Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

28
Out 14

Os relógios enferrujados

encolhidos nas tristes alvenarias

as janelas escondidas...

no olhar da serpente

 

as estilhas adormecidas

nos pregos dentados

os relógios... os relógios encalhados

em rochedos rendilhados

 

o pólen de um olhar

semeado na escuridão

e os relógios sem fôlego

e os relógios... e os relógios sem pão

 

e a paixão?

matriculada nas putas avenidas

correndo

saltando... os muros embriagados dos ossos embalsamados

 

os relógios...

escrevendo na pele da solidão

horários enlouquecidos...

sem vontade de sonhar

 

sonhar a paixão?

há cadáveres perdidos

na eira da infância...

colchas de linho... suspensas nas árvores tombadas no chão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 28 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:45

06
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

acreditava que habitavas as perfumadas flores de papel

tínhamos dentro de nós uma aldeia em combustão

sentíamos os impulsos das revistas sobejantes dos quiosques de cartão

líamos coisas desinteressantes

coisas... coisas supérfluas que depois de mortas

acreditavam

como eu acreditava

que habitam nas flores perfumadas de papel

os velhos espantalhos de vidro

com chapéu de palha

uma árvore rangia

e sentíamos-lhe o rosnar dos pulmões nas ardósias tardes dos cigarros em delírio...

livros com desenhos abstractos

e palavras inacessíveis à nossa voz

as mãos tuas traziam às minhas mãos de xisto esmigalhado as tristes sílabas da madrugada

acreditava

acredito?

não mais... que existem dias de tédio

horas de sofrimento

relógios de pulso cancerosos porque alguém os decretou como tal...

as horas passam

os dias afundam-se no cais transversal das salinas em pastel...

livros

com... abstractos desenhos e pedaços de pólvora seca para deitarmos na lareira das lágrimas encarnadas

o jornal acaba de morrer

no caixão poucas ou nenhumas fotografias a preto-e-branco para alicerçarem o esqueleto à madeira de mogno

eu acreditava

acreditava nas tuas minhas mãos de porcelana envenenada e no entanto o relógio...

o cabrão do relógio... também ele morre

também ele... foge de nós como todos os homens de pedra do jardim dos angustiados camafeus

a lareira recorda-nos as fogosas noites de neblina

embrulhados na vodka da Ajuda

descíamos a Calçada... e nada

gritávamos... e nada

e a ponte dilacerada... adormecia

e sonhava que... acreditava nas perfumadas flores de papel

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:03

14
Dez 12

Poucas coisas me importam,

não me importando sequer que um rio de sumo de laranja corra na minha aldeia, não me importando sequer que metade de uma laranja que com o seu sumo serviu para alimentar o rio que corre na minha aldeia, não me importando sequer que eu viva numa aldeia, não me importando que eu habite numa cabana longe da minha aldeia, no cimo da montanha, poucas coisas me importam

 

- o meu filho deixou de se importar com as sombras dos pinheiros de Carvalhais, o meu filho deixou de se importar com a eira de Carvalhais, onde se sentava sobre as lajes graníticas a ouvir o telintar dos pássaros dentro da sombra dos pinheiros, o meu filho, que deus o tenha, deixou de se importar com os livros e com as coisas, que coisas mãe?, coisas tuas, coisas minhas, coisas dos teus irmãos, coisas que ficaram na eira de Carvalhais, onde estão os meus irmãos?, coisas, coisas dele,

 

coisas que pouco me importam, importo-me com a noite e com a cidade arrumada e sempre com os lençóis esticados, importando-me importo-me com as laranjas que depois do sumo são o rio onde me sento no final da tarde a contar as traineiras que vêm e vão, subtraio as que não regressaram, e também eu

 

- não quero regressar, e nunca gostei de relógios de pulso, de relógios de parede, das igrejas com relógios e sinos, e detesto os relógios de sol, e se eu pudesse

 

sempre noite, sempre geada, sempre uma cidade incendiada pela saudade dos arrepios que o vento transporta do outro lado da ravina, a ponte em madeira está doente, caquética, precisa de drageias para adormecer e de vitaminas para engordar, está grávida, dizem que é uma menina e deve, possivelmente, talvez

 

- nascer em Janeiro,

 

talvez de vitaminas, radiografias ao pulmão esquerdo, o senhor está uma lastima, eu doutor? Não o vizinho do terceiro esquerdo, claro que é o senhor,

 

- nascerá em Janeiro, parabéns,

 

mas eu bem doutor, deve ser engano, só pode ser engano, até engordei

 

- estás mais gordo meu querido filho,

 

vê? Percebe agora porque poucas coisas me importam? Coisas que pouco me importam, importo-me com a noite e com a cidade arrumada e sempre com os lençóis esticados, importando importo-me com os pinheiros adormecidos em Carvalhais e extintos com a passagem das horas

 

- percebe agora porque detesto todos os relógios doutor? Não sei, talvez, o pior é respirar, dói-me Às vezes, outras importo-me com o sumo de laranja da metade da laranja esquartejada pelas mãos da minha mãe, Queres com açúcar?, e os meus irmãos, não percebo, percebo, fugiram, morreram, desertaram antes de nascerem, abaixo-assinado, nós os filhos da mãe

 

vê doutor, o que será deste desgraçado sem mim...

 

- importo-me não me importando que as letras se vistam de números, e depois em relógios, um livro transformar-se-há em guilhotina amovível com o ponteiro dos segundos bem afiado, e afianço-lhe dona Amélia que o seu menino está bem dos pulmões, algumas drageias e nada de relógios de pulso, nada, absolutamente nada, abstinência de relógios, e lá um copito às refeições tudo bem, não é importante,

 

vê doutor, o que será deste desgraçado sem mim...

 

- mas eu bem doutor, deve ser engano, só pode ser engano, até engordei

 

diz-lhe mãe!,

 

- não me importo mas importo-me com as acácias sem dono que caminham durante a noite na cidade proibida, não me importando mas importo-me que amanhã tenhas lágrimas nos teus olhos, porque quando os meus irmãos desaparecem depois de cair a noite, a dona Amélia

 

diz-lhe mãe!,

 

- vê doutor, o que será deste desgraçado sem mim...

 

cuidado com os relógios, principalmente os de pulso.

 

 

(texto de ficção não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:10

07
Abr 11

Abate-se sobre mim o pesadelo

Foge de mim a luz

Vem até mim a escuridão

Emerge em mim o desejo

 

De adormecer e não acordar

Ou não adormecer

E não acordar

Ou acordar numa outra dimensão

 

Dentro de um buraco negro

No infinito

Noutra galáxia

Com outro tempo

 

Sem dias

Sem semanas ou meses

Outro tempo

Sem relógios parvos adormecidos numa parede

 

E de noite

Abrem as goelas

Gritam-me as horas…

Parvos

 

Abate-se sobre mim o pesadelo

Foge de mim a luz

Vem até mim a escuridão

Emerge em mim o desejo

 

E eu sentado à beira mar

Eu à espera que me leve a maré

Sem tempo

Sem relógios na parede do meu quarto…

 

 

FLRF

7 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:35

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