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Cachimbo de Água

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Que fazem os lobos na minha cidade?

Francisco Luís Fontinha 11 Nov 13

foto de:A&M ART and Photos

 

Sei que me esperam a cada esquina da cidade, existem placas sinaléticas com o meu nome espalhadas pelas imensas ruas da cidade, obedeço e descubro que sou filho da cidade, obedeço e descubro que vivo clandestinamente na cidade, oiço-os, sinto-os galgarem os gradeamentos dos quintais de arame, sei que são eles porque o cheiro que chega a mim diz-me que são ele e pergunto-me

Que fazem os lobos na minha cidade?

Espero impacientemente o eléctrico para Belém, entre o vir e o desistir, eu ganho-lhe e antes que ele venha... desisto, começo trôpegamente e arrefeço e começo a extinguir-me conforme as sombras que a cidade constrói nas janelas envidraçadas dos táxis embriagados quando saem dos bares de Cais do Sodré, sinto-me não sentir as mãos que me acompanham, sinto-me vaguear como um louco nas cânforas lâmpadas dos candeeiros cintilantes da noite sem sucesso, oiço-os e tenho-lhes medo

Pergunto-lhe e ela responde-me que

Os lobos são filhos da cidade...

Eu paro e repentinamente imagino-me também um lobo, pois sou filho da cidade, pois... logo sou um lobo, solitário, vegetariano procurando os velhos quintais que aos poucos vão morrendo nos arredores da cidade, sinto-me voar sobre os meninos e meninas que brincam nos parques infantis, sinto-me voar sobre os lobos que fazem amor nas fina areia da praia, também ela

Filha da cidade,

Mãe dos lobos, minha mãe, sinto-me perdido dentro de um fino buraco que uma dessas crianças que brincava na areia fez, começo a descer, começo a acariciar-lhe as coxas encostas dos socalcos mergulhados no Douro, sinto-me a entranhar-me nos seios do pôr-do-sol quando há muito partiram as crianças que fizeram o buraco onde me encontro aprisionado, grito pelos lábios do desejo, e sinto a minha mão abraçada à cannabis língua dos soluços depois de acordarem os orgasmos do fumo transversal que também como eu, voam sobre a cidade, que tal como eu

Filhos da cidade,

Sinto os lobos vergarem-se quando o vento sussurra ao ouvido do púbis em cio, a cidade embrulha-se no clitóris da saudade, há momentos de silêncio, há solidões disfarçadas de insónia e mesmo assim, eles, dizem, que,

Ele... filho da cidade

Ele... irmão dos lobos e filho da praia,

Desisto do eléctrico, vou dançando pelas pedras das calçadas e eu descalço, e oiço-os, e oiço-os como martelos pneumático salpicando carne em sexo nas ruelas mal iluminadas, finjo-me de morto, finjo-me de sonâmbulo e eles abandonam-me dentro do cobertor dos sonhos, desisto do eléctrico, desisto dos corpos graníticos dos jardins de pedra, e sobrevoo como uma gaivota desnorteada o teu cabelo de papel com bolinhas encarnadas,

Ele... filho da cidade

Ele... irmão dos lobos e filho da praia, e sei que me esperam a cada esquina da cidade...

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013

O tempo infinitamente ausente

Francisco Luís Fontinha 22 Out 12

Ernesto F. acreditava nas mentiras envergonhadas que todas as tardes de sábado cresciam entre as amoreiras e as finitas palavras de Teresa que transportava nos lábios o medo do mar, e frente ao espelho da noite, antes de adormecer,

 

- E se o mar me comer, ouviam-se-lhe os gemidos poisados na proa transversal do esquelético poeta que inventava cigarros nas páginas rasuradas do livro de poemas esquecido na casa de banho do sótão sem janelas, e sem janelas não parapeitos, e não parapeitos, não pássaros nas fotografias da madrugada,

 

- um dia assassino todas as canetas de tinta permanente e o papel mata-borrão que me irritam, e sem sentido, fogem nas ilhargas cansadas da morte, Ernesto F. detestava a mentira escrita na ardósia sorridente dos palhaços pintados com acrílicos embrulhados na salgada água da boca da criança perdida junto ao rio encalhado na algibeira do velho Armindo, de manivela em riste, a dar corda ao tempo infinitamente ausente,

 

um dia, um simples dia, tudo e todos vão parar, fim da linha cruzada dentro dos anzóis solidificados que o amor constrói nas plantas imaginadas pelo ciúme do vidro enraizado no peito do crucifixo suspenso na luz abstracta da maré antes da lua mergulhar dentro das coxas fantasiadas de rosmaninho e alecrim doirado, sinto-o-as quando abro o livro dos sonhos e todas as mentiras perfiladas na parada da Ajuda, sobre o céu azul invisível do sofrimento encarnado que as gaivotas deixam cair nas ruas desabitadas de homens vestidos de cacilheiro em círculos no pequeno quarto do sótão,

 

escrevo-te como se fosse hoje o meu último dia, de vida, de sonhos, de prazer, o último de qualquer coisa palpável, o último sorriso, o último adeus quando sofregamente o cavalo de aço em pequeníssimos milímetros desaparece na ponte de madeira envernizada e que toda a vida me perseguiu na clandestina areia do Mussulo,

 

- tão branca mãe, e os castelos de desejo no pescoço frágil da mulher silenciosa e docemente feliz depois de me olhar pela primeira vez embrulhado nos ossos catalogados das janelas da maternidade, tão branca mãe, branquíssima mãe, toda a areia do Mussulo, e os lugarejos de amêndoa às mangueiras de sombra nocturna,

 

os pássaros caiam sobre a terra queimada de Janeiro.

 

(texto de ficção não revisto)

Na insónia do amor

Francisco Luís Fontinha 16 Set 12

O homem com suspensórios

suspenso na insónia do amor

finge fumar cigarros na escuridão da noite

junto a uma flor

perdida

mente

apaixonada entre linhas e veredas

e espera paciente

mente

o amor em forma de pôr-do-sol

o homem escreve palavras na areia invisível da praia...

mas o mar leva-as até ao infinito amanhecer do silêncio

 

quando existe o silêncio

penhorado pelas mãos do homem com suspensórios

suspenso na insónia do amor

 

quando existe o amor sem amor

como as palavras sem palavras

invisíveis

imaginadas

nas arcadas da maré horizontal

mente

escondidas no fim da tarde

na urbe os fantasmas da tua morte

 

o homem transforma-se em outono

desce até ao rio

senta-se sobre um pequeníssimo orgasmo de xisto...

e paciente

mente

vem até ele o amor das clareiras adormecidas

 

o verdadeiro amor.

 

(poema não revisto)

A praia de Luanda

Francisco Luís Fontinha 14 Ago 11

Sara, meu amor (nome fictício),

 

Regresso agora do mar de Luanda, e é tão lindo, meu amor, no céu prendem-se estrelas e na espuma entrou-me a madrugada e na areia uma trapezista sumia-se no cacimbo, abro a janela, um petroleiro abraça-se na mesa-de-cabeceira, e dos teus lábios, meu amor, dos teus lábios vejo o pôr-do-sol,

 

Tenho medo ao mar, minha querida, abraço-me ao pescoço da minha mãe e choro, e grito, e preciso dos teus braços que guardam o meu corpo de barco, enferrujado, velho, cansado,

 

Sara, meu amor (nome fictício),

 

Regresso agora do mar, são 01:45 horas e nas nuvens vejo os teus olhos alicerçados nas planícies do Alentejo, não me perguntes porquê o Alentejo, nunca lá estive, apenas atravessei-o em caminhadas para outros destinos, e nos teus lábios um cacilheiro em roncos acelerados, a ponte foge no horizonte, e do outro lado do rio, do outro lado do rio, meu amor, do outro lado do rio a jangada que nos espera,

 

Sara, Meu amor (nome fictício)

 

Não percebo porque te amo, mas amo-te como se fosses um texto literário, leio-te, sublinho nas tuas costas as silabas engasgadas da manhã, dispo-te e pego nas palavras dos teus cabelos e escrevo o poema que corre na tua boca, oiço o sino que da igreja me cansa nesta noite que acabo de regressar do mar de Luanda, deixo os cigarros na cidade e escondo-me entre os machimbombos doentes, fatigados de caminhar nas ruas e no céu os pássaros de sempre nas tuas mão de hoje,

 

Regresso agora do mar de Luanda, e é tão lindo, meu amor, no céu prendem-se estrelas e da espuma entrou-me a madrugada e na areia uma trapezista sumia-se no cacimbo, e percebo que a vida sem ti não faz sentido,

 

Sara, Meu amor (nome fictício)

 

Amanhã deito a minha cabeça nas tuas coxas, mas hoje, hoje, meu amor, hoje deixa-me recordar o regresso da praia de Luanda…

Hoje não escrevi nada de jeito

Francisco Luís Fontinha 2 Abr 11

Hoje não escrevi nada de jeito. Nada que possa prestar, e não preocupado, tudo o que escrevo não presta mas é a única forma de me manter vivo. Hoje abri a janela que tenho na minha cabeça, e lá fora, no quintal da minha solidão, uma menina sentada num baloiço empurrada pelo vento, e hoje, hoje não escrevi nada de jeito.

E hoje dou-me conta que não tenho jeito para nada, nem para fazer sombra quando emerge a noite no néon da rua, e hoje nada, nada de jeito saiu de mim, e a menina parece um pêndulo a descrever trajectórias nos sorrisos, e o baloiço engasgado no fim de tarde, e a tarde aos soluços depois do lanche, pão com manteiga e leite, e a tarde perdida nas margens das minhas mãos, e eu hoje não escrevi nada, e hoje eu à procura do sol, e hoje não sol, nem tão pouco escrevi… hoje nada de jeito. Eu sem jeito…

Hoje não escrevi nada de jeito. Nada que possa prestar, e não preocupado, tudo o que escrevo não presta mas é a única forma de me manter vivo. Hoje abri a janela que tenho na minha cabeça, e da minha cabeça hoje não saiu nada, debruço-me no peitoril, aponto os faróis do meu olhar para o oceano, elevo a voz na maré, pego numa das mãos, e a tarde perdida nas margens das minhas mãos, elevo em mim o silêncio, alguém me acena do outro lado do mar, quando os meus faróis começam a deslumbrar a curva da terra, e hoje não escrevi nada de jeito, pudera…, nunca escrevi nada de jeito; e às vezes questiono-me, ele questiona-se,

- tenho jeito para quê?

Tenho jeito para quê, perguntam vocês?

- e tu tens jeito para quê?

Jeito para nada dizem eles. E hoje não escrevi nada, e hoje talvez a única coisa válida que fiz…

- diz… diz lá…

Hoje talvez a única coisa válida que fiz fosse sentar-me na sanita, ouvir the Doors e fumar três cigarros seguidos,

- isso tudo?

Eles acham pouco…

Eu, eu resumo o meu dia a um simples cagalhão a boiar na sanita lá de casa…

- uma menina sentada num baloiço empurrada pelo vento, e o vento a enrolar-se nas suas pernas como se ela fosse uma simples roseira que brinca junto à praia, e na praia, na praia ele encostado ao rodapé da sala de estar, um livro na mão, e na cabeça uma janela aberta para o sol…

 

 

 

(texto de ficção)

FLRF

2 de Abril de 2011

Alijó

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