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Cachimbo de Água

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A morte

Francisco Luís Fontinha 3 Mai 19

A morte.

A tempestade dos cadáveres poéticos,

Quando do espelho, ao anoitecer, a mão do poeta sufoca o próprio poeta.

O comboio alimenta a morte,

O poema,

O texto.

O corpo do poeta evapora-se nos lábios de uma rosa,

Voa,

E chora ao anoitecer.

A morte.

A fragrância das palavras deitadas sobre a mesa,

Um candeeiro a petróleo vomita lágrimas de luz,

Escrevo,

Apago o que anteriormente escrevi,

Porque não faz sentido,

Porque a morte é parva, estúpida e ignorante…

A faca,

O pescoço alicerçado à lâmina,

O frio do aço que escorrega debaixo das mangueiras,

E nos braços, junto aos pulsos, a cratera do desespero,

Sem perceber o significado do sonho!

As nuvens suspensas na madrugada,

De hoje,

De ontem…

E de amanhã.

A morte,

A sagrada morte num corpo sofrido, silenciado pela sombra…

Nos teus braços.

Adormecer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

03/05/2019

As rosas são como o amor.

As de papel, claro,

Secam,

Folheio cada pétala,

E em pedacinhos de nada,

Fumo-as.

O amor arde,

Será que depois fico apaixonado?

Ou louco?

Será a loucura clonagem da saudade?

Ou será a saudade apenas o fingir que se ama…

Fico estonteante,

As rosas, em papel, depois de fumadas… enlouquecem as mãos do poeta.

A caneta de tinta permanente começa a lançar borrões sobre as palavras,

O resto das pétalas das rosas, como-as…

Como se fossem uvas,

Ou laranjas,

Ou tâmaras…

(fofam-se as tâmaras)

O amor é fumo, pedaços de cinza, morrão, papel queimado.

E no fim do dia, acabará o amor?

E se eu fumar o poema?

A cidade comer-me-á?

As rosas são como o amor.

As de papel, claro,

Secam,

Emagrecem,

E morrem.

Se as rosas morrem! O que acontecerá ao amor que é uma rosa em papel?

Os cromossomas,

As células loucas no pulmão da minha mãe…

Mas o amor… esse… vive… está lá…

Sentado sobre a mesa-de-cabeceira.

Ao lado tenho um livro de AL Berto…

Que mais poderia ser…

AL Berto.

O Pacheco é mais livro de secretária, de café,

Adoro tomar café com o Pacheco.

Sabes… puta que os pariu.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

23/04/2019

Morre-se de quê?

Francisco Luís Fontinha 5 Abr 19

Das lágrimas do mar de rosas,

Nasceram os teus olhos de Primavera.

Dançam as andorinhas sobre a poeira tarde,

Como palavras brincando com o vento.

Das lágrimas do mar de rosas,

Obtenho o silêncio dos teus lábios,

Tão belos, no chão desenhados,

Na eira brinco com o papagaio de papel,

Corro, corro, corro sem parar,

E abraçar,

O teu corpo,

De silício.

Grito pelo mar,

Sempre ausente de mim,

Eu que vivi,

Sobre o mar,

Sobre o vento,

E hoje, pareço um transatlântico traumatizado pelas ondas melódicas da noite,

O profano,

O homem da paixão,

Que por engano,

Que por medo,

Diz não,

Diz não.

Das lágrimas do mar de rosas,

Nasceram os teus olhos de Primavera.

Pego na tua mão de porcelana,

Acaricio o teu rosto de cristal,

E no final da tarde,

À hora do lanche,

Ofereço-te um beijo,

Sem perceber,

Que habita em mim o Oceano teu desejo,

São os livros, meu amor,

São os livros que que alimentam a paixão.

 

Morre-se de quê?

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

05/04/2019

A morte entre parênteses

Francisco Luís Fontinha 28 Mar 15

Não entendo os teus cabelos em cerâmica doirada

Como as andorinhas desnorteadas

Entre árvores

Entre filamentos de saudade

Sobre a cidade

Dos sonhos

Acordar

O espelho da vida

Em liberdade condicional

Espera

Caminha

A pedra ensanguentada

Das ruelas em flor

O ruído ensurdecedor dos morangos

E das plásticas cabeças de alfinete

O fato prisioneiro no guarda-fatos

O meu esqueleto

Dentro do fato

Os sapatos

As meias

E todo o resto

Em chamas junto ao rio

Não entendo o perfume dos teus lábios

O sorriso que se alicerça em ti

E me sufoca

Quando acorda a noite

E a noite me transporta

Para a carta sem remetente

Oiço-te

E não percebo porque brilham os teus cabelos

Dentro do cubo de gelo

Da paixão

Em aventuras

Entre árvores

Entre filamentos de saudade

Saudade…

Dos sítios obscuros com pulseiras de vidro

Cacos

Sílabas

Na seara do cansaço

Atrevo-me a olhar a lua

E não querendo ofender ninguém…

A lua suicida-me contra os pigmentos do prazer

Não sei

Como poderia eu saber

Se as candeias se extinguiram nas marés de prata

Os sonhos

Os sonhos acorrentados ao silêncio

O medo de amar

Não amando

E comer

Todas as pétalas da rosa embalsamada

Tão triste

Eu

Neste cubículo de lata

Sem janelas

Sem… sem nada

Como uma simples folha de papel

Desesperada

Sobre a secretária

Eu mato-a com a caneta

Escrevo palavras

Palavras

Que só o mar consegue entender

E… escrever

Nos meus braços

Dentro de mim há buracos negros

E as equações da relatividade

Sós

Entranhando-se no camafeu alicerce do sofrimento

Como eu sabia

Antes de a madrugada bater-me à porta

Olá bom dia

Meu amor…

Hoje não

Volte para a semana

Não

Não quero comprar nada

Hoje

Porque sinto a solidão

Nos arrozais

E nos pássaros

Que os homens constroem

Enquanto o poeta morre…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 28 de Março de 2015

As tuas mãos

Francisco Luís Fontinha 9 Jun 14

As tuas mãos são pétalas de rosa,

não de uma rosa qualquer,

têm coração de prata,

sabem a palavras acabadas de escrever,

uma rosa, uma sombra, e pedaços de luar,

pétalas de silêncio mergulhadas nos meus lábios,

desejos de amar,

amar... as tuas mãos, as pétalas... sem esquecer o teu olhar,

 

As tuas mãos são frágeis,

como jarras de porcelana onde adormecem as rosas que têm pétalas com perfume de madrugada,

amo-as, amo-as sem o saber,

às tuas mãos, entrego o meu corpo cansado, o meu corpo de estanho...

o meu corpo envenenado pela solidão,

o meu corpo envenenado pelo teu sorriso de amanhecer,

 

(oiço-as no meu peito, os gritos teus, e os solstícios suicidados)

 

As tuas mãos... as tuas mãos me encantam,

são sons melódicos que se abraçam a nuvens poéticas,

frágeis,

macias,

tão finíssimas... Meu Deus, que tenho medo de lhes tocar!

que tenho medo que me toques, e se evaporem na neblina de Belém,

 

(oiço-as, oiço-as e tenho-lhes medo)

 

Podem quebrar,

podem morrer,

… podem se apaixonar,

 

As tuas mãos são pétalas de rosa,

são mimos,

são... são néons perpendiculares deambulando na cidade,

as tuas mãos, ai... ai as tuas mãos de felicidade,

quando imaginam círculos de areia em busca de uma gaivota revoltada,

elas te olham, e elas ficam encantadas...

com as tuas mãos, com as pétalas das tuas mãos,

rosas, rosas castigadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 9 de Junho de 2014

falsos sorrisos

Francisco Luís Fontinha 17 Mai 14

vendem-se falsos sorrisos

conquistam-se corações de espuma

que se embrulham em impregnados livros com sabor a solidão

escrevem-se falsas palavras

no corpo da insónia

 

desenham-se círculos nos seios da madrugada

choram as meninas do amanhecer

há rosas envenenadas

há rosas com vontade de morrer...

vendem-se falsos rios e falsas caravelas

 

vendem-se cidades de vidro

com ruas de porcelana

e corpos de nada

e corpos... e corpos de néon marinheiro

nos seios da madrugada.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 17 de Maio de 2014

rosas tuas mãos

Francisco Luís Fontinha 26 Abr 14

as rosas tuas mãos em decomposição

sinto-lhes o perfume de palavras em construção

o poema evapora-se no corpo nu da madrugada

dizem-me que deixaste de olhar o amanhecer

que... hoje és apenas uma árvore

sem folhas

sem... as rosas tuas mãos em decomposição

esperando que venha o rio e com ele o silêncio das lágrimas embainhadas no Luar.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 26 de Abril de 2014

espuma verde

Francisco Luís Fontinha 29 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

um pequeno silêncio de espuma verde envolvia o teu corpo

a nuvem do desejo acordava lentamente nos teus olhos

havia um pequeno holofote a que chamavam de solidão...

e permanentemente em suspenso... começava a desaparecer do céu tua mão

o medo vestia-se com a roupa tua da noite anterior

trazias na algibeira pequenos sons melódicos e papeis poéticos

que decidimos lançar na fogueira da lareira da insónia

abrimos a janela da noite

e a noite recebeu-nos como se fossemos dois pássaros moribundos

cansados de voar

o teu corpo mergulhava no meu

e um líquido esponjoso ressaltava contra os vidros tristes da madrugada

queria ser como tu

uma rosa sem destino

sem nome

apenas numa palavra...

apenas

e só

uma letra prisioneira no teu cabelo castanho...

tínhamos o luar e as estrelas convexas do céu da inocência

e as lágrimas da tarde junto ao rio

deixaram de correr no teu rosto de roseira brava

agarravas-me com os teus dentes de marfim

e sentia no meu peito as tuas garras de mpingo solitárias das ruas da cidade dos morcegos

e tão triste

o apego

o sossego

o desemprego...

e só

tão só

que suicidou-se ao primeiro segundo de acordar a luz triangular do sorriso...

desgovernado

embriagado...

apenas

e só...

ele... o coitado... um pequeno silêncio de espuma verde envolvido no teu corpo.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 29 de Dezembro de 2013

então um dia

Francisco Luís Fontinha 6 Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

então um dia vou cobrir o teu corpo de rosas...

inventar o sono que dormirá sobre os teus seios em pedaços de pétala

então um dia vou saborear os teus lábios como se fossem pequenos favos de mel

como se fossem Primaveras embebidas em silêncios

mergulhadas

como se a luz fosse uma janela

e o mar

a jangada por onde foges

corres

invisível no corredor da solidão

então um dia voarás nos meus braços

e do teu sorriso uma fina lâmina de madrugada embriagar-se-á com o teu corpo salgado

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

cansaços de amêndoa

Francisco Luís Fontinha 30 Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

(detesto rosas

porque picam

porque podem ser em papel

e ardem)

 

detesto as madrugadas envenenadas pelos teus beijos vestidos de mendigo

quando poisam sobre o tabuleiro do pequeno-almoço

e na mesa-de-cabeceira espera por ti uma fina e tímida folha

com a débil despedida

abro a janela e começo a voar em direcção ao vazio

percebendo que em ti

e de ti

as palavras são como pedaços de cigarro semeados no cemitério do medo

e há paixão no teu corpo

uma lareira de desejo percorrendo as minhas mãos de areia húmida

como dizem que às gaivotas aparecem durante a noite vómitos de sobejadas paixões

em cansaços de amêndoa

 

(detesto rosas

porque picam

porque podem ser em papel

e ardem)

 

ardem as rosas

e o corpo das rosas

ardem os filhos das rosas

e os filhos do corpo das rosas

ardem os poemas

e as canetas de tinta permanente...

ardem...

como limalha de aço suspensa nos teus lábios

beijar-te sabendo que és um corpo vulnerável

incendiável

um corpo... volátil como a minha voz quando sinto a tua presença

… assim... como o teu... como as sílabas decalcadas nos seios do amanhecer...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

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