Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

29
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

És a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo sobre uma deserta cama com lençóis de Pôr-do-Sol e finas tiras do adormecido miolo que o pão em molho de beijos vagabundos que dos lábios teus saltitavam até de encontro aos vidros da pequena janela

Embaterem e destruírem-se como bolas de sabão,

Ouvíamos o ruído em cacos vidros caírem sobre a ruela com a garganta apertada, sentia-se na respiração o ofegante grito do cansaço, caírem como pedaços de papel em colorida cinza, e confesso que

Não gosto, e detesto,

Que entre em mim a noite mendiga, travestida, enfeitada com cartão e velhos cobertores que antigamente alimentavam lindos cortinados suspensos na janela da sala onde habitava o piano da tia Adosinda, onde permanecia ainda, penso eu que

Não gosto, e detesto,

Que me digam o que tenho ou não de fazer, que os espelhos me olhem e me ordenem

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

Penso que sobrevivia sozinho, e não precisavas de esconder debaixo da mesa as chaves do sótão da rua das flores, e não precisavas de trazer no rosto as minhas pobres telas, e não precisavas de retirar todos os cortinados e oferece-los aos mendigos da rua contígua que agora utilizam como cobertores

Cantigas, lérias... olha agora cobertores...

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

Não, não gosto, e detesto,

(és a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo)

Lembras-te de mim, miúda?

Provavelmente já não te lembras do pintor que trazia no rosto as sujas telas e os tristes papeis como argamassa do muro da solidão, eras tão nova, que

Não, não gosto,

Que confesso,

Que

Lembras?

Que foi a última vez que tive na mão o beijo da cidade dos embebidos marinheiros que chegavam em pequenos grupos aos teus braços, ainda pensei plantar-me junto ao rio, ainda pensei

Ainda gostas de mim?

Gostar, o que é gostar?

Que ainda pensei transformar-me em ponte, em aço de preferência, esticava os braços, juntava as duas margens, ou

Cantigas, lérias... olha agora cobertores...

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

… ou

É triste

É triste ser peixe e viver dentro de um minúsculo aquário de peneirento vidro com perfume made in China, depois chegavas a casa, corrias os cortinados, entrava em nós a luz ténue da madrugada, abrias o piano, e começavas a tocar para mim...

Ou...

Tão triste, tão, ser peixe em trinta e seis suaves prestações... e sem juros.

 

 

(Não revisto . Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:44

04
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Lias-me nos esconderijos de cartão

quando a varanda voava sobre os olhos dos telhados de vidro

lias-me no reflexo do espelho vadio que habitava nas tuas mãos

e quando pegavas em mim

folheavas-me como se estivesses a saborear a manga adormecida

e acabada de ser escrita,

 

Lias-me como se eu fosse

sou

talvez... um pássaro apaixonado pelo vento

e pelas árvores comestíveis dos jardins da insónia

lias-me e eu não percebia que tinha palavras em mim

dentro do meu esqueleto de papel,

 

Lias-me como um tonto peixe procurando o amor debaixo das algas

e de verso em verso

descíamos as escadas da dor

embebia-te e embrulhava-te nas canções clandestinas dos rochedos de amar

vivíamos parecendo flores em plástico

que as doiradas abelhas comiam... e deixavas de pertencer à minha biblioteca,

 

Morrias

ardias na fogueira dos cigarros infestados pelas malditas ratazanas que habitavam a caserna tuas coxas...

morrias e lias-me como se não existisse amanhecer

madrugada

palavras reescritas nos teus silêncios seios com desenhos por pintar

e imagens escurecidas e inabitáveis nas nossas vidas...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 15:02

06
Jul 13

foto: A&M ART and Photos

 

Terei em mim as sobejadas tuas lágrimas?

E as tuas algas, meu amor,

como conseguem elas sobreviver sem as minha mãos...

sem o meu olhar,

terei em mim as algemas flutuantes do silêncio

quando apareces no espelho da noite

e começas a cantar

sorrindo,

 

Sou uma gota de água salgada

que voa nas clarabóias do teu doce cabelo

sou uma gaivota disfarçada de gota de água...

que te ama quando deitas a tua cabeça no meu peito confeccionado com as pobres pétalas

do xisto laminado da paixão,

 

O amor dispara palavras contra os uivos meninos da cidade dos abismos

sentavas-te nos corredores da noite como se fosses uma árvore

uma menina vestida de árvore

como as tuas algas e os teus peixes e a rosa que deixaste no interior de um velho livro...

o amor disfarça-se de madrugada

e assim, nós, os eternos amantes, dormimos parecendo pássaros envenenados pelo cacimbo,

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:26

01
Jan 13

Depois, vi o sol desaparecer do cubículo de trapos onde nos escondíamos, depois, vi as nuvens transformarem-se em pedaços de papel, alguns com rugas no rosto, outros, de faces límpidas, absorvidos pela miudinha chuva que horas antes tinha começado a descer do tecto, viam-se os barrotes e as traves e o soalho dos vizinhos do andar superior, esquisitos, sonolentos, raramente saiam de casa, e quando saiam vestiam-se com folhas de árvores e não tinham cabelo, e não tinham pele, sim, tinham mas não era igual à nossa, pareciam-me

Escamas, pareciam peixes com pernas, peixes com braços, peixes com uma cabeça de xisto, grande, muito grande, peixes com mãos semelhantes a um alicate de corte, escamas, pareciam-me e não eram, montanhas vestidas com caixas de cartão que sobejaram das últimas compras em Paris, peixes

Pareciam-me

Sim, tinham mas não era igual à nossa, pareciam-me,

Tínhamos vizinhos no piso inferior, um casal sem filhos, quase nunca se ouviam, e quando acordava um som, era sempre o mesmo, igual, a todas as horas, a todos os minutos, a todos os segundos, pareciam-me

Gemidos,

Finos gemidos de orvalho sobre as superfícies transparentes do primeiro dia do ano, ontem, quase não se ouviram

Gemidos,

Flores, finos, gemidos? Não se ouviram, ontem, silenciosamente sós dentro do cubículo de trapos onde se escondiam, dormiam, um casal sem filhos, e quase nunca se ouviam sons, palavras, nada, muito, flores, finos gemidos, os lados de um triângulo equilátero, burros, burras, elas, as gaivotas do primeiro dia do ano, e

Quando lhe perguntavam a quantos graus ferve um ângulo recto, ela respondia A noventa graus senhora professora, e

Gemidos,

Finos gemidos, burros, e burras,

Asnos, asnas, metálicas, treliças, treliças isostáticas, e muitas, muitas

Flores, gemidos, finos burros, e burras, depois, vi o sol desaparecer do cubículo de trapos onde nos escondíamos, depois, vi as nuvens transformarem-se em pedaços de papel, alguns com rugas no rosto, outros, de faces límpidas, absorvidos pela miudinha chuva

Pareciam-me

Sim, tinham mas não era igual à nossa, pareciam-me, peixes com olhos verdes, peixes de cebolada, peixes de escabeche, peixes, peixes, e

Peixes,

Desciam, e subiam, as escadas, sobre nós, esquisitos, com pele não igual à nossa, diferente, com a pele igual a

Peixes,

Asnos, asnas, metálicas, treliças, treliças isostáticas, e muitas, muitas mãos com sabor a amêndoa torrada, regressava o chocolate, regressavas com os miúdos, subias, descias, as finas

Escadas

Gemidos,

As finas vozes que mal se ouviam, ele, ela, os dois pareciam um telhado sem telhas, ele, ela, os dois pareciam uma árvore sem ramos, uma árvore sem folhas, um comboio

Fantasma entre os socalcos do Douro,

Obrigado pela recordação, gemidos, ele, ela, os dois pareciam a avenida Almirante Reis em discussões incompletas, ele, ela, os dois pareciam

Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos,

E subiam as escadas, desciam, escondíamos-nos dentro dos travesseiros da insónia, peixes, quase sempre, peixes com braços, quase sempre, peixes com pernas, quase sempre

Gemidos,

Peixes,

Quase sempre

Eu faço por menos carinho, Sim Sim, Você me ama amor?

Peixes, quase sempre, com braços, quase sempre, com pernas, quase sempre, apaixonados, quase sempre

Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos, e sobre nós eles esquisitos, e sobre nós escamas, pareciam peixes com pernas, peixes com braços, peixes com uma cabeça de xisto, grande, muito grande, peixes com mãos semelhantes a um alicate de corte, escamas, pareciam-me e não eram, montanhas vestidas com caixas de cartão que sobejaram das últimas compras em Paris, peixes

Pareciam-me

E não eram,

Pareciam-me

E não eram,

Peixes, quase sempre, com braços, quase sempre, com pernas, quase sempre, apaixonados, quase sempre

Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos,

E não eram, obrigado pela recordação, gemidos, ele, ela, os dois pareciam a avenida Almirante Reis em discussões incompletas, ele, ela, os dois pareciam

E não eram

Peixes.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:58

16
Mai 11

E se tudo à minha volta não existisse. Se os peixes não fossem peixes, se o sol não fosse sol, se as plantas não fossem plantas e as abelhas, as abelhas não abelhas. E se a mulher não fosse mulher e o meu corpo, o meu corpo não corpo, e o mar, o mar não mar.

 

E se não houvesse passado, presente ou futuro, e se a terra em vez de circular fosse quadrada, e se o dia não fosse dividido em horas, minutos e segundos, não houve tempo.

 

E se nascer, crescer e morrer não exista, seja apenas uma sensação, e se os momentos que estamos a passar já tenham passado, e se tudo o que vemos sejam apenas imagens projectadas num espelho gigante, apenas imagens.

 

E se tudo à minha volta não existisse. Se os peixes não fossem peixes, e eu, eu não eu. Eu uma sombra sentada à beira de uma ribeira a olhar para um espelho gigante… e os sonhos, os sonhos a realidade e a realidade apenas sonhos…

 

 

Luís Fontinha

16 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:44

14
Mai 11

Todas as terras têm uma rua ou avenida vinte e cinco de Abril, e todas elas com vista para o mar onde dormem barcos, onde brincam peixes, e todas elas, e todas elas no fim de tarde à espera do silêncio que desce devagarinho pelas árvores do jardim, os pássaros ficam assustados, de um prédio com janela para a rua uma menina experimenta a lei da gravidade, tropeça no vento, cai, morre, os barcos assustam-se, os barcos cruzam os braços, os barcos,

 

- tão novinha,

 

Até parece que para morrer é preciso ter idade, proibido bebidas alcoólicas a menores de dezasseis anos, fumar mata, e tão novinha, e tão doce menina em queda livre por desgostos de amor, e o amor agradece, na morte sempre uma culpa, os barcos encalham sempre na areia, e tão novinha,

 

- o cortinado ainda tentou segurá-la mas em vão, escorregou-lhe a mão, e não conseguiu inverter os nove virgula oito metros por segundo quadrado,

 

E tão novinha, e maldito Newton deitado debaixo da macieira, e pumba, leva com uma maçã na pinha, e hoje para subir ao quarto andar preciso de escadas, o maldito ascensor com o nariz entupido nos dias em que chove,

 

- e se não fosse o Newton eu levitava, e quando pertinho da janela, a janela abria-se, e ela escondida no quarto a espetar pregos nas oliveiras, na banheira, na banheira Arquimedes a lavar os testículos, e enquanto pega neles, quando pega neles o princípio da impulsão, os barcos caminham no mar…

 

E todas as ruas com vista para o mar onde dormem barcos, onde brincam peixes, onde se abraçam árvores depois do jantar, e todas as ruas têm medo de morrer,

 

- tão novinha.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

14 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:25

04
Mai 11

Desço a encosta e finto as rochas de xisto, tropeço, levanto-me com sacrifício até chegar ao rio, sinto-me cansado, preciso urgentemente de me sentar e olhar a corrente, pegar na minha mão e chapinhar na água límpida da manhã. Sorrio e fecho os olhos, abro os olhos e vejo-me no espelho do rio, o meu rosto não eu, o meu rosto um ramo de flores, fico com medo, e percebo que durante a noite alguém substituiu o meu rosto envelhecido por um ramo de malmequeres. E agora o que faço?

 

- E agora o que faço? Encosto-me à paisagem e dos meus olhos emergem lágrimas de pólen e aos poucos deixo de ver as nuvens, e tenho a certeza que uma abelha poisa no meu rosto de malmequer, eu não eu, eu um ramo de malmequeres cortados durante a noite enquanto lutava com uma aranha que invadiu o meu sono, e começo a sentir nas costas as pedrinhas da encosta, apenas oiço o rugido da água e peixes em saltos acrobáticos voltando novamente a mergulhar na água e desaparecerem dos meus ouvidos, e deixo de ter silêncio.

 

E agora o que faço?

 

Sorrio e fecho os olhos, abro os olhos e vejo-me no espelho do rio, um cigarro alimenta-me e por momentos esqueço que o meu rosto envelhecido é um ramo de malmequeres, pergunto ao rio, pergunto-me a mim, e quando os malmequeres deixarem de ser malmequeres, e quando o poema deixar de ser poema e as palavras o rugido da água e peixes em saltos acrobáticos voltando novamente a mergulhar na água e desaparecerem dos meus ouvidos, e deixo de ter silêncio, e deixo de ser eu…

 

- E agora o que faço?

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

4 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:58

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