Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

31
Mar 20

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Os livros dançam na paixão da manhã,

Envidraçada tempestade de areia,

O menino, sorri,

Canta canções de areia,

Grita,

Chateia.

O menino no circo,

De livro na mão,

Escreve um sorriso,

No chão,

Brinca, brinca com o livro de areia,

Não grita,

Agora,

Mas chateia.

O menino dos calções,

Correndo junto ao rio,

Em cio,

Em cio como as lâmpadas de néon.

Vende livros à porta da igreja,

Arrecada uns tostões,

Vai para o mar,

De bandeira na mão,

Deita-se na areia,

Já não chateia,

O menino dos livros,

Enquanto as gaivotas cantam,

E também elas gritam,

Canções de areia.

O menino está calmo,

Sereno com a tempestade,

Brinca, brinca na saudade,

Sem perceber,

Que nos livros,

Onde quer escrever,

Já não sonham;

Apenas brincam em canções de areia…

Nas canções de sofrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

31/03/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:18

28
Mar 20

O tempo que passa,

Desassossega o desespero,

Finto a vaidade,

Perco o emprego,

Vagueio na distância,

Ilumino-me,

E, perco-me no cansaço dia.

Tenho pena,

Daqueles que por lá passaram,

E, desavergonhadamente,

Lá continuam,

Esperando as pedras que caiem do silêncio,

Aos poucos,

Em cio,

Os pássaros loucos,

No desvaneio da solidão.

O tempo passa,

A fome aperta,

Neste desespero acontecimento,

Dos novos marinheiros,

Entre sexos e chapas de zinco,

O rio, comem-me,

Quando a maré se abraça ao cansaço.

Todas as vezes, algumas, o tempo passa,

O mar envaidece-se de sonolências madrugadas,

Calcárias manhãs de Primavera,

Ao deitar,

Sobre o travesseiro da insónia,

Esqueço-me de acordar,

Tomo café, todos os dias,

E, vejo no jornal, a minha foto,

Necrologia,

Perdidos e achados,

Despeço-me,

Até logo,

Abraços.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

28/03/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:26

21
Mar 20

Conheci a puta de uma laranja assassina.

O gesto de coçar os testículos,

Quando o Rossio entre orgasmos e gemidos,

Traz o cansaço,

Os berros,

E, os cubículos.

O restaurante, encerrado.

As putas em delírio,

Sem clientes,

Passam fome,

Deveras,

Quando a aldeia acorda.

E eu, aqui sentado,

Fumando cigarros de haxixe, toco clarinete,

Bombo,

Punhetas a grilos,

E, afins.

Se te podes revoltar, revolta-te,

Come tremoços,

Mija contra os postes de electricidade,

Vem-te,

Vai-te,

E fode-te,

Ao pequeno almoço.

As laranjas assassinas,

Na marmita do tesão,

O foda-se,

Então?

Ai Senhor,

As putas em delírio,

O cansaço delas,

Nas mãos calejadas do centro de massa…

A equação do caralho,

Lacrimejado,

Entre paredes,

E dias de desassossego.

Por isso não esqueço,

A maldade,

O sumo da laranja,

Quando assassina o sexo.

Morre o tesão;

Fodam, fodam, que agora é de graça,

E não digam a ninguém,

Contra os rochedos,

Marchar, marchar…

E, depois,

Não se esqueçam de encerrar a janela,

A fechadura,

Porque às vezes, parece,

Mas não o é,

Sempre, às escuras.

Faltou a luz,

Esqueci-me de pagar a electricidade,

Foda-se,

Vou mijar contra o poste,

E se não gostarem,

Acabou.

Fim.

Fodi-me.

Fui assassinado por uma laranja.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

21/03/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:00

11
Mar 20

O tempo silencia os teus lábios de cereja adormecida,

Quando a nuvem da manhã,

Poisa docemente no teu sorriso;

Há palavras na tua boca,

Que absorvo com saudade,

E, nada me diz, que amanhã será uma manhã enfurecida pela tempestade.

Subo à sombra do teu olhar,

E, meu amor,

O cansaço da solidão deixou de acordar todas as manhãs.

Fumamos cigarros à janela,

Dentro de nós um volante de desejo,

Virado para a clarabóia entre muitas janelas,

Portas de entrada,

Escadas de acesso ao céu,

E, no entanto, o fumo alimenta-nos a saudade,

Porque lá longe,

Um barco de sofrimento, ruma em direcção ao mar.

É tarde,

A noite desce,

O holofote do silêncio, quase imparável, minúsculo, visto lá de cima,

Ruas, caminhos sem transeuntes, mendigos apressados,

Vagueando na memória.

STOP. O encarnado semáforo, cansado dos automóveis em fúria,

Correm apressadamente para Leste,

Nós, caminhamos para Oeste,

E, nunca percebemos as palavras que as gaivotas pronunciam,

Em voz baixa,

Com os filhos ao colo,

Sabes, meu amor?

Não.

Amanhã há palavras com mel para o almoço,

Dieta para o jantar,

E beijos ao pequeno-almoço;

Gostas?

Das nuvens da manhã?

Ou… dos pilares de areia que assombram a clarabóia?

Nunca percebi o silêncio quando passeia de mão dada com a ternura,

De uma tarde junto ao rio,

Ele, folheia um livro,

Ela, tira retractos aos pássaros,

E, porque te amo,

Também vagueio,

Junto ao rio,

Sem perceber o meu nome,

Que a noite me apelidou,

Depois do jantar,

Numa esplanada de gelo.

O ácido come-me, a mim, às palavras, como a Primavera,

Num pequeno quarto de hote,

Entre vidros,

Livros,

Palavras,

E, desenhos.

(aos depois)

Nada.

Brutal.

Os comprimidos ao pequeno-almoço.

Fim.

Amanhã, novo dia, nova morada, beijos,

Cansaços,

Abraços,

E, portas de entrada.

O amor é luz.

O amor são flores, árvores e, pássaros.

E pássaros disfarçados de beijos.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

11/03/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:47

24
Fev 20

Acordava do sono emagrecido,

O homem da nuvem embriagada,

Cansado,

Perdido,

E, reclamava,

E, gritava,

A palavra enfeitiçada.

E, hoje, nas camufladas ruas da cidade esquecida,

Embrenhado na poesia, a canção do adormecido,

O homem, cansado, denegrido,

Escreve sem ânimo,

Desiludido…

Dos alicerces envergonhados.

Rezam pela sua alma,

Coitado,

Sem nome,

Degolado pela tempestade,

O homem, o mesmo homem, o cansado,

Pegas nas palavras da reza em seu poder,

Desorganiza-se,

Veste-se de negro,

Negro, negrito, negrinho,

Como o gato do vizinho,

Dançando na eira das espigas adormecidas.

As sombras do silêncio,

A alvorada da sinfonia que jaz na ribeira,

O rio, em delírio,

O rio, desconectado da vida,

E, corre,

E, dorme,

Nas almas do mar.

O mar tudo engole, e, tudo mastiga,

Pessoas, lixo, palavras, o vento…

Uma laranja, sofre,

E, vive,

E, morre,

Dentro da laranja adormecida.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

24/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:57

16
Fev 20

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Negrito, negrito,

Grito,

Gato,

To,

Miau.

Negrito,

Passeia-se pelo destino,

Desenha no pavimento,

Um grito,

Ou silêncio de menino.

Negrito, negrito,

Quando o cansaço acorda,

Corda,

No pescoço do periquito.

Negrito, negrito,

Assobio,

Matinal alvoroço,

Em fastio,

O tio,

Demãos no bolso.

Negrito,

Negrito, pois então,

Calma, calma companheiro,

Que ele, o gatito,

Não é difícil de passar a mão.

Ai, negrito,

Então, pois, é negrito…

Finge-se de morto,

Morto morrido,

Gato, gato vadio,

Vadio de ter sentido,

No pulso,

Nas mãos,

A espingarda da loucura,

Dura, negrito, dura,

Sem perceber que há um grito,

Uma palavra na ternura.

Negrito, negrito,

Negrito,

Guito,

Guito.

Negrito.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

16/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:17

14
Fev 20

Uma rosa,

Rosa,

Rosa,

No teu corpo,

Corpo,

Corpo, rosa.

Um sorriso,

Riso,

Palavras,

Lavra,

No poema,

Ema,

Riso,

Rosa,

Cama.

Um silêncio,

Lêncio,

Algures na madrugada,

Ugada,

Ada…

Uma pedra,

Pedra,

Nas palavras,

Lavras,

Quando acorda a noite,

Noite,

Oite…

Uma rosa,

Rosa,

No amor,

Rosa,

Mor,

Flor,

Lor,

Dor.

Uma pirâmide de giz,

Na ardósia nocturna da serpente,

Mente,

Ente.

Do ponto,

Onto,

Nada.

Nada, de mim.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

14/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:42

09
Fev 20

A rua deserta, imune ao silêncio das pedras,

O cansaço das árvores, quando desce sobre a terra a soldão nocturna das acácias em flor,

Um automóvel vomita lágrimas de fumo,

Uma criança brinca na sombra dentada da tarde,

E, mesmo assim, as flores dormem nos abstractos muros da insónia.

É tarde,

O relógio emagreceu com o tempo,

A tempestade de areia, silenciada pelas pedras em silêncio,

Que a madrugada faz florescer,

Acordam as trombetas,

As árvores, tombam à sua passagem,

Como soldados rebeldes,

Como espingardas revoltadas,

Com os homens,

Como os homens.

A noite alicerça-se aos candeeiros do medo,

Como as pedras do silêncio na manifestação junto ao rio,

A revolta contra a noite,

As nuvens emagrecidas, tontas, derramas as suas lágrimas nos arrozais,

Sem em delírio, sempre em manifestação, os homens, as mulheres,

Contra o silêncio das crianças,

Que brincam,

Que brincam na eira do milho amarelado pelo cacimbo,

O cão lateia, chama pelo dono,

Ao fundo,

A aldeia em chamas, lágrimas de prata,

Quando toda a cidade envenenada pela amargura,

Sente, sofre, a desgraça da ditadura…

Como é lindo ser pedra em silêncio,

Lápide ao cair da noite,

Palavras mortas,

Palavras tontas,

Que o menino escreveu, nas paredes da fragrância, deixando ao acaso, um caderno assassinado pelas quadrículas lamentações.

O tempo se esquece,

O almoço na mesa,

A fome de palavras, dos livros enamorados pela madrugada.

Sinto. Sinto-te neste labirinto de insónias.

Ao deitar, todas as drageias.

Que as areias alimentam.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

09/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:45

03
Fev 20

O regresso nunca mais.

A terra húmida, depois das lágrimas da tarde,

Ficou lá, no outro destino do menino dos calções.

Todas as sombras, choram, ditam palavras aos esqueletos de silêncio,

Que as mãos, trémulas, seguram, enquanto cai a noite,

O corpo, levita, desassossega na madrugada,

Sente-se o vento, negro, prateado, nos lábios do Diabo,

O regresso…

Nunca, nunca mais,

Porque a solidão namora as flores em papel, do jardim imaginário.

E o menino, com o tempo, cresceu.

Um relógio de luz, quando acorda o menino,

Alicerça-se nos braços lânguidos que o espaço alimente,

Dos calções, nada, nem a cor se aproveita,

Talvez, as árvores, as árvores plantadas por ele,

Hoje, nada, como os calções,

Pedaços em madeira, trapos, lágrimas desajeitadas…

Tudo, tudo morre, naquela terra prometida.

O mar, enfurecido, sacia-se nas rochas metamórficas do cansaço,

Um barco, espera pelo menino dos calções,

Estaciona-se junto à cidade,

Homens, marinheiros, mulheres, sem fazerem nada,

Espera que regresse o menino,

De longe,

De nada,

Ninguém.

O regresso nunca mais,

A terra húmida, depois um finíssimo fio de nylon,

Procura na multidão da cidade, o menino prometido,

Da terra sonâmbula,

Que o viu perder-se,

No meio do capim.

Machimbombos tropeçam nas finas lâminas da saudade,

Porque apesar de tudo, sempre, o menino, viveu na saudade,

De regressar, um dia,

À sua cidade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

03/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:09

02
Fev 20

E, agora? O que será de nós depois da saudade;

Pertenciam-lhe as palavras invisíveis das marés de prata.

A boca mergulhava na ínfima madrugada do silêncio,

Descia à cidade, quando acordava a noite,

Pegava num pedaço de sombra,

Agachava-se no pavimento húmido da solidão…

E, gritava palavras de amor.

E, agora? Que a tempestade regressou de ontem,

Traz consigo os dois cansados cadáveres da única memória que lhe restava,

Os homens entre guerras e coisas simples, banais,

Percorriam as ruelas sem saída, suspendiam pinturas nas janelas do horror,

Para que as crianças conseguissem adormecer,

Nesta cidade de “merda”, sem dormitórios, sem palavras abstractas,

Que pertencem aos livros de poesia.

O corpo arrefece sobre a lápide fria da manhã,

O silêncio vem em direcção ao peito,

Como uma flecha, e, o sangue corre para os canaviais…

Tinha medo da saudade,

E, agora?

O que será de nós, depois da saudade, quando alguém procura o corpo amachucado pela violência dos gritos do homem de chapéu negro,

Seu nome Chapelhudo, vestido de pássaro nocturno,

Quando as palavras emergem e, tudo à volta morre, extingue-se em finíssimos pedaços de carvão,

O desenho acorda,

Mergulha na tela da saudade,

Sempre ela, a saudade dos dias, da noite, dos candeeiros a petróleo…

E, agora? Nada.

Apenas um sorriso,

Flácido,

Triste,

Porque sim;

Cansado da vida.

Chapelhudo, morre. E todas as palavras do menino branco.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

02/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:04

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