Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

08
Out 12

As outras coisas que a noite constrói

ou

à noite o vento come as nuvens do sonho

o coração de açúcar dói

desgraçados todos os pássaros sem nome

residentes na penumbra madrugada

hoje

hoje lembrei-me das tuas palavras do poema destruído

pelas manhãs de inverno

o rio

ou

hoje lembrei-me dos teus lábios de algodão

 

as outras coisas sem significado

desenhando silêncios na garganta do pôr-do-sol

um barco chora

magoa-se nas montanhas do amor

e da solidão dos cabelos castanhos da Primavera

ou

hoje

adormeço abraçado ao teu retrato.

 

(poema não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:41

05
Mai 11

 

 

Eu, um perfeito idiota de crucifixo ao peito, pulseirinha nos braços e um anel, eu, um perfeito idiota de chapéu na cabeça em pose de puta à espera de engate com dois dentinhos e sorriso de merda; o meu retrato.

 

- Ri-se de quê este palhaço?

 

Ri-se de quê este palhaço, eu, um perfeito idiota, perdido nas cânforas manhãs adormecidas da cidade, deambulando pelas ruas com um cordel na mão que suspende um papagaio de papel e com um sorriso espanta as gaivotas junto ao mar, eu, um perfeito idiota, eu sentado junto à estátua da Maria da Fonte, e hoje, hoje não sei o que é, ri-se de quê este palhaço,

 

- Eu, um perfeito idiota de crucifixo ao peito, pulseirinha nos braços e um anel, e hoje não crucifixo, e hoje não pulseiras, e hoje não anel, e hoje não sorriso, hoje à espera da chegada da maré e me leve para o infinito ao encontro de duas rectas paralelas, carris em perfeito estado de desolação, cansados, carruagens em desassossego que esperam transeuntes complicados, fodidos como eu com a vida,

 

E a vida ri-se de quê este palhaço, desempregado, fodido, humilhado, crucificado na freguesia do Carmo numa manhã de nevoeiro, as galinhas na capoeira, e as pombas deitadas no cansaço das galinhas, e ela, e ela encostada às mangueiras que faziam sombra sobre o meu quintal, não chove, ri-se de quê este palhaço deitado no capim e com medo do regresso, e porquê, e porquê me trouxeram, eu morto, eu enterrado, eu à espera do paquete, e como eu teria desejado que se afundasse na passagem do equador,

 

- Eu, um perfeito idiota de crucifixo ao peito, pulseirinha nos braços e um anel, empoleirado nas grades do navio, e ao longe, ao longe o meu triciclo que ficou lá, ao longe um papagaio de papel em brincadeiras na chuva,

 

Ri-se de quê este palhaço?

 

E a chuva a fugir-me, e a chuva a esconder-se na minha mão, e a minha mão encostada à mesinha, e pergunto, e pergunto-me,

 

- Ri-se de quê este palhaço?

 

O meu retrato.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

5 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:38

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