Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

10
Dez 15

Este apeadeiro sem telhado

Sofrido nas frestas e nas ripas e nos pregos

A farsa de um comboio vomitando na noite escura

Palavras

Apitos

E homens de chapéu negro

Inventam uma revolução

Eles gritam

“queremos pão”

Não é crime pedir pão

Não é crime ler com um pão na mão

Crime é sentir a liberdade

Sentada

Numa jaula com grandes de cartão…

Crime é não ter a liberdade desejada.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:25

29
Nov 14

A astronomia loucura do profeta

as paredes encarceradas do guerreiro desconhecido

à força e pela força

o cansaço espaço de luz nos confins rochedos da melancolia

a astronomia

embriagada pelos momentos sem pressa

numa carta de despedida

sem palavras

ou... ou remetente

uma aventura na escuridão da cama do sonambulismo

os cigarros absorvidos pela morte do fumo colorido...

e um caixão de espuma poisado nos alicerces da canção de revolta

 

cessem este destino

e o silêncio

da atmosfera encarnada em comestíveis soluços de desejo

a astronomia loucura do profeta

sentado em frente ao espelho da agonia

sem sentido

sem... sem melodia

antes de acordar o dia

 

o vento sofrido

o corpo mordido pelos meus dedos

o odor embalsamado do prazer

em finíssimos gemidos

e uivos...

e no entanto

não existem ruas na minha mão

casas

flores

nada

apenas... um rio adormecido numa fotografia

e um Domingo desorganizado e despido...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 29 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:17

05
Dez 12

As veias que não tenho

porque vendi-as para comer

as mãos que me tremem

porque também as vendi

não para comer

apenas porque senti

vontade

desejo

de deixar de escrever

morrer caminhando suavemente sobre a neve invisível

que desce a montanha

as veias que não tenho

e que ninguém amanha

estas palavras poucas

ou loucas

bocas em revolta

que este povo apanha

porrada

desemprego

fome

medo

medo de quê?

revolta-te se ainda tens veias

revolta-te se ainda não vendeste as tuas veias

para comer

para escrever

ou simplesmente para amar

mas revolta-te por favor

revolta-te homem do mar...

medo de quê?

porrada

desemprego

fome

medo

medo de quê?

não há medo que adormeça um homem

não há palavras que acorrentem os braços do homem

que não se deixa adormecer

pelo medo

pela fome

medo de quê?

revolta-te homem.

 

(não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:39

13
Mai 12

travestis

putas

homens honestos

ruas em cidades

aldeias sem ruas

prédios sem janelas

e luas

nuas

sem portas de entrada

jardins floridos

fodidos

a literatura

os livros

o medo

todos os sonhos

na sepultura

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:25

05
Ago 11

Vai o mar

E não volta

Em teus lábios de beijar

O sorriso da gaivota,

 

Em tua mão eu poisar

O meu silêncio neblina

Regressa o mar

Ao teu corpo de menina,

 

Vai o mar

E não volta

E se evapora ao acordar,

 

E do vento amanhecer

Grita no areal a revolta

A criança a sofrer…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 09:33

28
Jul 11

Tentei de tudo

E não consigo

Descalcei-me no rio

E galguei socalcos

 

Subi montanhas

Desci ao inferno

Escondi-me nas sombras

E aterrei no xisto em migalhas

 

Tentei de tudo

Fiz peito ao vento

Atirei pedras às estrelas

E nas nuvens adormeci

 

Tentei de tudo

Mas o meu corpo de barco enferrujado

Teima em ancorar-se na esquina da rua

À espera que uma alma bondosa de sucateiro

 

O venha desmantelar…

Tentei de tudo

Senhores vejam só

Até rastejar pelo chão fui capaz

 

E afinal não adianta tentar

Não vale a pena lutar

Tentei de tudo

E para quê?

 

Escreves bem, dizem alguns…

És inteligente, dizem outras...

Aos primeiros que metam a escrita cu acima

E às segundas que introduzam a inteligência na vagina

 

Se não és filho de pai rico

Se não lambes botas

Ou se não tens cartão do PS ou PSD

Estás completamente fodido…

 

E acredita

A cultura é uma merda que não serve para nada

O homem quer-se inculto

A cuspir no chão e a dizer palavrão…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:16

23
Jul 11

Tenho livros para ler, tenho livros para olhar, e dentro de mim nascem palavras que se cansam numa folha de papel impressa na impressora da tarde, tenho comida (pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar), e cama para dormir, e quanto a doenças as pequenas enxaquecas de um tipo de quarenta e cinco anos, depressão alguma e quase nada, e pouca coisa, e quanto dinheiro na algibeira as migalhas do costume,

 

De que me queixo?

Absolutamente de nada.

 

Tenho tudo comparado com os que não têm nada. Há quem não tenha comida, há quem lute desesperadamente pela vida, há quem não tenha casa nem cama para dormir, e há quem não tenha família, e eu, e eu orgulho-me de ter uma, há quem não tenha mulher para amar, e eu tenho uma e sou amado, e há quem não seja amado.

 

E há aqueles que não tendo comida, casa para viver, cama para dormir, família para abraçar, livros para ler e olhar, e que dentro deles não nascem palavras para escrever, e a doença come-os em pedacinhos a cada vinte e quatro horas do dia, e mesmo assim, mesmo assim lutam para viver.

 

E eu revolto-me porque não tenho um trabalho. E eles caralho? E eles que não têm nada?

 

E eu, estupidamente me queixo e me lamento.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:05

11
Jul 11

Reduzam,

As freguesias

Autarquias

E o número de Tias,

Os hospitais

Escolas que estão a mais

E os Generais,

 

Reduzam,

Todos os jardins

E afins

E as pedras nos rins,

E não esquecer nunca a literatura

A gordura

E os buracos de fechadura,

 

Reduzam,

As pilas murchas da cidade

A felicidade

E a saudade,

Os candeeiros

Os paneleiros

E os petroleiros,

 

Reduzam,

Os feriados

Namorados

E os morgados,

A noite quando adormece

As mamas que fogueiam e aquece

O sémen dilatado da manhã quando desaparece,

 

Reduzam,

A puta que os pariu

O menino que sorriu

E fugiu,

Os barcos no mar

Deus que deixou de sonhar…

Mas nunca reduzir a palavra GRITAR…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:02

05
Jul 11

Sobre o arame dos dias

Caminho silenciosamente para a outra margem

Poiso-me como se fosse um pássaro

Quando nos lábios emagrece a aragem

 

Das horas dos dias e dos meses,

O vento balança-me e sinto-me embriagado

Pela pasmaceira de estar vivo…

E continuar firme como um calhau lançado

 

Rabina abaixo.

Que quereis vós de mim senhores da terra?

Que me ajoelhe e vos lamba as botas

E engula as rochas da serra?

 

E nem a fome vergará o meu esqueleto decrépito

Porque o meu corpo poderá vender-se, e porque não?,

Mas a minhas convicções e ideais

Jamais se venderão,

 

Vender o meu corpinho sim

Lamber botas é que não,

Irrita-me dá-me nojo

Alergia e comichão.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:07

28
Jun 11

Ou fofinha como as espigas de milho hummmmm,

O poema é lindo,

Quando a voz que o constrói é um sorriso de vento no silêncio da noite nas mãos de uma flor adormecida no soalho da terra húmida depois de regada e as palavras fluem como sons musicais nas árvores da casa, na biblioteca os pássaros sentem o poema a entranhar-se nas penas transparentes e o candeeiro desce lentamente até adormecer no pavimento, os tacos de madeira ranhosos pingam liquido mucoso e no inverno incham e aumentam de volume, a água solidifica e rompe as ligações químicas, o poema acorda, o poema esfrega os pequeníssimos olhos de botão de rosa, olha os pássaros e deita-se sobre a secretária de madeira onde eu poiso os meus braços, onde eu prego murros com o martelo das mãos, e bato com a cabeça, é dura como cornos, a cabeça, a secretária, os cornos,

- O poema,

Rija como as pedras, três filhos,

Olha os pássaros e no vidro da janela escrevem O poema é lindo, as pessoas alimentam-se de poemas?, ele a ler livros antes de adormecer, não adormece, os intestinos ficcionados na noite e diarreia e sílabas e vogais e a merda que se espalha nos lençóis de mar da cama, o cheiro intenso a papel, o cheiro intenso a tinta, e a voz que o constrói rouca e a voz que o constrói suicida-se janela abaixo, e a cabeça da voz rola como uma formiga de asas vermelhas no tecto das rochas envenenadas pela fome, e o poema,

- Fode-se,

Três filhos rija como as pedras desbotados no fim de tarde,

O poema morre.

As palavras dentro da sanita afogam-se no mijo dos pássaros,

FIM DA FICÇÃO E PRINCÍPIO DA REALIDADE,

Qualificação superior à média, educado, maluco, doido, e às vezes, às vezes revoltado, que vive num país, num país de merda que lhe diz que aos quarenta e cinco anos não serve para nada, lixo, e está na hora de partir, partir e cagar-me para a troika e para a puta que os pariu, e que no desespero, e que no desespero está disponível para trabalhar com TRAFICANTES DE DROGA, REDES BOMBISTAS OU OUTRA MERDA QUALQUER, desde que tenha um salário para viver; EU.

Pedimos desculpa pela interrupção e voltamos à FICÇÃO,

Roda o coisinho do autoclismo e as palavras dispersam-se no cacimbo junto ao rio, no musseque o sol começa a esconder-se na sombra dos miúdos que desenham círculos na terra, o capim cobre-lhes as pernas queimadas de tristeza, é dura como cornos a noite, é dura como cornos a vida, é dura como cornos a cabeça que me mantém em equilíbrio como um poste de electricidade, os candeeiros dos meus olhos fundidos, e o escuro sobe pelo meu corpo e entra-me pelo nariz, e dou-me conta que sai fumo das minhas orelhas; curto-circuito interno, o indicador pisca-pisca do lado direito com um ataque cardíaco, e os médios, os médios com fractura do fémur,

- Acorda e durante a noite uma espiga de milho entra-lhe no olho esquerdo,

Ou fofinha,

Como a seda que alimenta o meu peito,

Os dias de inferno.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:44

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