Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

25
Jul 17

Uma janela esfomeada

Virada para o mar,

O cansado dia prisioneiro na janela virada para o mar,

Uma janela esfomeada

Na luminosidade obscura da cidade,

Entra um barco em soluços,

Embriagado pelo sal,

Uma janela esfomeada

Na sombra das árvores do quintal,

Um pássaro vestido de janela…

Procurando o cortinado do anoitecer,

A prenda,

O segredo de hoje,

Os indignados de ontem…

Com a notícia de hoje,

O prego enferrujado no “CU” de Judas…

Longe de mim,

Perto de ti…

Uma janela esfomeada

Sem coração,

Recheada de beijos,

Abraços…

E o carrasco enforcado na janela esfomeada,

Virada para o mar…

Termina o Sol,

Nasce a noite nos socalcos do cansaço…

E vai-se vivendo ouvindo as tuas palavras vãs…

O anão,

O eterno anão a “cagar” no deserto.

FIM.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Julho de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:16

13
Jul 11

Francisco,

Sim pai!, promete-me que quando eu morrer colocas as minhas cinzas no mar, Sim pai!, prometo, Prometes mesmo?, sim, não se preocupe, e agora não posso deixar de cumprir a promessa, e o vento levou-me as cinzas, paciência, e ele pensava, tanto faz, cinzas com água ou cinzas com terra, deve ser tudo igual,

 

De boca aberta deixa as pombas comerem a comida, estúpido de cão, tão parvo, e tão parvo, estúpidos de pássaros semeados no meu quintal, estúpidas de pombas que comem os insetos pequeníssimos que poisam no casaco do meu cão, e estúpida esta tarde de Julho,

- Francisco, Regaste as alfaces?, e eu respondo-lhe que sim, Sim pai, reguei!, e claro que me esqueci das alfaces, Porra, eu nem sabia que tínhamos alfaces…,

Temos alfaces, Pai?, junto à bananeira, rés-do-chão direito, Exatamente pai!, desculpe, confundi as horas, Estão regadas, não se preocupe,

- O que eu pensava que eram ervas, afinal são alfaces, meditava o Francisco,

A vida, pai!, O que tem, filho?, Não faz sentido, Percebe?, não, não percebe, não, não percebo, repare, digo-lhe eu, repare, pai, nascer crescer e morrer, E depois?, Que prazer, pai, que prazer tem deus de nos dar vida e depois, e depois, pai, depois voltar a tirá-la?, Isso é muito complicado para a minha cabeça, o  que me preocupa são as alfaces,

- Malditas pombas que comem a comida toda do cão, gritava o meu pai da cama,

Francisco,

Sim pai!, Já foste ao correio hoje?, Sim, pai, E então?, nada, Nada?, sim, pai, nada, hoje não houve correio, Greve?, Não, pai!, ninguém nos escreve, sussurra o Francisco nas meditações no corredor, ninguém, pai, ninguém, só pombas esfomeadas a devorarem a comida do cão, nada mais que isso,

- Nada mais que isso a tarde estúpida de Julho, os malmequeres no jardim que me olham, a corda pendurada nas traseiras da casa, a as alfaces enforcam-se, pai, as alfaces entaladas nas frestas da tarde, E sabe, pai!,

Sim, filho!,

Hoje estou triste.

Porquê, filho?

Pai, desculpe-me!, prometi deitar as suas cinzas no mar, e veio o vento, sim filho, veio o vento e levou-as, penso, não tenho a certeza, as palavras sulfatadas do Francisco, penso que as suas cinzas caíram no chão gretado da terra,

- Deixa lá, meu filho, deixa lá,

Responde-me ele, no mar ou na terra deve ser tudo igual. São cinzas.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:14

12
Jun 11

O cansaço da noite

Abraça-se ao meu peito

Milímetros de sol poisam na minha mão

E sou observado pelo sorriso das cerejas,

 

O perfume alicerça-se-me nas narinas entupidas pelos cigarros

Retiro-a desajeitadamente da árvore suspensa na manhã

E nos meus lábios sinto a sua pele gostosa e macia

Perco-me em minutos, saboreio-a na minha boca,

 

Trinco-a e atiro o caroço contra as nuvens

Penso no rio quando me sentava a contar petroleiros na tarde

E agora percebo que o meu quintal

É um silêncio de navios rumo ao mar…

 

 

Luís Fontinha

12 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:53

11
Mai 11

As ervas não deixam de crescer no meu quintal, já tentei todos os métodos possíveis e imaginários, e mesmo assim, quando acordo, lá estão elas a olhar-me e a berrar nos meus ouvidos palavras de revolta.

 

Com fogo, com as minhas mãos, sachando ou utilizando herbicida, lá estão elas, as ervas, logo pela manhã no meu quintal.

 

As ervas não deixam de crescer no meu quintal e eu vou deixá-las crescer, dou-me conta que não tenho mais força para as combater, baixo os braços, encosto-me a uma oliveira, puxo por um cigarro… e fim.

 

 

Luís Fontinha

11 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:06

06
Mai 11

O Alex em círculos concêntricos à volta de um ponto imaginário, cigarro na boca e braços abertos em gritos histéricos,

- sou um pássaro,

Eu sentado numa cadeira a fumar cigarros imaginários, olhava pela janela, e eu lá fora a brincar com os pássaros junto aos pinheiros, e o Alex à minha volta em voos rasantes, cada vez mais pequeninos… poisava a mão no meu ombro, pegava no cigarro com a mão direita, e,

- sou um pássaro, sou um pássaro e sei voar…

E eu olhava pela janela e ele poisado nos pinheiros de cigarro ao canto da boca, e ele olhava-me e acenava-me, livre, voava, saltitava, e eu sentado na cadeira junto à janela, e eu lá fora a brincar com os pinheiros, e o Alex,

- sei voar e sou livre,

Livre e eu fechado dentro da sala de chuto a contar os cigarros que sobejavam quando eu dormia e o plátano do jardim vinha até mim, poisava a mão nos meus ombros, e eu com dores, o meu esqueleto catalogado e preso com arames, sinto a falta de um osso, não sei se o perdi no corredor ou… talvez na sala de chuto,

- sou um pássaro e sei voar,

E não na sala de chuto, e não no jardim junto aos pinheiros, quando entrei aqui já não o trazia, talvez o tenha perdido junto ao rio, quando os carris se revoltam e desaparecem com a luz do dia, talvez na sala de chuto, quando os cigarros adormeciam na minha mão, dava um salto, e

- foda-se… queimei-me,

Sou um pássaro e sei voar, sou livre…

- Vai-te foder, Alex.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

6 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:52

05
Abr 11

Não tenho árvores no meu quintal

Nem flores no meu jardim

Não tenho luz no meu corpo

Tão pouco chega até mim o luar

 

Não tenho livros para ler

E se os tivesse

Não os lia…

Não me apetece

Escrever

Não me apetece ver o mar

 

Sem árvores no meu quintal

E flores no meu jardim

Vou enfiar-me dentro dos lençóis

Cobrir-me com o jornal…

 

Apetece-me dar pontapés no vento

E cagar…

No quintal

No jardim

Nas árvores

E nas flores…

 

E virar o rabinho para o luar.

 

CUIDADO: o FMI está a chegar…

Cuidado com o rabinho virado para o luar.

 

 

 

FLRF

5 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:29

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