a solidão de um menino chorando,

 

Um dia a guerra o levará,

sua mãe morta rezará no altar da areia branca do faroleiro de pedra,

os meus dedos minguam quando um cadáver de insónia poisa no meu cigarro...

e espero... e não regressa o mar,

desce um corpo de prata dos coqueiros envelhecidos,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

e adormeço sem me apetecer,

 

Em criança brincava com silêncios e um velho triciclo em madeira,

acreditava nas flores,

acreditava que um dia..., que um dia voava como os pássaros,

envelheci, e o meu cigarro terminou quando um paquete de rebuçados atracou em mim,

transeuntes com pesadíssimos caixotes em madeira,

choravam...

e círculos de espuma saltavam à corda no cais dos caixotes em madeira...

perdi-me, e hoje... e hoje sento-me junto ao pequeno charco acabado de nascer,

 

O mar não regressará nunca,

 

E,

 

Quando o tambor do desassossego entoa no coração da sanzala,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

 

E leio sofrer!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:37

03
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Transeunte paquete de imagens escuridão

semi-nuas entre palheiros com gaivotas em transe

e lâmpadas de incenso na janela da seara adormecida

sinto-me quando me sento nos confins desenhos dos muros em betão

correndo mar adentro

como âncoras de chocolate escorrendo pelos corpos despidos cansados...

 

O teu e o meu suspensos das nuvens agrestes que as sílabas constroem

sinto-me e sento-me perdidamente embriagado nas ondas oceânicas madrugadas

comia manhãs saboreando as páginas perdidas de uma sebenta ensonada

transeunte paquete de ti em minha mão ensanguentada

desces do pôr-do-sol e entranhas-te em mim

como se fosses uma livraria apaixonada.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:55

02
Jan 13

Talvez, um dia, quem sabe, junto ao cais da rocha conde de Óbidos, zarpe, visto-me de marinheiro, pego num pequeno barco, de preferência, em madeira prensada, por causa do peso, e zarpo, sem rumo, destino, endereço físico ou electrónico, deixo ficar tudo

Não acredito que o faças, e enquanto a oiço penso nas ruas onde brinquei, me sentei, caí e chorei, penso, recordo, e enquanto a oiço vejo-me sentado em cima de uma grade de madeira onde alguém tinha trazido maçãs, ou pêssegos, talvez laranjas, foi há tempo suficiente para não me recordar, e sei que junto ao portão eu o esperava, abraçava-o e ele dava-me um beijo, pegava na minha mão trémula, e desaparecíamos entre as sombras das mangueiras,

Deixo ficar tudo, e mergulho no vácuo

Sem rumo eu, hoje, dele, quando o mar, talvez laranjas, o mar pegava nele e levava-o a passear pelas ruas invisíveis da cidade iluminada por candeeiros a petróleo e flores com olhos verdes, dele, o mar vestia-o de marinheiro, e zarpava, corria e descia a calçada, sempre apressadamente abraçado à loucura, esquecia-se sobre a mesa da cozinha do fuso horário, parava sobre o equador, toda a noite, o baile de gala, dançavam, dele, nunca lhe ouvi uma palavra de amor, nunca, nunca lhe ouvi um sorriso nos lábios, nunca, sem rumo, eu, hoje, quando o mar, oiço-lhe os lamentos solitários das noites mórbidas que um desenhador constrói com um esquadro e uma régua, os lamentos

Que puta de vida a minha,

Claro que podia ser pior, dizia-lhe eu, e um dia deixo ficar tudo, e mergulho no vácuo, e um dia deixo ficar tudo e mergulho no plasma das tuas veias e vou em direcção ao arco da lua, cerras os olhos, cerras os olhos e oiço-te

Que puta de vida a minha,

E digo-te, e digo-o e escrevo-o para que nunca o esqueças

Que podia ser pior?

E escrevo-o, e digo-o para que um dia nunca o esqueças, nunca, nunca acreditei que o fizesses, e enquanto te ouvia pensava nas ruas onde brincávamos, nos sentávamos, caíamos e chorávamos, pensava, recordo, e enquanto te ouvia via-me sentado em cima de uma grade de madeira onde alguém tinha trazido maçãs, ou pêssegos, talvez laranjas, foi há tempo suficiente para não me recordar, e sei que junto ao portão ele me esperava, abraçava-me e dava-me um beijo, pegava na minha mão trémula, e desaparecíamos entre as sombras das mangueiras, hoje não

E digo-te, e digo-o e escrevo-o para que nunca o esqueças

Que podia ser pior?

Muito pior.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:49

03
Jun 11

Que o meu corpo liquefeito fique electrão, em cabeçadas quânticas à volta do núcleo, a minha mão pendurada nos lábios da lua quando a noite desce até ao rio, que o meu corpo liquefeito arrefeça quando da manhã uma criança sorri para mim, e eu, e eu, olá menino porque te ris,

 

- Tens cara de palhaço, pareces o palhaço pobre que vi no circo em Luanda,

 

O paquete à minha espera, subo silenciosamente as escadas, e quando chego ao cimo, no patamar, olho para as pessoas e vejo as lágrimas da despedida, e de mim, e de mim ninguém na minha partida, e de mim ninguém na minha chegada, tenho cara de palhaço, pareço uma palmeira que espreita à janela com os olhos nus, a roupa dispersa no pavimento, a Fátima pequenina como uma roseira ao meu lado a brincar com uma boneca, a Fátima que ficou prisioneira do cacimbo, e dizem que a sua sombra caminha pelas ruas de Vila Nova de Famalicão, o paquete começa a esfumar-se na manhã de embarque, e sabes,

 

- Será longe Vila Nova de Famalicão

 

E sabes, o paquete começa em roncos adormecidos levado pela mão de um rebocador, e aos poucos ele mergulha a cabeça na areia e da Fátima apenas silêncios, o mar em tosse convulsa começa a espreguiçar-se na tarde, cresce, cresce, cresce e a terra engolida pela boca da saudade,

 

- Tens medo da água, maricas

 

E a saudade aumenta de peso, aumenta de tamanho, e em curvas apertadas as coxas da neblina quase que tocam o céu, céu e água, vómitos junto ao varandim e uns calções sentados no soalho a fazer desenhos com os olhos, a Fátima algures por aí, gorda, uma locomotiva de filhos que de ano a ano circulam pelos carris da infância, e eu continuo sentado no soalho a fazer desenhos com os olhos, tenho cara de palhaço pobre, I have a dream,

 

- A lua quando a noite desce até ao rio, que o meu corpo liquefeito arrefeça quando da manhã uma criança, a Fátima das criancices de Luanda, pegue na minha mão, e na terra que aos poucos nos engole, emerge, emerge a noite sem estrelas.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

3 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:21

05
Mai 11

 

 

Eu, um perfeito idiota de crucifixo ao peito, pulseirinha nos braços e um anel, eu, um perfeito idiota de chapéu na cabeça em pose de puta à espera de engate com dois dentinhos e sorriso de merda; o meu retrato.

 

- Ri-se de quê este palhaço?

 

Ri-se de quê este palhaço, eu, um perfeito idiota, perdido nas cânforas manhãs adormecidas da cidade, deambulando pelas ruas com um cordel na mão que suspende um papagaio de papel e com um sorriso espanta as gaivotas junto ao mar, eu, um perfeito idiota, eu sentado junto à estátua da Maria da Fonte, e hoje, hoje não sei o que é, ri-se de quê este palhaço,

 

- Eu, um perfeito idiota de crucifixo ao peito, pulseirinha nos braços e um anel, e hoje não crucifixo, e hoje não pulseiras, e hoje não anel, e hoje não sorriso, hoje à espera da chegada da maré e me leve para o infinito ao encontro de duas rectas paralelas, carris em perfeito estado de desolação, cansados, carruagens em desassossego que esperam transeuntes complicados, fodidos como eu com a vida,

 

E a vida ri-se de quê este palhaço, desempregado, fodido, humilhado, crucificado na freguesia do Carmo numa manhã de nevoeiro, as galinhas na capoeira, e as pombas deitadas no cansaço das galinhas, e ela, e ela encostada às mangueiras que faziam sombra sobre o meu quintal, não chove, ri-se de quê este palhaço deitado no capim e com medo do regresso, e porquê, e porquê me trouxeram, eu morto, eu enterrado, eu à espera do paquete, e como eu teria desejado que se afundasse na passagem do equador,

 

- Eu, um perfeito idiota de crucifixo ao peito, pulseirinha nos braços e um anel, empoleirado nas grades do navio, e ao longe, ao longe o meu triciclo que ficou lá, ao longe um papagaio de papel em brincadeiras na chuva,

 

Ri-se de quê este palhaço?

 

E a chuva a fugir-me, e a chuva a esconder-se na minha mão, e a minha mão encostada à mesinha, e pergunto, e pergunto-me,

 

- Ri-se de quê este palhaço?

 

O meu retrato.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

5 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:38

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