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Cachimbo de Água

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Sombras sem sorriso

Francisco Luís Fontinha 25 Set 15

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(Fontinha – Setembro/2015)

 

Deixei de sonhar com as tuas sombras sem sorriso,

Sufocam-me as tuas palavras amargas…

Sofridas e falsas,

Deixei de olhar o mar

E os barcos embriagados pela sonolência da noite,

Agora pareço um Cacilheiro amarrado às folhas ténues dos Plátanos,

Escrevo-te,

Mas não sonho com as tuas sombras,

Sem sorriso,

Agora,

Ontem…

A alegria de estar só.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2015

 

Tarde vaiada

Francisco Luís Fontinha 3 Jun 15

A tarde vaiada no silêncio do adeus,

Há sempre uma partida,

Sem despedida,

Alguma,

Ou… ou nenhuma

Canção de embalar,

Há sempre uma palavra

Amiga,

Amarga,

Desempregada…

Sem… sem desenhos para desenhar,

A tarde,

 

Só,

Entre as paredes dos plátanos envelhecidos,

E gritam,

Às vezes…

Enfurecidos,

As pálpebras cinzentas da madrugada,

 

Mas da tarde vaiada…

Não sobra nada,

 

Nada.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 3 de Junho de 2015

Beijo de poesia

Francisco Luís Fontinha 1 Jun 14

Não a encontro,

a frase suspensa nos teus lábios,

escrevo-a, e reescrevo-a, e nem um beijo de poesia consigo obter,

 

Há pigmentos solitários que a tua boca absorve,

olhas-me, e segues como uma bala disparada por um desejo escondido na montanha,

há uma cabana deserta, abandonada, esquecida como eu...

teimosa como eu,

há uma gaivota nos teus cabelos que me aprisionam ao cais dos mendigos,

não a encontro,

escrevo-a, e reescrevo-a...

sentindo nas tuas pálpebras a repetição de sons inaudíveis,

caminhas, e corres, e voas,

há pigmentos solitários, não a encontro,

a frase suspensa nos teus lábios,

e no entanto, procuro-te, de noite, de dia, enquanto sonho e sou filho da insónia,

 

Um muro de livros escondem-te, um muro de livros... um muro de livros comem-te,

e eu sentado no sofá da escuridão, pergunto-me se existes, pergunto-me se és poesia,

em formato de beijo,

 

Não a encontro,

centenas de frases acabadas de morrer,

palavras sem nome,

palavras sem corpo que a minha mão quer escrever,

sorris, sorris... e escondes-te sob o Plátano de braços cinzentos,

caminhas, corres, e... e voas,

sobes a escadaria de nylon em direcção à nuvem mais afastada de mim,

procuro-te,

procuro-te quando chove, procuro-te quando leio os livros do muro que te escondem,

e apenas uma réstia do teu olhar dispara para mim um cubo de silêncio,

sorriso, o teu, lindo quando caminhas e, e voas sobre as palmeiras da minha infância,

e espero, e espero o teu beijo de poesia...

 

(Não a encontro,

a frase suspensa nos teus lábios,

escrevo-a, e reescrevo-a, e nem um beijo de poesia consigo obter).

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Junho de 2014

candeeiros com braços de prata

Francisco Luís Fontinha 18 Abr 14

quatro bancos em madeira

um jardim em desassossego

três árvores

… duas belas mulheres

uma Primavera

com plátanos de brincar

quatro bancos em madeira

dois corpos em translação

quatro seios em rotação

… e duas belas mulheres

duas mulheres em solidão

quatro bancos em madeira e uma gaivota em papel

 

um barco com pálpebras de chocolate

um marinheiro vestido de vampiro

duas belas mulheres

e quatro bancos em madeira

percebem na insónia a sinfonia dos candeeiros com braços de prata

um jardim em desassossego

um Oceano desgostoso

triste...

tão triste como os fios de nylon que aprisionam o sexo dos pássaros

uma Primavera inventada pelo poeta dos farrapos amanhecer

senta-se nos quatro bancos em madeira...

… acaricia as duas belas mulheres e as três árvores

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

pulsar do meu velho e estranho corpo

Francisco Luís Fontinha 14 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

vês o meu velho e estranho corpo dentro da insónia madrugada

percebes que dentro de mim existe um conjunto de roldanas, rodas dentadas e alguns tristes veios mergulhados na escuridão da partida

um comprimento indefinido de corda em perfume sisal adormece no teu pescoço de porcelana

sinto-te nas pálpebras de granito que a manhã deixou sobre a mesa-de-cabeceira

é tarde

temos fome de partir

correr em direcção ao rio com palavras de azulejo apodrecido

tocar na pele do mar

olhar no relógio de pulso o pulsar do desejo...

é tarde

temos de partir... partir para o prometido beijo

… sem sentir o palpitar do vento entre os corações de areia e as rochas abandonadas

 

um candeeiro de água salgada semeado no centro do passeio libertino

dois esqueletos de saliva deambulam como se fossem a alegria transformada em silêncio

o medo que o desejo roube todas as esplanadas de vidro

o cheiro das janelas com mãos de putrefacção acordam em ti e alicerçam-se aos teus cabelos de estanho

estranho mundo onde vivemos porque não sentimos o que temos

porque não o sabemos

ainda... se amanhã acordarás sobre o meu peito

ou... enforcada paixão nos ombros do plátano de cinzeiro gaivota atravessando pontes invisíveis

lágrimas com sabor a pétalas de carvão escrevem-se em mim

fico envergonhado

sem jeito...

triste... assim... assim como ficam tristes os livros dos teus seios quando líamos abraçados num sótão de insulina...

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014

a cidade dos cães

Francisco Luís Fontinha 24 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

sentia-me perdido dentro da cidade dos cães

ouvíamos os sofridos mendigos de prata

tactearem as paredes dos abandonados barcos de papel

sentia-me esquecido no teu corpo de porcelana

envidraçado e comido como os ossos do esqueleto negro

depois de partir o luar

sentia-me nos latidos embebidos nas palavras que jaziam no cobertor da lareira

e sobre a mesa

a tua fotografia parecendo uma montanha

um penedo monstruoso vagueando sobre as pedras ao aço envergonhado

de que se fazem estátuas

e homens com corpo musculado

 

(e sussurras-me à ardósia tarde que sou uma tábua que sobejou do caixão das merendas quando o cais abraçava comestíveis corações em molho de solidão

sentia-me parvamente só

como se devem sentir os restantes barcos da família dos pássaros

releio e leio e sinto

dentro de mim

“O Cais das Merendas”

e sentia-me embriagado com os cheiros das letras em flor)

[“O Cais das Merendas” de Lídia Jorge]

 

sentia-me perdido dentro dos contentores amovíveis dos sonhos nocturnos

tínhamos acabado de descobri os beijos e o perfume dos Plátanos do jardim

(em Alijó também há Plátanos)

bancos em madeira vagueavam na Baía e de longe regressavam as perdizes cinzentas

das imagens a preto-e-branco que o esqueleto negro trazia na lapela

sentia-me só na cidade dos cães

e percebia os vómitos angustiantes das canções que saltitavam num bar da rua das andorinhas

havia meninas

e livros disfarçados de meninas

e meninas comendo livros e livros

como as tuas palavras...

zangadas com o presente

procurando o inferno passado dos caixotes sonolentos

 

[não sei quem sou e como sou e tudo começou quando eu me sentia perdido na cidade dos cães]

 

 

(não revisto)

Domingo, 24 de Novembro de 2013

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Claro que não percebes que há olhares invisíveis

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 13

É impossível viver-se assim, não concordas comigo?

(meia dúzia de gargantas contra as lajes do vento, três ou quatro mãos arremessando pedras da calçada na direcção da casa amarela da rua escura que tem uma árvore caquética, com dois ou três bancos de jardim, envelhecidos como o povo, como os barcos, como os pássaros que assistem pacientemente à ditadura do dinheiro, morre-se, matam-se, suicidam-se nuvens não percebendo que o futuro é uma sepultura com pedra mármore em cima, cansamos-nos de ouvir tantos e tantos comentadores, que tudo comentam, que nada percebem daquilo que comentam, hoje a receita é uma, amanhã já é outra, e talvez, depois de amanhã, não sei, apreça um que diga que a solução é o peru recheado com batatinhas doiradas, caseiras, o peru, caseirinho, as delícias da avó Silvina, e hoje),

Percebes o que eu quero dizer-te?

(hoje ofereceram-me catorze ovos, caseiros, e sou levado a concluir que o dia não está a ser assim tão horrível, como eu pensava, ao acordar, depois recebo a notícia que vai ser editado pela Fundação José Saramago um novo livro “A estátua e a pedra” de José Saramago, e confesso, neste momento da minha vida, digo-o e repito-o

estou a cagar-me se a barraca vai ou não vai abaixo, que estou a cagar-me se a tenda frágil deste circo vai ou não vai ruir, porque

hoje deram-me catorze ovos, se comer um por cada jantar, tenho catorze jantares garantidos, mais uma laranjas que a velhinha me ofereceu, poderei dizer que

hoje até que nem foi um dia assim tão horrível, chato, não, não,

é impossível viver-se assim, não concordas comigo?)

Nós aguentamos, nós somos como os plátanos, na minha terra adoptiva existe um plátano com cerca de cento e cinquenta e sete anos

E ele

Aguenta, e ele, e ele tem aguentado tudo, tormentas, tempestades, velórios irrisórios, vestimentas de areia, ditaduras, e omissões marítimas, e ele

Aguenta, sempre, hirto, um pouco obeso, é normal para a idade, mas tirando isso

Aguenta, tudo,

(meia dúzia de gargantas contra as lajes do vento, três ou quatro mãos arremessando pedras da calçada na direcção da casa amarela da rua escura que tem uma árvore caquética, com dois ou três bancos de jardim, envelhecidos como o povo, como os barcos, como os pássaros que assistem pacientemente à ditadura do dinheiro, morre-se, matam-se, suicidam-se nuvens não percebendo que o futuro é uma sepultura com pedra mármore em cima, e dizem que o futuro somos nós

nós, quem?

os esqueletos recheados de fome?

ou

os vampiros da morte, os pedintes novos caminheiros caminhando sobre as rodas circulares das ameixas em flor, hoje foram catorze ovos, e amanhã? E se amanhã não existir amanhã? Porque o peru deixou de ser caseiro, ou

Porque as batatinhas deixaram de ser caseirinhas, e das nuvens, nem água, nem incenso, nem

não

nem as planícies dos triângulos azuis que voam sobre as tardes de neblina, tenho vergonha mãe, dizias-me tu quando calçavas as botas com os dentes de fora, de beiços aguçados, ou

tenho vergonha mãe

quando as calças tinha as joelheiras rotas, e tínhamos o couro que servia como remendo e como adereço,

e),

Não sei, diziam-me que aqui havia uma ilha com rochas que falavam, juro, percorri todas as montanhas e rochas nenhumas, quanto mais falarem, e como precisávamos de conversar, olharmos-nos, os meus olhos nos teus olhos, que confesso e não me leves a mal, nunca soube de que cor são, digo-o, para mim passam a ser encarnados com bolinhas brancas, e hoje

Catorze ovos, caseiros, catorze jantares assegurados, laranjas para sobremesa, música, e que nunca nos faltem as pilhas para o rádio, nunca

Porque sem música

Morríamos, deixávamos de dançar sobre as cristalinas ondas de sono, e tu vinhas a perceber que a noite é uma mentira com cortinados de luar,

(não sei o que faça, não sei se amanhã terei força para me erguer, reerguer, gritar, chorar, e acredita, estou calmo, não estou nervoso e não sinto a falta dos cigarros, mas

hoje

e amanhã?

e

depois de amanhã?

Não sei

talvez cresçam e floresçam as inventadas flores que colocamos sobre a pedra mármore das velhas e novas sepulturas, com janelas, com clarabóias, e enxadas de vidro nas mãos calejadas dos homens vestidos de árvores, com três ou quatro pássaros poisados na cabeça, esse homem, esse desgraçado homem,

é ele

sou eu)

Adormeci um dia sem perceber que as manhãs são mesas de madeira com toalhas de plástico; como está tudo isto?

Uma merda, uma grande merda.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

As ardósias palavras dos teus seios

Francisco Luís Fontinha 5 Jan 13

Perpétuo silêncio de luz à espera das almas sem destino, uma paragem de eléctrico semi-nua cambaleia entre as sombras que a cidade constrói com os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, e de longe vinham até nós os sons melódicos de um saxofone em solidão, era verão, era sábado, e a tarde começava a evaporar-se nas palavras que escrevíamos sobre os teus joelhos esqueléticos onde poisávamos um caderno com um capa dura, grossa, com desenhos de flores, e marés e árvores com pássaros e os cabelos de ti nos tentáculos dos poemas que íamos construindo, emendávamos, riscávamos, voltávamos a reinventar as palavras, até que chegava a noite, e ele

E eu, eu pegava na tua mão débil, finíssima como os ramos de laranjeira que tínhamos no quintal em trás-os-montes, tão longe, a lareira, os livros, o sino da igreja quando dormíamos sossegadamente dentro dos lençóis de insónia, e amanhá era domingo, ouvíamos o sino, revoltavas-te contra a saudade, o amor, a paixão, e nunca gostaste dos meus barcos de papel, talvez porque te faziam lembrar o que era a morte, a partida, sem regresso, e eu, eu pegava na tua mão e levava-a até aos meus lábios perdidamente absorvidos pelos cigarros, e tu

Tens de deixar de fumar,

E eu, continuo a fumar cigarros invisíveis, e eu, eu sento-me no banco onde nos sentávamos, puxo de um cigarro imaginário (porque hoje não cigarros) e conto os pássaros disfarçados de barcos que correm dentro dos meus olhos, e pergunto-me

Tens de deixar de fumar

Porquê?

E passaram mais de vinte e cinco anos, o perpétuo silêncio de luz à espera das almas sem destino, uma paragem de eléctrico semi-nua cambaleia entre as sombras que a cidade constrói com os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, e de longe vinham até nós os sons melódicos de um saxofone em solidão, era verão, era sábado, e a tarde começava a evaporar-se nas palavras que escrevíamos sobre os teus joelhos esqueléticos onde poisávamos um caderno com um capa dura, e culpavas Einstein pelo nosso afastamento

A culpa é da curvatura do tempo-espaço, e eu, eu acreditava que sim, ciclicamente, e nunca gostaste dos meus barcos de papel, talvez porque te faziam lembrar o que era a morte, a partida, sem regresso, e eu, eu pegava na tua mão e levava-a até aos meus lábios perdidamente absorvidos pelos cigarros, e tu

Sentia a tua mão nos meus seios, e ias descendo, descendo, sabia-te dentro do meu púbis de areia, e o mar começava a alimentar-se de mim, prenunciava grunhidos sons, e ao longe os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, e vinham até nós os sons melódicos de um saxofone em solidão, era verão, era sábado, e a tarde começava a evaporar-se nas palavras que escrevíamos sobre os teus joelhos esqueléticos onde poisávamos um caderno com um capa dura, grossa, com desenhos de flores

Porquê

Tens de deixar de fumar,

E eu, eu pegava na tua mão débil, finíssima como os ramos de laranjeira que tínhamos no quintal em trás-os-montes, tão longe, a lareira, os livros, o sino da igreja quando dormíamos sossegadamente dentro dos lençóis de insónia, e tu

Eu sentia o sofrimento árduo dos teus lábios acabados de regressar, trazias nas mãos uma punhado de areia húmida, e na boca escondias o silêncio amor que a paixão sibilou nas carcaças apodrecidas dos peixes que viviam nos lençóis nossos que do jardim cheirava a incenso, alecrim, mirra, oiro falso, alquimia, líamos Proust, e sabíamos que

E deixei de fumar,

E sabíamos que todos os plátanos um dia, vinte e cinco anos depois, ruiriam, como ruíram os alicerces de todos os crucifixos de prata

Sentia a tua mão nos meus seios, e ias descendo, descendo, sabia-te dentro do meu púbis de areia, e o mar começava a alimentar-se de mim, prenunciava grunhidos sons, e ao longe os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, dos poemas,

Morreram, como morrem todos os crucifixos de prata que entram na minha vida nocturna com sabor a mar e desejos de luas com pedaços de laranja, sonhos, e pipocas quando ligo a máquina das imagens, e apenas sombras, pretos, brancos, os riscos, os riscos crucifixos de prata que a melancolia escreve nas ardósias palavras dos teus seios.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

O periscópio do atum livro ao amor

Francisco Luís Fontinha 1 Jan 13

Roubas-me o sono, os sonhos, a vida de um miserável caminheiro, roubas-me as mãos e as palavras de pergaminho que o meu querido avô deixou ficar em cima da mesa na sala de jantar, gritavas comigo, roubaste-me as sanduíches de atum que estavam embrulhadas em papel de alumínio, a nota de cem escudos transformada em tubo com acesso ao centro da terra, roubaste-me

Roubas-me a clareza das imagens a preto e branco, pego nos óculos, abro-o e cessa em mim a transpiração, deixo de ter voz, deixo de ter cabeça com cabelos castanhos, deixo de ter olhos verdes, roubaste-me o sono, os sonhos, as imagens,

Um livro de atum,

E começava a pingar um líquido castanho, espesso,

Ouvia as tuas garras de aranha nos meus braços de arame quando o esqueleto da morte rondava a janela da sala de jantar, pegava nas sanduíches de atum, retirava-lhes religiosamente o papel de alumínio, e começava a pingar um líquido castanho, espesso, frio, vómitos, cansaços muitos, poucos, espesso

As imagens de ti,

Roubaste-me e roubas-me o sono, os sonhos, a vida, roubaste-me o jardim onde ela ao final da tarde se sentava, pegava num livro, folheava-o e estava ali até que caísse a noite, acordassem as estrelas, e todos os sorrisos da aldeia,

O nosso querido avô deixou ficar em cima da mesa na sala de jantar, gritavam connosco, roubaram-nos as sanduíches de atum que estavam embrulhadas em papel de alumínio, a nota de cem escudos transformada em tubo com acesso ao centro da terra, roubaram-nos

Os livros com sabor a uvas Moscatel,

As imagens de ti,

Espesso, áspero, cinzento, e notava-se uma saliência esquelética

Um livro de atum,

Nas pálpebras da lua, roubaste-me e roubas-me o sono, os sonhos, a vida, roubaste-me o jardim onde ele ao final da tarde se sentava, pegava num cigarro, acendia-o e estava ali até que caísse a noite, acordassem as estrelas, e todos os sorrisos da aldeia,

Amo-te sabes?

E nunca soube que os livros de atum eram embrulhados em papel de alumínio, espesso, castanho, pingava, ao cair a noite sobre nós, abríamos todas as janelas do jardim, sentíamos os plátanos de braços abertos à procura dos tentáculos de xisto com pequenas rosas encarnadas, roubei rosas para ti, escondeste-as

Dentro do livro de atum, era tarde, descias as escadas do sonhos, e tinhas acabado de perder o sono nos rochedos junto aos correios, pegavas-me na mão e

Gosto de ti sabes?

Nunca soube, espesso, castanho, a nota de cem escudos transformada em periscópio, e percebi que era isto o verdadeiro amor, transformada em tubo com acesso ao centro da terra, roubaste-me

Os livros com sabor a uvas Moscatel,

As imagens de ti,

Espesso, áspero, cinzento, e notava-se uma saliência esquelética

Um livro de atum, que deus o tenha, Amo-te sabes? Gosto de ti sabes?

Um livro de atum,

E começava a pingar um líquido castanho, espesso, e juro que não sabia, e juro que deixei de acreditar nas palavras embriagadas, deixei de acreditar nas sanduíches de atum que o nosso avô deixava ficar na sala de jantar em cima da mesa de vidro, um homem gordo dentro de uma caixa de madeira sorria-nos, tu

Tenho medo,

Amo-te sabias?

Nas pálpebras da lua, roubaste-me e roubas-me o sono, os sonhos, a vida, roubaste-me o jardim onde ele ao final da tarde se sentava, pegava num cigarro, acendia-o e estava ali até que caísse a noite, acordassem as estrelas, e todos os sorrisos da aldeia,

Amo-te sabes?

Espesso, áspero, cinzento, e notava-se uma saliência esquelética

Nas faces da lua.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

A solidão dos plátanos

Francisco Luís Fontinha 18 Fev 12

Finge-se de morto – O Poema

Quando poiso a caneta invisível na sua mão

E olho-o e ele olha-me – O poema

Seminu na garganta do cansaço

À mercê dos olhos de uma árvore

Longe da janela

Onde desaparecem as escadas em direção ao céu

E erguem-se mandibulas nas cores das estrelas

 

Crescem poemas na solidão dos plátanos

E num jardim imaginário

Descansa a solidão

No desejo das palavras

 

Finge-se de morto – O Poema

Quando poiso a caneta invisível na sua mão

E olho-o e ele olha-me – O poema

 

Que sobejou das minhas noites de insónia.

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