Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

10
Dez 15

Este apeadeiro sem telhado

Sofrido nas frestas e nas ripas e nos pregos

A farsa de um comboio vomitando na noite escura

Palavras

Apitos

E homens de chapéu negro

Inventam uma revolução

Eles gritam

“queremos pão”

Não é crime pedir pão

Não é crime ler com um pão na mão

Crime é sentir a liberdade

Sentada

Numa jaula com grandes de cartão…

Crime é não ter a liberdade desejada.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:25

16
Nov 15

esconde-se o corpo no tapete nocturno da solidão

as cânforas manhãs do desassossego libertam-se das amarras

a liberdade acorda

todas as flores são livres

e todos os pássaros voam sobre os cabelos da alvorada

o olhar da serpente brinca num longínquo quintal abandonado

onde uma criança

também ela livre…

sonha com barcos em papel e estrelas coloridas

o corpo nunca teve medo

a não ser da solidão

que é a única prisão que amedronta o homem sem corpo…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:46

02
Nov 15

Sou refém das minhas palavras

Um prisioneiro sem cela

Um carcereiro endiabrado dando-me porrada

Pancada em mim

Esta vida

De ser

Assim

Sem mim

Abstracto do teu olhar

Sou refém das minhas palavras

Quando estes arbustos pela manhã

Me cumprimentam

Abraçam

E beijam

Pego nos livros teus

E misturo-os com os livros meus

Tudo palavras

De que sou refém

E ninguém

Desta cela prisioneira…

 

Sem ninguém.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:17

14
Out 15

desenho_13_10_2015.jpg

Fontinha – Outubro/2015

 

A estátua que habitava no teu peito

Esta sentada, hoje, numa cadeira sem jeito,

Brinca, hoje, num jardim amarrotado por mãos inanimadas,

Como são tristes todas as madrugadas

E todos os versos do poeta,

Como são tristes todas as manhãs embriagadas

À mesa com um qualquer pateta,

Um imbecil encurralado na noite

Esperando o acordar de um relógio sem alma,

Chora, acredita nas lágrimas do sofrimento,

Chora, e inventa o inferno

No corpo do vento…

 

A estátua… não se cansa de dançar

Sobre a tua pele grená…

Os lábios manchados de sangue,

Os braços entranhados na face de um inocente,

Chora, acredita na liberdade,

Chora, acredita na saudade

Dos ausentes corpos de esferovite,

Grita, grita contra o muro invisível da prisão,

Morre a verdade,

Morre o ditador em pedacinhos de cacimbo…

Rasga o convite

E fica esquecido no tédio limbo…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:46

07
Mar 15

P1010003.JPG

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

habito dentro deste livro inacabado

existo porque gritam as palavras

e os sonhos amargurados

não tenho tempo para olhar o mar

nem percebo o cheiro deste rio envenenado pelo silêncio

um cigarro

mal-educado

apagado

sessenta anos encurralado nestes socalcos sem nome

habito

dentro

do livro inacabado...

 

os tristes sorrisos das lanternas da solidão

vendo-me

vende-se

tudo

nada

coisas estranhas

esta calçada

viva

vivo

apagado

não tenho

o tempo

 

nem a vida

de marinheiro

sou um barco enferrujado

sou o aço triturado pelas mãos de um sábado...

apenas

outras coisas

como as simples janelas de uma prisão

prisão

a prisão

do meu falar...

habito

habitar no teu peito de livro encalhado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 7 de Março de 2015

 

 

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:51

11
Dez 14

Na prisão do “Adeus”

velhas flores são torturadas pelo silêncio da luz,

não existem janelas, não existe uma porta,

frestas,

ou... ou literatura,

lá fora, na rua,

ouvem-se os gritos dos pássaros e das abelhas,

há um subscrito negro onde alguém escreveu...

“para a morte”

as velhas flores não precisam de saber qual é o significado da morte,

elas são velhas flores torturadas...

pelo silêncio da luz,

(e a morte é o anoitecer de cheiros e sons

que só as velhas flores conseguem desenhar

nas húmidas paredes da prisão do “Adeus”)

na prisão do “Adeus”

velhas flores são torturadas pelo silêncio da luz,

não existem janelas, não existe uma porta,

frestas,

ou pedaço de areia com sabor a mar...

e as grades de ferro transformam-se em madrugada vestida de branco.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:01

30
Nov 14

A cidade a arder

quando os teus lábios se entranham nos meus lábios

alguém liga o interruptor da noite

e ela cai sobre os teus seios

como a tempestade

ou... ou a destruição do muro que nos aprisiona

e come a cidade a arder

e as ruas em fuga

para a outra margem

o barco escondido nas tuas mãos

nos leva

e desaparecemos na neblina,

 

A fogueira que há em ti

e faz do teu corpo o aço em delírio

o sino da aldeia nos acorda

e alimenta

e encanta...

como um jardim despido à nossa espera

tenho medo das tuas garras de serpente sem nome

envenenada pela paixão

a cidade a arder...

na cidade com fome

da cidade sem coração

da cidade dos rochedos em liberdade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 30 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:01

26
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

(sou um prisioneiro covarde

sem vontade de fugir

sem vida para viver)

 

sou um pergaminho pássaro que arde na lareira dos sonhos

um prisioneiro covarde

sem vontade

navegando sobre os carris invisíveis da cidade

invento madrugadas

invento sandes de realidade

e algibeiras vazias

sem nada

sou um prisioneiro ambulante

uma roulote desgovernada

em direcção ao mar

em direcção... ao nada

 

sou uma ponte quebrada

uma puta abandonada

 

(sou uma tenda de circo

com palhaços

eu... eu disfarçado de gaja

servindo chocolates com amendoins...)

 

sou um prisioneiro pregado às janelas do inferno

viajo de árvore em árvore

de vão em vão

de cigarro

ao cigarro

sem cigarros

subo as escadas sem corrimão

chego ao sótão

estás tu mergulhada no espelho corneando o cinzeiro de prata

desço

desço às sanzalas de lata

e não consigo derreter as amarras

 

(sou um prisioneiro covarde

sem vontade de fugir

sem vida para viver)

 

sou o alimento dos alimentos

os pólens insaturados dos guindastes que dormem no porto de Luanda

embarco

desembarco

desço

e subo ao sótão dos corneados cinzeiros de prata

abro o postigo com fotografia para a ribeira da tristeza

nua

a beleza alegria correndo como sandálias de gelatinosas geadas de vidro...

e eu fingindo amores supérfluos num cadeado de madeira

e o macaco da vizinha a comer as minhas amêndoas

e eu... eu um prisioneiro covarde sem vontade de partir...

 

chorando subtilezas e pedaços de papel celofane...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 26 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:54

03
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Os desencontros dos navegantes sorrisos

da sua boca o desassossego em preguiça

os meus teus lábios voando sobre as calçadas do silêncio

entre medos

degredos

teus luxos segredos

quando um cortinado se esbanja à janela da solidão

e a tempestade avança contra nós e nos tomba no chão,

 

Os espelhos dos teus seios como coloridas manhãs de Primavera

havíamos plantado árvores de brincar

tínhamos bancos de sentar

como inventada madeira

saltitando nervos dos horóscopos aquários

eu vagabundo

eu imundo... sorrindo cansaços marasmáticos em saliva amanhecer

e oiço a tua sóbria voz no meu peito de xisto,

 

Tinhas na boca a minha boca em papel cremado

sentia a tua língua em poesia escrevendo versos no meu pescoço...

pegava-te na mão dilacerada e esperava pelas tuas doçuras coxas

inventávamos areia sobre os lençóis de linho

e desciam as estrelas sobre os nossos corpos em delírio

coisas em coisas como tinta numa tela encarcerada dentro da prisão dos húmidos desejos

e havíamos esgotado todos os livros e marés de ninguém

e tínhamos um cubículo de fome só nosso... como flores esquecidas na jarra sobre a mesa-de-cabeceira....

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:39

09
Set 11

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011, vinte e duas horas, a condenação a que fui sujeito terminou, ao fim de cinco anos vejo a noite e as estrelas e a lua, e em cinco anos todas as noites desenhava o mar nas paredes da cela, e via os cacilheiros a atravessarem as grades enferrujadas,

 

E em cinco anos de prisão nunca vi o mar, apenas as sombras que se escondiam na minha cama e imaginava ondas recheadas de espuma, e mulheres abraçadas ao pôr-do-sol,

 

Eu deitado sobre as tábuas mergulhadas no caruncho, olhava o teto, e o teto começava a desejar-me, descia e descia e descia, e poisava sobre o meu peito, começava a faltar-me o ar, e cuspia beatas de cigarro,

 

Antes de sair, a Assistente Social abre-me a mão e coloca vinte euros É oferta do estado!, eu pergunto-lhe se é o estado a que isto chegou, ela sorri e diz-me,

 

- O senhor sempre com as suas brincadeiras, respondo-lhe que não estou a brincar Eu não estou a brincar!, E para que preciso eu de vinte euros?, eu precisava de uma casa, comida, roupa,

Vinte euros?, nem tenho onde dormir,

Pois… mas isso é problema seu, responde-me a parvalhona,

Meu problema?

Desculpe minha senhora, desculpe senhora doutora engenheira, mas eu, eu sinceramente recuso-me a passar este portão de chapa zincada,

 

Quero voltar para o meu mar, quero voltar para a minha cama fofinha e de tábuas mergulhadas no caruncho, E depois, e depois como vou dormir sem a comichão dos bichos?

 

O senhor guarda prisional avisa-me que tenho cinco minutos para deixar o estabelecimento comercial, vendem-se papoilas, pedra-pomes, rochas afrodisíacas, migalhas de pão, e não esquecer o Cadillac estacionado junto ao cemitério, o meu avô olha-me, eu olho-o, e a senhora doutora engenheira em gritos histéricos,

 

- Se não sai, se não sai mando chamar a polícia, e eu cá para mim, fixe, porreiro pá, na rua é que não vou dormir,

 

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011, vinte e duas horas, a condenação a que fui sujeito terminou, ao fim de cinco anos vejo a noite e as estrelas e a lua, e sinto um apetite feroz de me deitar sobre as tábuas mergulhadas no caruncho, esticar-me come se fosse uma Cinderela elástica, uma Barbi vestida de homem, olhar o mar que todas as noites fui desenhando nas paredes da cela, olhar as ondas, a mulher abraçada ao pôr-do-sol,

 

E gritar; daqui não saio.

 

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:57

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