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Cachimbo de Água

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Para privatizar, privatize-se

Francisco Luís Fontinha 6 Jun 11

Enquanto descia as escadas sentia a minha sombra pregada na parede, a sala enorme, a distância entre mim e o tecto a aumentar, eu, eu diminuía conforme os silêncios da mesa, na toalha sentia a minha mão caminhar junto aos talheres, a faca, garfo, e dispenso a sopa, detesto, no copo poisava a cristalina água da companhia, uma merda, uma porcaria, para privatizar, privatizar as sombras e os musseques, para privatizar, privatizar todos os cagalhões das condutas subterrâneas, para privatizar, privatizar todos os pobres e sem abrigo, uma corrente entrelaçada nos pés e, e fogo, todos ao mar, e o problema resolvido, para privatizar, privatizar as escadas e todos os ascensores deste país, para privatizar, e a sombra que eu via pregada na parede enquanto descia as escadas já não minha, acabei de ser privatizado, e antes privatizado que lançado ao mar,

 

- Estás esquisito hoje não comeste nada

 

Estou com gases, e a partir de hoje vou deixar de comer.

 

- E depois?

 

Depois, depois fico como a burra do outro, do outro, sim, começou a reduzir-lhe à palha e cada dia que passava a palha sumia-se no estábulo, e um dia, um dia a burra vivia sem comer, foda-se,

 

- Que foi?

 

Agora que a burrinha não dava despesa é que morre. E também eu, aos poucos, vou conseguir viver sem comer,

 

- O outro maluco diz que vive do sol

 

Do sol, qual sol, quando dermos conta já nem sol temos; e até desconfio que Deus deixou de nos pertencer, para privatizar, privatize-se.

 

Publique-se no blog Cachimbo de Água o texto de ficção,

 

Alijó, 6 de Junho de 2011

O autor: Luís Fontinha

 

Sempre este filho da puta a foder-nos a cabeça…

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